Bitcoin: EUA avaliam alívio fiscal além das stablecoins
O Congresso dos Estados Unidos abriu uma frente tributária decisiva para os ativos digitais. A Comissão de Meios e Recursos da Câmara dos Representantes realizará, em 9 de junho, uma audiência legislativa sobre tributação de ativos digitais. Além disso, o colegiado receberá comentários por escrito até 23 de junho.
Entre os convidados estão Sarah Reilly, da Fidelity Investments; Lawrence Zlatkin, da Coinbase; Jason Somensatto, do Coin Center; e Mike Kaercher, do Tax Law Center da NYU Law. O debate ocorre em paralelo a outras frentes regulatórias, como estrutura de mercado e regras para stablecoins de pagamento.
Nos últimos meses, o Congresso avançou em temas correlatos. O GENIUS Act criou uma estrutura federal para stablecoins de pagamento. Ao mesmo tempo, o CLARITY Act foi aprovado na Câmara e segue no centro da discussão sobre a organização do mercado.
Nesse sentido, a questão agora é prática. Se ativos digitais podem funcionar como infraestrutura de pagamentos e liquidação, o Congresso precisa decidir se cada pequena ação on-chain deve continuar como evento tributável.
Regra atual do IRS aumenta o custo dos pagamentos
Tratamento como propriedade amplia a complexidade
A base fiscal atual nos EUA parte da posição do Internal Revenue Service, o IRS. Pela orientação do órgão, moeda virtual conversível recebe tratamento de propriedade para fins tributários federais.
Na prática, uma transação com Bitcoin ou outro ativo digital pode exigir cálculo de custo de aquisição, valor justo de mercado e eventual ganho ou perda no momento do gasto. Assim, um pagamento deixa de ser apenas um pagamento.
Em vez de registrar somente a transferência de valor, o usuário pode precisar reconstruir o histórico do ativo. Além disso, o resumo oficial sobre ativos digitais informa que o contribuinte deve responder afirmativamente à pergunta sobre ativos digitais em várias situações. Isso inclui troca por bens ou serviços, troca entre ativos digitais e pagamento de taxa de transferência com ativos digitais.
O mesmo material também destaca que transações com ativos digitais precisam ser reportadas mesmo sem ganho ou perda tributável. Portanto, para investidores de longo prazo, essa exigência pode parecer apenas contábil. No entanto, para quem usa ativos digitais como meio de pagamento, ela cria uma barreira operacional.
Uma compra pequena feita com Bitcoin pode exigir a mesma lógica de uma venda de investimento. Ademais, taxas de rede pagas com ativos digitais também podem gerar registros tributários relevantes, mesmo quando o usuário apenas move recursos entre carteiras sob seu próprio controle.
O Joint Committee on Taxation mapeou esse problema em seu relatório de 2025 sobre ativos digitais. Segundo o documento, nenhum ativo digital recebe tratamento de moeda para fins de imposto de renda federal. Além disso, não existe regra geral de minimis para dispensar a tributação de pequenos ganhos em transações pessoais.
Stablecoins podem receber alívio antes do Bitcoin
Digital Asset PARITY Act mira pagamentos cotidianos
Uma das propostas em discussão mostra como legisladores podem preencher essa lacuna. O Digital Asset PARITY Act reúne medidas sobre pagamentos com stablecoins, origem de renda, operações de empréstimo, regras de wash sale e constructive sale, marcação a mercado opcional, mineração, staking, doações e um estudo do Tesouro sobre pequenas transações com ativos digitais.
De forma mais direta, a proposta prevê que pagamentos qualificados com stablecoins reguladas atreladas ao dólar sejam tratados como dinheiro para fins tributários, desde que cumpram as condições de enquadramento.
Se aprovada, a medida tornaria o uso de stablecoins de pagamento mais simples no comércio diário. Ainda assim, ela resolveria apenas parte do problema. Afinal, pagamentos em Bitcoin e transferências com ativos que não sejam stablecoins continuariam sujeitos ao rastreamento de custo e à apuração tributária.
Por isso, a audiência vai além de um ajuste técnico. O ponto central é saber se o Congresso pretende oferecer alívio fiscal apenas para tokens de dólar regulados ou se quer tratar pequenas transações com ativos digitais de modo mais amplo.
A senadora Cynthia Lummis já defendeu uma regra de minimis de US$ 300, com limite anual de US$ 5.000. Já o pacote PARITY pede que o Tesouro estude alívio para pequenas transações e publique orientação provisória.
Em outras palavras, uma abordagem privilegia pagamentos com stablecoins. A outra, por outro lado, facilitaria o uso de ativos como Bitcoin em transações de pequeno valor.
Mineração, staking e reporte ampliam a pressão
Formulário 1099-DA reforça fiscalização
As taxas de rede mostram o mesmo atrito em outra camada da infraestrutura blockchain. Elas representam o custo de uso da rede. Contudo, quando o usuário paga essas taxas com ativos digitais, a operação pode gerar registros tributários reportáveis mesmo sem compra comercial envolvida.
Mineração e staking expõem outra distorção. Materiais do IRS e do Joint Committee on Taxation indicam que recompensas são tributáveis quando recebidas pelas regras atuais. Por outro lado, o material do PARITY sustenta que isso cria um problema de fluxo de caixa, porque participantes da rede podem dever imposto antes de vender o ativo recebido.
A proposta, nesse caso, permite uma eleição para diferir o reconhecimento da renda por até cinco anos tributáveis. Dessa forma, a incidência fiscal ficaria mais próxima da alienação do ativo. Para mineradores de prova de trabalho e validadores de prova de participação, esse ponto é operacional, pois eles ajudam a proteger redes e recebem ativos digitais como recompensa.
Outra peça desse movimento é o aumento do detalhamento nas obrigações de reporte. A partir de 2026, as instruções do formulário 1099-DA do IRS determinam que corretores de ativos digitais informem os valores brutos obtidos em vendas após 2025. Além disso, eles passarão a incluir base de custo para ativos cobertos.
As regras também preveem métodos opcionais de reporte para stablecoins e NFTs. Além disso, incluem campos de wash sale para títulos tokenizados. Essas medidas não eliminam as dúvidas do lado do usuário, mas mostram que o sistema tributário dos EUA se tornou mais explícito para atividades com ativos digitais.
Congresso decide qual uso pretende incentivar
Debate fiscal pode redefinir a adoção cotidiana
A composição da audiência indica a amplitude da discussão. Fidelity Investments e Coinbase levam a visão de mercado e de plataforma. Já o Coin Center representa a perspectiva de defesa de políticas públicas para o setor. O Tax Law Center da NYU Law, por sua vez, adiciona uma leitura focada em legislação tributária e administrabilidade para o governo.
Depois da audiência de 9 de junho, o próximo sinal relevante virá em 23 de junho, prazo final para comentários por escrito. A partir daí, o mercado poderá medir se há convergência em torno de um tratamento específico para stablecoins, de uma regra de minimis para pequenas transações, de alívio de prazo para mineração e staking ou de medidas mais rígidas de reporte.
Embora o CLARITY Act permaneça como pano de fundo regulatório, a audiência tributária faz uma pergunta diferente. Mesmo que a estrutura de mercado avance, a utilidade diária dos ativos digitais dependerá das regras fiscais. O ponto é saber se cada pagamento, taxa ou recompensa continuará exigindo controle tributário por lote.
No centro dessa escolha está o tipo de adoção que o Congresso pretende incentivar. Um alívio restrito a stablecoins pode empurrar pagamentos para dólares digitais regulados e deixar o Bitcoin mais concentrado em funções de investimento ou tesouraria. Em contrapartida, um alívio mais amplo para pequenas transações indicaria uma ambição maior para ativos digitais como tecnologia de pagamento utilizável no dia a dia.