Bitcoin se aproxima de US$ 57,3 mil com saídas de ETFs

A correção do Bitcoin ganhou força nas últimas semanas, enquanto a demanda dos investidores dos Estados Unidos enfraqueceu. Assim, a maior criptomoeda do mercado ficou mais exposta a posições alavancadas concentradas abaixo de US$ 60 mil. No momento da apuração, o ativo era negociado perto de US$ 59,8 mil e acumulava queda de 16% no mês.

Ao mesmo tempo, esse movimento aproximou o preço de faixas nas quais liquidações forçadas podem ampliar a pressão vendedora. Além disso, saídas recordes dos ETFs spot de Bitcoin listados nos EUA, desempenho fraco durante o pregão americano e postura defensiva no mercado de opções indicam que os compradores ainda não retomaram o controle.

Demanda dos EUA perde força e pressiona o preço

Em primeiro lugar, um dos sinais mais claros dessa deterioração apareceu no horário de negociação dos EUA. Esse período costumava se beneficiar de maior atividade nas corretoras e de compras de fundos institucionais. Segundo dados da Velo, o retorno acumulado do Bitcoin durante a sessão americana ficou em cerca de -15% no último mês.

Na prática, uma estratégia que mantivesse exposição apenas nesse intervalo teria registrado perda de 15%. Dessa forma, o horário americano passou a atuar como fonte de venda, e não mais como suporte.

Retornos do preço do Bitcoin durante o pregão dos EUA
Retornos do preço do Bitcoin durante o pregão dos EUA. Fonte: Velo

O enfraquecimento do fluxo comprador contrasta com um ambiente político mais favorável ao setor de criptomoedas. Ainda assim, ao longo do último ano, o governo do presidente Donald Trump adotou uma postura mais amigável com a indústria do que a administração anterior. Mesmo assim, essa mudança regulatória e política não se converteu em compras consistentes durante a queda recente do Bitcoin.

Dados da Galaxy Research também mostraram que os ETFs spot de Bitcoin listados nos EUA registraram saídas líquidas de cerca de US$ 6,35 bilhões nos últimos 30 dias. Esse foi o maior volume de resgates entre os 582 períodos móveis de 30 dias analisados pela empresa.

Saídas dos ETFs de Bitcoin
Saídas dos ETFs de Bitcoin.  Fonte: Galaxy Research

Embora isso não signifique pessimismo generalizado, a dimensão dos resgates enfraqueceu uma importante fonte de demanda. Por consequência, o mercado perdeu parte da absorção de oferta que ajudava em ciclos anteriores.

Coinbase Premium Index segue em terreno negativo

Ademais, o Coinbase Premium Index permaneceu em terreno negativo, em aproximadamente -0,13. O indicador compara o preço do Bitcoin na Coinbase com o valor negociado em plataformas offshore. Por isso, ele costuma funcionar como termômetro da demanda relativa dos investidores americanos.

Embora tenha melhorado em relação ao piso observado no fim de fevereiro, perto de -0,25, o índice ainda não voltou ao campo positivo. Em outras palavras, os compradores na Coinbase continuam sem disposição para pagar mais do que traders em corretoras fora dos EUA.

Em conjunto, esses indicadores apontam para uma retração ampla da demanda americana, e não para uma queda isolada em uma única plataforma.

Região de US$ 57,3 mil concentra risco de liquidação

Com a demanda no mercado à vista mais fraca, o mercado ficou mais sensível às posições alavancadas em derivativos. Nesse sentido, João Wedson, CEO da plataforma de análise Alphractal, identificou US$ 57,3 mil como um nível importante de liquidação após analisar dados de 30 corretoras nos 30 dias anteriores.

Níveis de liquidação do Bitcoin
Níveis de liquidação do Bitcoin. Fonte: Alphractal, no X

Níveis de liquidação são faixas de preço em que traders alavancados deixam de ter garantia suficiente para sustentar suas posições. Quando isso acontece, as corretoras podem encerrar essas operações automaticamente. Como resultado, novas ordens de venda entram no mercado em meio à queda e ampliam a volatilidade.

Por isso, a concentração em torno de US$ 57,3 mil representa um risco adicional caso o Bitcoin perca de forma mais decisiva o suporte de US$ 60 mil.

No mercado de opções, a Deribit também mostrou um posicionamento atento a esse cenário de baixa. Segundo a corretora, havia cerca de US$ 1,1 bilhão em posições concentradas no strike de US$ 60 mil. Além disso, outros US$ 1,4 bilhão estavam distribuídos entre os strikes de US$ 50 mil e US$ 55 mil.

Posicionamento do mercado de derivativos de Bitcoin na Deribit
Posicionamento do mercado de derivativos de Bitcoin na Deribit. Fonte: Deribit

Repiques ainda parecem frágeis no curto prazo

Os números mostram uma exposição relevante abaixo do preço atual, embora isso não permita afirmar que todas as posições sejam apostas direcionais de baixa. Afinal, opções também servem para proteção de carteira, geração de renda e estratégias combinadas. Ainda assim, a distribuição dos contratos revela que a atenção do mercado se deslocou da retomada das máximas para a administração do risco.

A estrutura atual do mercado sugere que os compradores ainda não voltaram com força suficiente para reverter a correção. Portanto, eventuais repiques seguem vulneráveis a novas ondas de venda. O analista Axel Adler, da CryptoQuant, destacou o Net Taker Volume Oscillator, indicador que mede a diferença entre compras e vendas a mercado e suaviza o resultado com uma média móvel de 30 dias.

Segundo a leitura citada, o oscilador estava firmemente positivo dois meses antes e alcançou cerca de 1,7% em meados de maio. Naquele momento, compras mais agressivas ajudaram a empurrar o Bitcoin para máximas locais. Depois, o indicador caiu para -0,9% durante a liquidação do início de junho e, mais recentemente, retornou à linha zero.

Oscilador de volume Net Taker do Bitcoin
Oscilador de volume Net Taker do Bitcoin. Fonte: CryptoQuant

O retorno à linha neutra indica que a dominância dos vendedores perdeu força, mas não confirma retomada do controle pelos compradores. Para que a recuperação ganhe consistência, o indicador precisaria avançar de forma clara acima de zero.

Adler avaliou que a leitura atual reflete equilíbrio, mas com iniciativa insuficiente do lado da demanda para sustentar um repique duradouro. Além disso, a atividade de liquidação reforça essa avaliação. O liquidation oscillator da CryptoQuant marcava 18,4%, indicando que posições compradas responderam pela maior parte dos encerramentos forçados.

Trata-se de uma reversão forte em relação a meados de maio, quando o indicador chegou a cerca de -13%. Naquele contexto, a alta de preços forçava a saída de vendidos. Dessa maneira, compradores alavancados passaram a absorver parcela maior das perdas do mercado.

Por fim, os indicadores de apetite ao risco da Block Scholes apontaram para uma retirada mais ampla de exposição no mercado de criptomoedas. A métrica da empresa para o Bitcoin se aproximou de -1,0, faixa associada a apetite ao risco enfraquecido. O Ethereum já havia entrado antes nessa zona. No entanto, a piora do Bitcoin reduziu a diferença entre os dois ativos. Com isso, os dados indicam que investidores diminuem exposição de forma mais ampla no mercado cripto, em vez de tratar o Bitcoin como refúgio relativo dentro do setor.

Sentimento fraco no mercado de Bitcoin
Sentimento fraco no mercado de Bitcoin. Fonte: Block Scholes

Em suma, os dados mostram que a pressão vendedora diminuiu em relação aos momentos mais intensos da queda, mas sem uma volta convincente dos compradores. Com o preço perto de US$ 59,8 mil, saídas de US$ 6,35 bilhões dos ETFs spot nos últimos 30 dias, Coinbase Premium Index em cerca de -0,13 e concentração de liquidações em US$ 57,3 mil, o mercado acompanha a região abaixo de US$ 60 mil como teste decisivo de curto prazo.