Bitcoin não confirma fundo após US$ 1,76 bi liquidados

O Bitcoin tocou a mínima intradiária de US$ 61.349 e desencadeou cerca de US$ 1,76 bilhão em liquidações. Desse total, mais de US$ 1,5 bilhão atingiram posições compradas alavancadas. Depois disso, o ativo reagiu e voltou para a faixa intermediária dos US$ 63.000. Ainda assim, os dados de mercado ainda não confirmam que o pior ficou para trás.

Ao mesmo tempo, as taxas de financiamento migraram para território profundamente negativo, o interesse em aberto passou por forte ajuste e o Índice de Medo e Ganância recuou para 12 pontos. Em outras palavras, o mercado entrou em medo extremo. Assim, a desalavancagem avançou com força, mas a absorção da oferta por novos compradores ainda não apareceu com clareza.

Liquidações retiram excesso, mas demanda segue fraca

Desalavancagem melhora a estrutura técnica

Para Lacie Zhang, analista de research da Bitget Wallet, a onda de liquidações de US$ 1,76 bilhão teve efeito técnico relevante. Afinal, ela removeu do livro de ordens o excesso de apostas otimistas alavancadas. Segundo a analista, a virada das taxas de financiamento para níveis bastante negativos mostra que o viés de alavancagem saiu de uma estrutura superaquecida para uma postura mais defensiva.

Além disso, Zhang destacou que a forte redução do interesse em aberto deixou o posicionamento especulativo consideravelmente mais limpo do que na semana anterior. Na comparação com os mercados tradicionais, ela observou que, no mesmo período, o Dow Jones caiu 1,2%, o S&P 500 recuou 0,7% e o Nasdaq perdeu 0,9%, sem enfrentar evento de desalavancagem de magnitude semelhante.

Na visão da analista, a negociação ininterrupta do Bitcoin, combinada com maior uso de alavancagem e uma base de participantes mais reativa, faz o ativo incorporar pressões macroeconômicas com mais velocidade que as ações. Dessa forma, o mercado cripto pode concentrar em poucos pregões um ajuste que, nas bolsas tradicionais, levaria semanas.

Ainda assim, Zhang considera plausível um novo teste da faixa entre US$ 55.000 e US$ 57.000 caso as saídas dos ETFs continuem. Contudo, ela vê uma janela de probabilidade menor para esse cenário à medida que as condições técnicas se redefinem.

O que a queda do Bitcoin já redefiniu
Tabela após a queda mostra US$ 1,76 bilhão em liquidações, Índice de Medo e Ganância em 12 e Spot Volume Delta no ponto mais fraco desde fevereiro, com a demanda ainda sem confirmação.

Mercado à vista segue fraco e venda continua no radar

O relatório de 3 de junho da Glassnode reforçou essa leitura. Segundo a empresa, o Bitcoin acumulava queda de 13% em sete dias. Enquanto isso, o custo médio de aquisição dos holders de curto prazo recuava para cerca de US$ 76.400. Ademais, o Spot Volume Delta de sete dias ficou decisivamente negativo e atingiu o pior nível desde fevereiro.

Conforme a Glassnode, os vendedores no mercado à vista continuaram dominando os livros de ordens mesmo durante o repique dos preços. Portanto, ainda faltam evidências consistentes de uma retomada duradoura da demanda. Esse ponto importa porque separa um fundo causado por liquidação forçada de um fundo sustentado por entrada de novos compradores.

Geoffrey Kendrick, do Standard Chartered, manteve a projeção de Bitcoin a US$ 100.000 no fim de 2026 e afirmou que boa parte da pressão vendedora pode já ter ocorrido. No entanto, ele alertou que uma queda abaixo de US$ 60.000 poderia acionar nova rodada de vendas, sem um piso natural visível logo abaixo desse nível.

Fluxos em exchanges e ETFs mantêm pressão

Entradas em corretoras enfraquecem a tese de recuperação

Nicolai Sondergaard, analista de research da Nansen, vê os dados de fluxo para corretoras como obstáculo direto à tese de recuperação. De acordo com ele, Bitcoin e Ethereum registraram entradas líquidas em exchanges nas 24 horas seguintes ao salto a partir de US$ 61.000. Assim, o movimento marcou a primeira reversão desse tipo desde as mínimas de 1º de junho.

Quando investidores transferem moedas para exchanges, o mercado normalmente interpreta o movimento como preparação para venda ou redução de exposição. Nesse sentido, o fato de isso ocorrer logo após o repique reforça a leitura de que parte dos participantes aproveitou a recuperação para sair de posições.

Os fluxos dos ETFs também sustentam essa cautela. Os ETFs spot de Bitcoin negociados nos Estados Unidos ampliaram para 13 sessões consecutivas a sequência de saídas, somando cerca de US$ 4,4 bilhões em resgates. Para Sondergaard, esse fluxo confirma o enfraquecimento do sentimento e sugere retorno mais lento entre alocadores institucionais, especialmente fundos de pensão e consultores registrados sujeitos a regras de compliance.

Na prática, a camada estrutural de demanda institucional que ajudou a impulsionar o Bitcoin de US$ 50.000 para US$ 126.000 ao longo de 2024 e 2025, via ETFs, perdeu força desde maio. Além disso, Sondergaard observa que o posicionamento comprado com alavancagem ainda não voltou ao normal. Portanto, mesmo depois da grande onda de liquidações, o mercado pode precisar de novos ajustes antes de formar uma base mais confiável.

Níveis decisivos para validar um fundo

Faixas de preço definem risco e possível recuperação

A região dos baixos US$ 60.000 passou a representar a zona imediata de sobrevivência do mercado. Acima de tudo, os US$ 60.000 funcionam como limite psicológico entre contenção e aceleração da pressão vendedora. Se entradas em exchanges e saídas dos ETFs persistirem ao longo da semana, o cenário mais negativo continua sendo um retorno à faixa entre US$ 55.000 e US$ 57.000.

Por outro lado, uma recuperação para a faixa média ou alta dos US$ 60.000 seria um primeiro sinal de tração. Entretanto, uma confirmação mais robusta estaria próxima de US$ 76.400, nível correspondente ao custo médio dos holders de curto prazo. Nesse patamar, compradores da última pernada de alta voltariam ao zero a zero.

Mapa de confirmação de fundo do Bitcoin
Mapa com cinco níveis de preço mostra as zonas de confirmação de fundo do Bitcoin, de abaixo de US$ 60.000 como risco de nova venda até US$ 76.400 como sinal mais forte de recuperação.

Para reconhecer um fundo mais consistente, os dados precisariam mostrar desaceleração ou reversão das saídas dos ETFs. Além disso, o mercado precisaria ver enfraquecimento das entradas de BTC e ETH nas exchanges, fortalecimento da acumulação por baleias e normalização das taxas de financiamento sem rápida reconstrução da alavancagem no interesse em aberto. A recuperação também precisaria vir de compras no mercado à vista, substituindo as posições liquidadas por nova demanda real.

Até aqui, os números indicam que a fase de venda forçada avançou de forma relevante, mas os vendedores voluntários ainda seguem ativos. Entram nesse grupo os resgates em ETFs, os depósitos em exchanges e os movimentos de redução de risco por agentes sujeitos a regras de compliance. Em suma, o salto a partir de US$ 61.500 ainda parece um evento de reposicionamento, não um fundo confirmado, enquanto persistem os dados de US$ 1,76 bilhão em liquidações, 13 sessões seguidas de saídas dos ETFs e Spot Volume Delta no nível mais fraco desde fevereiro.