Bitcoin e Ethereum: Meitu vende tudo e lucra US$ 80 mi
A desenvolvedora chinesa de aplicativos de beleza e imagem Meitu, listada em Hong Kong, vendeu toda a sua tesouraria em criptomoedas por US$ 180 milhões e registrou lucro de US$ 80 milhões. Em comunicado divulgado em 4 de dezembro, a companhia confirmou a liquidação integral de 904 BTC e 31.000 ETH, encerrando sua exposição a ativos digitais no balanço.
O movimento ganhou relevância porque ocorreu pouco antes de o Bitcoin alcançar o marco histórico de US$ 100.000. Ao longo de cerca de três anos, a Meitu alocou US$ 100 milhões em ativos digitais. Portanto, o retorno representa ganho de 80% sobre a base total investida.
Segundo a companhia, 80% dos recursos líquidos da venda irão para os acionistas por meio de um dividendo especial em dinheiro, com pagamento previsto para junho ou julho de 2025. Além disso, os 20% restantes seguirão para o negócio principal da empresa, focado em imagem e design. Com isso, a administração reforça uma reorientação estratégica para produtos de software por assinatura.
Meitu fecha ciclo de três anos em criptoativos
A decisão marca um momento relevante para a adoção corporativa de ativos digitais na Ásia. Afinal, a Meitu foi a primeira grande empresa não ligada ao setor financeiro nem ao mercado de criptomoedas, listada em Hong Kong, a manter Bitcoin e Ethereum em sua estratégia de tesouraria. Por isso, o mercado passou a chamá-la de “MicroStrategy da Ásia”.
A relação da empresa com esses ativos começou em 5 de março de 2021, quando ela comprou 15.000 ETH e 379 BTC. Em seguida, em 17 de março de 2021, realizou uma segunda rodada de aquisições, com mais 16.000 ETH e 386 BTC. Somente essa segunda tranche custou US$ 50 milhões. Assim, as duas operações somaram US$ 90 milhões em compras líquidas divulgadas.
Naquele momento, o conselho justificou as aquisições pelo potencial de valorização dos ativos digitais. Ademais, apresentou a estratégia como forma de diversificar a tesouraria além do caixa. A empresa também citou a expansão agressiva da oferta monetária global, que pressionava o poder de compra das reservas tradicionais.
Volatilidade de 2022 não impediu o lucro
Essa abordagem aproximou a Meitu de um grupo ainda pequeno de companhias abertas que passaram a alocar recursos corporativos em Bitcoin e Ethereum, entre elas Strategy, Tesla e Square. No entanto, o caso da Meitu tinha perfil próprio, já que incluía Ethereum em escala relevante ao lado do Bitcoin.
O percurso entre a entrada e a saída esteve longe de ser linear. Em 2022, durante o mercado de baixa, o Bitcoin caiu para menos de US$ 16.000 em seu pior momento, enquanto o Ethereum recuou para abaixo de US$ 900. Ainda assim, a Meitu manteve a posição durante toda essa fase de forte volatilidade e só vendeu os ativos depois da recuperação expressiva dos preços.
No resultado final, a empresa informou investimento de US$ 100 milhões e venda por US$ 180 milhões. Logo, o lucro de US$ 80 milhões decorre da diferença entre a base total investida e a receita bruta da liquidação. Embora as duas primeiras compras somem US$ 90 milhões, o valor total informado indica ajustes de custo ou acumulações adicionais ao longo do período.
Metaplanet assume liderança corporativa na Ásia
Com a venda total da posição, a japonesa Metaplanet passa a ocupar o posto de maior detentora corporativa de Bitcoin na Ásia. Desse modo, a mudança tem peso simbólico e prático em um momento no qual a adoção institucional segue em ritmos diferentes nos mercados da região.
Outras empresas asiáticas também mantêm exposição, como a companhia japonesa de games Nexon e o Brooker Group, da Tailândia, embora o ranking exato dependa das cotações de mercado. Ainda assim, a troca de liderança mostra que a adoção corporativa de criptomoedas na Ásia continua dinâmica e sujeita a ajustes estratégicos conforme mudam preços, regulação e pressão de acionistas.
O contraste entre as posturas é claro. Enquanto a Meitu decidiu cristalizar os ganhos e redirecionar capital ao negócio principal, a Metaplanet vem ampliando suas compras de Bitcoin. Em outras palavras, a divergência reflete uma questão central para tesourarias corporativas: tratar ativos digitais como reserva estratégica de longo prazo ou como posição tática, aberta e encerrada conforme a janela de oportunidade.
Dividendos reforçam mudança de estratégia
A estrutura adotada pela Meitu também chama atenção. Ao destinar 80% do valor líquido da operação aos acionistas, a empresa opta por devolver diretamente os ganhos obtidos com criptomoedas. Portanto, não reinveste integralmente os recursos no negócio nem mantém os ativos como reserva financeira. Na prática, isso enquadra a aposta em ativos digitais como ganho extraordinário, e não como linha permanente da estratégia corporativa.
Ao mesmo tempo, os 20% reservados para a área de imagem e design reforçam a prioridade da administração em fortalecer um modelo de receitas mais previsível, apoiado em software por assinatura. Assim, a liderança sinaliza que o negócio principal segue como motor de crescimento, enquanto a exposição ao mercado cripto cumpriu um papel específico de diversificação patrimonial.
Para o mercado, a venda integral antes de o Bitcoin romper os US$ 100.000 deixa uma leitura ambígua. Se o ativo continuar avançando, a Meitu terá aberto mão de valorização adicional. Por outro lado, se houver correção, a decisão poderá parecer especialmente oportuna. Em qualquer cenário, o caso mostra que uma estratégia corporativa com criptomoedas pode começar, atravessar forte volatilidade e terminar com lucro relevante.
Fora dos Estados Unidos, esse episódio também reacende o debate sobre a durabilidade da adoção corporativa de ativos digitais. Enquanto empresas americanas, como a Strategy, defendem o Bitcoin como ativo estrutural de tesouraria, na Ásia o quadro parece mais nuançado. Afinal, pesam fatores como incerteza regulatória, questões contábeis e expectativas dos investidores.