Bitcoin desafia modelo 60/40, diz Fidelity
O Bitcoin voltou a ganhar espaço no debate institucional. Um estudo recente da Fidelity Digital Assets indica que manter exposição zero ao ativo passou a exigir justificativas mais robustas, sobretudo diante de mudanças no cenário macroeconômico.
O relatório, publicado em 25 de março, analisa o papel do Bitcoin na construção de portfólios modernos. Segundo Chris Kuiper, diretor de pesquisa da Fidelity Digital Assets, a discussão deixou de ser se o ativo deve ser incluído, passando a considerar qual alocação faz sentido e por quê.
Bitcoin ganha espaço na diversificação de portfólios
Em primeiro lugar, o estudo destaca o desempenho histórico do ativo. A Fidelity aponta que o Bitcoin liderou retornos entre diferentes classes em 11 dos últimos 15 anos. Ainda assim, esse dado deve ser interpretado com cautela, considerando a volatilidade elevada e os diferentes ciclos de mercado.
Além disso, métricas como Sharpe e Sortino permanecem competitivas em determinados períodos. Ao mesmo tempo, os títulos tradicionais enfrentaram pressão, especialmente em cenários de inflação elevada e juros mais altos. Dessa forma, o contraste reforça o argumento de diversificação.
O relatório também aborda características estruturais do Bitcoin. Entre elas, destacam-se a oferta limitada, a baixa correlação histórica com ativos tradicionais e a sensibilidade à liquidez global. Segundo a análise, variações na oferta monetária M2 apresentaram forte correlação com o preço do ativo ao longo dos últimos anos, embora a própria Fidelity ressalte que correlação não implica causalidade.
Comparação com ouro e impacto na alocação
Ao comparar o Bitcoin com o ouro, o estudo sugere que ambos podem atuar como proteção em determinados cenários macroeconômicos. No entanto, possuem dinâmicas distintas, o que abre espaço para atuação complementar dentro de portfólios diversificados.
Na simulação de um portfólio tradicional 60/40, a inclusão do Bitcoin em pequenas proporções elevou os retornos ao longo do tempo. Embora a volatilidade tenha aumentado, o retorno ajustado ao risco apresentou melhora em diversos cenários. Nesse contexto, alocações entre 1% e 3% mostraram resultados consistentes.

Outro ponto relevante envolve o risco. As perdas máximas não aumentaram de forma proporcional à inclusão do ativo em níveis baixos. Em parte, isso se deve à baixa correlação e ao rebalanceamento periódico, que ajuda a evitar concentração excessiva.
Modelos indicam potencial, mas com ressalvas
Em seguida, a Fidelity aplicou um modelo de otimização média-variância. Mesmo com premissas conservadoras, como retorno anual estimado de 25% e volatilidade de 50%, o portfólio otimizado apresentou cerca de 9,4% em Bitcoin e nenhuma alocação em títulos.
Além disso, uma simulação baseada no Critério de Kelly apontou uma alocação teórica elevada, podendo chegar a 65%. No entanto, a própria gestora destaca que esse número não deve ser interpretado como recomendação prática. Com hipóteses mais moderadas, a alocação cairia para algo próximo de 10%.
Limitações do modelo 60/40 entram em debate
Por outro lado, o estudo questiona a sustentabilidade do modelo 60/40. Historicamente, esse formato se beneficiou da queda dos juros e da valorização simultânea de ações e títulos. Entretanto, esse ambiente pode não se repetir no futuro.
No caso da renda fixa, o relatório aponta perdas recentes e aumento da correlação com ações. Além disso, há risco de retornos reais negativos em cenários de inflação persistente e expansão da dívida global. Já no mercado acionário, avaliações elevadas podem limitar ganhos futuros.
Nesse sentido, o Bitcoin surge como uma alternativa complementar. A Fidelity não estabelece uma alocação universal, mas indica que pequenas exposições podem impactar significativamente o desempenho de longo prazo.

Gráfico do preço do Bitcoin | Fonte: TradingView
No momento da publicação, o Bitcoin era negociado próximo de US$ 69.935. Em suma, o estudo reforça o potencial do ativo como diversificador, ao mesmo tempo em que reconhece riscos relevantes, exigindo análise criteriosa por parte dos investidores.