Bitcoin: IA e alavancagem explicam US$ 10 bi liquidados
O Bitcoin recuou em direção aos US$ 60.000 na semana passada e expôs um ponto sensível do mercado cripto. Quando o apetite por risco muda, posições alavancadas podem virar venda forçada em poucos dias.
A maior criptomoeda do mundo caiu quase 14% no período. Como resultado, o movimento provocou cerca de US$ 10 bilhões em liquidações de posições compradas em futuros. Na prática, traders posicionados para uma nova alta perderam suporte rapidamente.
Depois disso, o ativo recuperou parte das perdas e voltou para a região de US$ 63.000. Ainda assim, o repique não encerrou a discussão sobre as causas de uma das correções mais intensas de 2026.
Avaliações da Charles Schwab e da NYDIG indicam que o movimento refletiu mais de um fator. Ao mesmo tempo, parte do capital especulativo migrou para inteligência artificial, negócios privados de tecnologia e outras apostas de crescimento. Além disso, o posicionamento em futuros de Bitcoin ficou mais congestionado antes da queda.
Capital especulativo migra para inteligência artificial
A fraqueza recente surgiu quando investidores reavaliaram onde estavam os retornos especulativos mais fortes. Jim Ferraioli, chefe de pesquisa e estratégia de ativos digitais da Charles Schwab, afirmou que investidores em criptomoedas alternam repetidamente para a principal operação de momento de cada ciclo.
Segundo ele, esse comportamento já apareceu em metais preciosos, contratos futuros de petróleo durante o conflito com o Irã, ações ligadas a memória e veículos privados de investimento associados a futuras ofertas públicas. Nos últimos meses, porém, a inteligência artificial passou a ocupar esse papel com mais força.
Ademais, a escala dos gastos com IA atraiu recursos para ações listadas, infraestrutura de data centers e mercados privados. Para parte dos investidores, o Bitcoin deixou de ser a principal forma de expressar uma visão otimista sobre tecnologia de alto crescimento. Assim, a IA se tornou uma concorrente direta por atenção e liquidez.
O presidente executivo do conselho da Strategy, Michael Saylor, destacou essa pressão após a queda do Bitcoin. Segundo ele, cerca de US$ 400 bilhões foram direcionados para infraestrutura de IA nos últimos seis meses. Em contrapartida, os ETFs spot de Bitcoin listados nos Estados Unidos registraram aproximadamente US$ 4 bilhões em saídas desde meados de maio.
Esse contraste indica uma disputa mais ampla por capital. Afinal, o Bitcoin já não concorre apenas com ouro, outros ativos digitais ou operações macro. Agora, disputa recursos com uma narrativa de IA que se consolidou como a principal história de crescimento nos mercados financeiros.
NYDIG vê rotação para tecnologia privada
Greg Cipolaro, chefe global de pesquisa da NYDIG, também apontou a IA como uma das forças que pressionam o Bitcoin e o mercado cripto em geral. De acordo com Cipolaro, Bitcoin e IA atraem perfis semelhantes de investidores. Ambos oferecem exposição a tecnologias emergentes, grandes mercados endereçáveis e forte potencial de retorno.
Como as ações ligadas à inteligência artificial mantiveram desempenho superior, o capital seguiu para a tese com maior impulso. Do mesmo modo, esse deslocamento apareceu no mercado privado. Investidores passaram a se posicionar para uma possível onda de grandes listagens de tecnologia. Empresas como SpaceX, OpenAI e Anthropic aparecem como candidatas naturais a futuras estreias em bolsa.
Além disso, ofertas desse porte costumam levar instituições a levantar caixa ou reduzir posições existentes antes de fazer novas alocações. Para o Bitcoin, isso significa demanda marginal mais fraca em um momento delicado do ciclo. A adoção da rede não necessariamente piorou. No entanto, a ação de preço perdeu vigor porque investidores passaram a comparar o mercado de criptomoedas com uma tese tecnológica de tração mais forte.
Alavancagem ampliou a queda do Bitcoin
A correção ganhou força porque traders haviam reconstruído risco no mercado de derivativos antes da venda. Jim Ferraioli afirmou que o movimento refletiu um ambiente de alavancagem crescente, ainda que abaixo dos excessos vistos em outros períodos.
Ele observou que o interesse em aberto nos futuros caiu para cerca de US$ 31 bilhões em fevereiro, depois de atingir aproximadamente US$ 70 bilhões no pico anterior. Em maio, entretanto, o indicador já havia voltado para perto de US$ 51 bilhões. Dessa forma, operadores retomaram exposição alavancada à medida que o Bitcoin subia novamente.
Quando o mercado virou para baixo, essas posições passaram a alimentar a própria pressão vendedora. Segundo Ferraioli, quase US$ 10 bilhões em posições compradas em futuros foram liquidados na semana passada. Além disso, a queda do interesse em aberto durante a correção sugere remoção de exposição, e não substituição por novas apostas.

As taxas de financiamento também voltaram para perto do território negativo. Esse sinal mostra que o viés comprador acumulado na recuperação começou a ser desmontado. Segundo Ferraioli, as liquidações em relação ao interesse em aberto total apontaram uma redução forçada moderada nas posições.
Fundos de hedge lideraram a venda
Esse quadro ajuda a explicar por que a queda acelerou. A rotação para ativos ligados à IA, as saídas dos ETFs e a venda por parte de fundos de hedge reduziram a demanda. Em seguida, o posicionamento dos traders em derivativos ampliou a pressão quando os preços perderam força.
Em um mercado alavancado, a venda pode se tornar automática. Traders pressionados por margem deixam as posições mesmo quando ainda acreditam na tese de longo prazo do Bitcoin. Assim, esse processo empurra os preços para baixo até que parte relevante da exposição saia do mercado.
Ferraioli destacou ainda que os fundos de hedge foram a principal fonte de venda depois que o Bitcoin atingiu seu pico no início de maio. Esse movimento coincidiu com a queda no interesse em aberto dos futuros. Até 31 de maio, os fundos de hedge reduziram sua participação no iShares Bitcoin Trust, da BlackRock, o IBIT, para cerca de 19%, ante aproximadamente 29%.
Em sentido oposto, consultores de investimento ampliaram a exposição durante a queda. Ao mesmo tempo, contas de corretoras de varejo também reduziram suas posições. Em outras palavras, alocadores mais orientados ao longo prazo aceitaram comprar a fraqueza. Já investidores mais táticos preferiram reduzir risco quando o impulso piorou.
Liquidações retiram excessos, mas não confirmam fundo
Na visão de Ferraioli, a ação recente dos preços aponta mais para uma limpeza de alavancagem do que para o início de uma nova onda especulativa. De fato, interesse em aberto em queda, liquidações em alta e taxas de financiamento perto do negativo caminham na mesma direção.
Ainda assim, isso não confirma um fundo. Liquidações forçadas podem aparecer perto do fim de uma venda intensa, mas também surgem no meio de uma queda mais ampla. Portanto, elas não provam sozinhas que a pressão vendedora terminou.
Ferraioli afirmou que as liquidações precisam ser analisadas ao lado do interesse em aberto e das taxas de financiamento. Um quadro mais construtivo exigiria estabilização do interesse em aberto, normalização do funding e perda de força das vendas forçadas. Caso a alavancagem volte a crescer antes da recuperação da demanda no mercado à vista, o mercado pode continuar vulnerável.
Ao mesmo tempo, alguns níveis técnicos e de custo sugerem possível exaustão da queda. O Bitcoin voltou para áreas próximas das mínimas de fevereiro, dos custos eficientes de produção dos mineradores e da média móvel de 200 semanas. Esses patamares costumam atrair atenção de traders em busca de sinais de desaceleração das vendas por estresse.
Por fim, a questão central é saber se esses suportes conseguirão competir com a rotação mais ampla de capital para IA e tecnologia privada. A recuperação até US$ 63.000 mostrou retorno de demanda após a onda de liquidações. No entanto, saídas dos ETFs e vendas de fundos de hedge ainda pesam sobre o mercado, conforme apontaram Charles Schwab, NYDIG e Michael Saylor.