Bitcoin: ganhos atraem investidores, aponta Fed de Cleveland
A valorização do Bitcoin pode atrair novos compradores ao elevar as expectativas de retorno. Essa foi a conclusão de um experimento do Federal Reserve Bank de Cleveland.
Os participantes que receberam dados sobre o desempenho do Bitcoin ficaram mais otimistas sobre criptomoedas. Depois, eles apresentaram uma probabilidade cerca de 2,5 pontos percentuais maior de possuir esses ativos.
Antes do experimento, aproximadamente 11% dos respondentes possuíam criptomoedas. Portanto, a mudança representou um aumento de cerca de 23% na probabilidade de posse.
Desempenho passado altera expectativas de retorno
O estudo apresentou evidências experimentais de uma dinâmica comum em mercados especulativos. Ganhos anteriores podem influenciar expectativas futuras e, dessa forma, direcionar decisões de investimento.
A reação foi mais intensa entre pessoas com pouco conhecimento sobre criptomoedas. Assim, períodos de valorização podem atrair investidores que ainda não formaram opiniões sólidas sobre essa classe de ativos.
Michael Weber, Bernardo Candia, Olivier Coibion e Yuriy Gorodnichenko assinam o estudo Do You Even Crypto, Bro? Cryptocurrencies in Household Finance. O trabalho foi publicado em julho de 2026.
O Fed de Cleveland classifica a pesquisa como um working paper, ou seja, um estudo preliminar. A instituição também esclarece que as opiniões pertencem aos autores e não representam o Federal Reserve.
Durante o segundo trimestre de 2025, os pesquisadores dividiram os participantes em grupos. Cada grupo recebeu um tipo diferente de informação financeira.
Um grupo soube que o Bitcoin havia rendido 14,3% nos 12 meses anteriores. Outro recebeu um gráfico de preços referente ao mesmo período.
Enquanto isso, outros grupos receberam dados sobre o S&P 500, a GameStop ou as perspectivas de inflação do Federal Open Market Committee. O grupo de controle não recebeu informações adicionais.
Os participantes que receberam o retorno exato do Bitcoin elevaram em 3,2 pontos percentuais sua expectativa para o ano seguinte. A comparação considerou as projeções do grupo de controle.
Já os respondentes que observaram o gráfico aumentaram a projeção em cerca de 1,2 ponto percentual. Nesse sentido, o desempenho anterior mudou as expectativas antes de afetar a posse efetiva.
Exposição desejada cresceu após as informações
As informações sobre Bitcoin também alteraram as carteiras desejadas pelos participantes. Os dois tratamentos elevaram em cerca de 2 pontos percentuais a parcela que eles pretendiam alocar em criptomoedas.
No grupo de controle, a alocação média alcançava 4,3%. Com isso, o avanço correspondeu a quase metade da exposição inicial.
A maior parte dos recursos adicionais sairia de contas correntes, poupança ou dinheiro em espécie. Posteriormente, os pesquisadores entrevistaram os participantes novamente para verificar decisões efetivas.
Quem recebeu o retorno do Bitcoin apresentou probabilidade 2,41 pontos percentuais maior de declarar posse de criptomoedas. Entre os participantes que viram o gráfico, o aumento chegou a 2,48 pontos percentuais.
Como poucos respondentes mudaram sua condição de proprietário, os autores combinaram os dois grupos relacionados ao Bitcoin. O resultado conjunto teve significância estatística, com p-valor de 0,017.
A distribuição aleatória permitiu relacionar as mudanças posteriores ao conteúdo apresentado. Contudo, o experimento não prova que toda alta produzirá demanda semelhante. Tampouco mede o impacto dessas compras sobre os preços.
Outros mercados produziram efeitos menores
O estudo também encontrou sinais de que o entusiasmo por um investimento de risco pode alcançar outros mercados. Participantes expostos a informações do S&P 500 ficaram mais propensos a possuir criptomoedas.
Por sua vez, o gráfico da GameStop elevou a alocação desejada em criptomoedas. Entretanto, a mudança não produziu diferença estatisticamente significativa na posse posterior.
Os tratamentos ligados ao Bitcoin apresentaram a relação mais clara entre informação, retorno esperado e exposição desejada. Em seguida, parte dessa intenção converteu-se em posse de criptomoedas.
Proprietários demonstram expectativas mais otimistas
Os resultados reforçaram uma divisão observada em pesquisas domiciliares realizadas durante vários anos. O trabalho usou dados do Nielsen Homescan Panel, que acompanha dezenas de milhares de lares dos Estados Unidos.
A posse de criptomoedas avançou de aproximadamente 3% dos respondentes em 2021 para cerca de 11% em 2022. Até meados de 2023, o índice chegou a aproximadamente 12%.
Mais tarde, a participação recuou vários pontos percentuais. Depois, recuperou o patamar de 12% quando o Bitcoin superou US$ 120.000 em 2025.
A idade apresentou a maior diferença demográfica. Após controlar outras características, os pesquisadores identificaram maior participação entre pessoas com menos de 40 anos.
Esse grupo apresentou probabilidade 13 pontos percentuais maior de possuir criptomoedas do que pessoas com mais de 60 anos. Homens registraram probabilidade aproximadamente 4 pontos percentuais maior do que mulheres.
Renda, emprego e riqueza financeira também mostraram associação com a posse. No entanto, as crenças sobre retorno e risco explicaram melhor as diferenças.
Em 2021, proprietários esperavam retorno de cerca de 22% para o ano seguinte. Não proprietários projetavam aproximadamente 7%.
Uma diferença semelhante permaneceu em 2025. Proprietários esperavam retorno de 13,8%, enquanto não proprietários projetavam cerca de 4,7%.
Retorno esperado e risco percebido tiveram quase o dobro do poder explicativo dos fatores demográficos. Em contraste, a divisão mostrou menor intensidade em ações, títulos e ouro.
Conhecimento influencia a reação dos investidores
Cerca de 40% dos não proprietários disseram saber pouco sobre criptomoedas. Quase 90% desse grupo não apresentou uma projeção numérica de retorno.
Esses participantes estiveram entre os mais sensíveis às informações sobre o Bitcoin. Por outro lado, pessoas que consideravam criptomoedas um investimento ruim alteraram menos suas alocações desejadas.
O padrão indica que altas podem atrair principalmente investidores indecisos. Aqueles que rejeitavam firmemente essa classe de ativos responderam menos aos ganhos anteriores.
Valorização também influencia o consumo
A pesquisa apontou que ganhos do Bitcoin podem alterar o consumo das famílias expostas a criptomoedas. A valorização mostrou associação com uma maior aquisição de bens duráveis.
Os pesquisadores analisaram uma família hipotética com toda a carteira financeira alocada em criptomoedas. Se o preço do Bitcoin dobrasse, a probabilidade de comprar um bem durável subiria 1,4 ponto percentual naquele trimestre.
Os efeitos mais claros apareceram em compras grandes e ocasionais, como computadores e geladeiras. Em contrapartida, os autores encontraram menos evidências de crescimento persistente nas despesas recorrentes.
O efeito sobre os gastos desapareceu no trimestre seguinte. Esse padrão difere da riqueza financeira tradicional, pois ganhos em ações e títulos apresentaram relação mais forte com o consumo rotineiro.
Os autores compararam essa resposta aos ganhos temporários obtidos em jogos de azar. Nesses casos, as famílias tendem a financiar compras únicas, sem elevar o consumo de forma permanente.
Portanto, a alta do Bitcoin pode ampliar a riqueza no papel e mudar expectativas de potenciais compradores. Os autores consideram que extrapolar retornos recentes pode contribuir para a formação de bolhas.
Ainda assim, o experimento não determina se o Bitcoin está sobrevalorizado. Também não comprova que novos compradores sustentam as altas. O estudo mostra apenas como informações sobre ganhos anteriores podem alterar decisões financeiras.