Bitcoin encara juros do Japão no maior nível desde 1995
O alívio recente do Bitcoin ganhou força após o acordo-quadro entre Estados Unidos e Irã para interromper o conflito e reabrir o Estreito de Ormuz. Como resultado, o petróleo Brent caiu cerca de 5%, para US$ 82,95, e mexeu com ativos sensíveis à inflação em todo o mundo. Nesse ambiente, o Bitcoin tocou uma máxima intradiária próxima de US$ 67.300 em 15 de junho, enquanto bolsas subiam e o dólar perdia força ante a maioria das principais moedas.
Assim, o mercado voltou a tratar o Bitcoin como um ativo de risco macroeconômico, em sintonia com petróleo e ações. Por isso, a reunião de 15 e 16 de junho do Bank of Japan, o banco central japonês, entrou no radar dos operadores da maior criptomoeda do mercado. À primeira vista, Japão e Oriente Médio parecem temas distantes. Ainda assim, a ligação entre ambos passa por liquidez global, inflação e custo de financiamento.
Bank of Japan entra no radar do mercado cripto
A taxa básica do Bank of Japan está em torno de 0,75%. Além disso, uma pesquisa da Reuters mostrou que 94% dos economistas esperam alta para 1% até o fim de junho. Se isso ocorrer, será o maior nível desde 1995. Mais de três quartos dos entrevistados também projetam nova elevação, para 1,25%, no quarto trimestre.
Os dados mais recentes de inflação ao produtor no Japão sustentam essa expectativa. Os preços ao produtor subiram 6,3% em maio na comparação anual, acima da previsão de 5,5%. Ao mesmo tempo, os preços de importação em iene avançaram 25,5%. Dessa forma, o banco central ganha espaço para apertar a política monetária, mesmo com a queda do petróleo reduzindo parte da pressão inflacionária global.
Contudo, o mercado também observa um possível contrapeso. Há relatos de que o Bank of Japan avalia pausar a redução das compras de títulos a partir de abril de 2027. Com isso, o banco poderia manter um piso de 2,1 trilhões de ienes por mês em compras de títulos públicos japoneses. Em outras palavras, as compras mensais cairiam de cerca de 2,7 trilhões de ienes entre abril e junho de 2026 para aproximadamente 2,1 trilhões de ienes entre janeiro e março de 2027.
Juros mais altos e liquidez dividem operadores
Na prática, o Bitcoin enfrenta duas forças opostas vindas de Tóquio. De um lado, juros mais altos elevam o custo de financiamento e pressionam ativos de risco. Por outro, uma postura menos dura nas compras de títulos pode aliviar parte desse impacto. Portanto, o efeito final dependerá do sinal que o mercado considerar dominante após a reunião.
O elo mais direto entre a decisão japonesa e o preço do Bitcoin passa pelo carry trade em iene. Quando os juros japoneses ficam muito baixos, investidores tomam recursos emprestados em iene a custo reduzido. Em seguida, direcionam esse capital para ativos com maior retorno em outros mercados. Se o Bank of Japan elevar os juros e fortalecer a moeda japonesa, essa estrutura pode se desfazer rapidamente.
Dados da Commodity Futures Trading Commission até 9 de junho mostraram fundos alavancados com grande exposição vendida contra o iene. Se a decisão do banco central provocar forte valorização da moeda, esses participantes poderão recomprar iene para encerrar posições. Como consequência, muitos ativos comprados com esse financiamento podem sofrer vendas. O Bitcoin tende a aparecer entre os primeiros atingidos por seu beta elevado.
USD/JPY e ETFs definem a próxima direção
Há ainda um fator adicional relevante. O governo japonês já gastou um recorde de 11,7 trilhões de ienes para apoiar a moeda depois que o câmbio superou 160 ienes por dólar em abril e maio. Por isso, o nível de 160 no par USD/JPY virou uma referência central para o mercado após esta reunião.
Se o par recuar abaixo de 158 depois do comunicado do Bank of Japan, o movimento indicará fortalecimento do iene. Também elevará a chance de pressão sobre operações de carry trade, com reflexo negativo em ativos de risco. Em contrapartida, se o USD/JPY voltar a subir acima de 160 mesmo com alta de juros, o mercado poderá interpretar que o banco central segue suave demais diante dos próprios dados de inflação. Nesse caso, o risco imediato de desmonte do carry trade diminui. Porém, cresce a possibilidade de uma alta mais agressiva ainda neste ano.
Independentemente da decisão japonesa, a sustentação do rali do Bitcoin ainda depende do mercado à vista e dos ETFs. O interesse em aberto subiu mais de 4%, para 748 mil BTC, durante a recuperação. Enquanto isso, as taxas de financiamento seguiram negativas, perto de menos 1%. Essa combinação costuma ser compatível com um movimento puxado por fechamento de posições vendidas.
Fluxo dos ETFs segue como principal teste
Os dados da Farside Investors mostraram saídas líquidas dos ETFs de Bitcoin durante boa parte do período entre 27 de maio e 11 de junho. Apenas em 12 de junho houve quebra nessa sequência, com entrada líquida de US$ 85,9 milhões. Ademais, uma nota do Citi estima que os fluxos de ETFs respondem por cerca de 45% das variações semanais no preço do Bitcoin.
Por isso, a retomada consistente de entradas nesses produtos seria o sinal mais claro de que a recuperação atual pode ganhar fôlego além de um simples short covering. Sem esse suporte, a alta recente corre o risco de perder força rapidamente. Esse risco aumenta sobretudo se a decisão do Japão apertar as condições financeiras globais.
No cenário mais positivo, o petróleo precisa seguir na faixa baixa dos US$ 80. O Bank of Japan também precisa entregar a alta esperada para 1% com comunicação flexível. Além disso, o iene deve se fortalecer de forma controlada, sem estresse nos rendimentos dos títulos públicos japoneses. Se isso ocorrer, o Bitcoin poderá avançar para a região entre US$ 70.000 e US$ 75.000, especialmente se os ETFs voltarem a registrar entradas em várias sessões.
No cenário base, o banco central eleva os juros para 1% e combina a decisão com uma pausa controlada no aperto via compras de títulos. Nesse sentido, com o USD/JPY estável entre 158 e 160 e rendimentos contidos no mercado de títulos, o Bitcoin pode permanecer negociado entre US$ 64.000 e US$ 70.000.
Já o cenário negativo envolve uma alta para 1% acompanhada de sinalização firme para 1,25% e sem qualquer alívio na frente de compras de títulos. Assim, os rendimentos dos títulos públicos japoneses subiriam e aumentariam o risco de aperto nas posições vendidas em iene. Se esse desmonte do carry trade se espalhar, o Bitcoin pode recuar para a faixa de US$ 60.000 a US$ 64.000. Nesse caso, US$ 65.000 deixaria de atuar como suporte e passaria a funcionar como resistência.
Em um quadro de maior estresse, com reação desordenada do iene e do mercado de títulos japoneses, o risco passa a incluir um teste abaixo de US$ 60.000. Nesse tipo de movimento, a queda do petróleo teria pouco efeito compensatório. Afinal, o canal dominante deixaria de ser a inflação e passaria a ser o custo de financiamento global.
Fed, FMI e OCDE reforçam o quadro macro
O Federal Reserve também pesa nessa equação. A expectativa é de manutenção dos juros entre 3,50% e 3,75% nesta semana. No entanto, há relatos de que o banco central dos Estados Unidos, agora sob a presidência de Kevin Warsh, pode adotar uma comunicação mais neutra ou até mais dura. A inflação ainda segue acima da meta em mais de um ponto percentual. Portanto, uma alta do Bank of Japan combinada com um Federal Reserve sem sinal claro de afrouxamento reduz o suporte que, em outros momentos, ajudou o Bitcoin em ralis ligados ao alívio geopolítico.
Além disso, as projeções do Fundo Monetário Internacional em abril apontaram crescimento global de 3,1% em 2026 sob um cenário de conflito contido no Oriente Médio. Já os cenários de junho da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico indicaram expansão de 2,8% se a disrupção for limitada no tempo. Caso ela persista, a projeção cai para 2,1%. Em ambos os casos, o foco recai menos sobre um único choque no petróleo e mais sobre as condições financeiras globais.
O acordo envolvendo o Irã removeu uma fonte de pressão inflacionária ao permitir a reabertura do Estreito de Ormuz. Como resultado, o Brent caiu para US$ 82,95, o Bitcoin tocou US$ 67.300 e o interesse em aberto subiu para 748 mil BTC. Ao mesmo tempo, os ETFs registraram apenas uma entrada líquida de US$ 85,9 milhões em 12 de junho após uma sequência de saídas. Agora, o mercado acompanha a possibilidade de o Bank of Japan elevar os juros para 1% e, posteriormente, para 1,25%. Nesse meio tempo, o nível de 160 no USD/JPY segue como referência central para medir o risco de pressão sobre o carry trade.