Bitcoin sobe a US$ 65 mil, mas Glassnode vê cautela
O Bitcoin voltou à faixa de US$ 65 mil após um dado de inflação dos Estados Unidos abaixo do esperado. A leitura mais branda do índice de preços ao consumidor, o CPI, reforçou a percepção de desaceleração inflacionária e reanimou o apetite por risco.
Historicamente, esse tipo de alívio macroeconômico favorece ativos voláteis. Além disso, quando o mercado passa a precificar condições monetárias menos restritivas, o fluxo para ativos de risco tende a ganhar força. Ainda assim, os dados on-chain indicam que a alta recente do Bitcoin ainda enfrenta resistência entre grupos relevantes de investidores.
Dados on-chain limitam o otimismo com o BTC
Embora o avanço para a região entre US$ 65 mil e US$ 66 mil tenha melhorado o humor do mercado, os detentores de longo prazo, conhecidos como long-term holders, ainda não demonstram convicção plena. Em outras palavras, essa parcela do mercado não trata a recuperação como o início claro de uma nova tendência de alta.
A leitura apresentada pela Glassnode mostra que o volume de perdas realizadas por investidores de longo prazo subiu de forma expressiva à medida que o BTC avançou. Com isso, compradores que entraram perto do topo do ciclo parecem usar o rali de alívio para reduzir prejuízos e encerrar posições, em vez de aguardar uma recuperação mais ampla.

A pressão vendedora, contudo, não vem apenas desse grupo. A Glassnode também publicou que investidores de curto prazo, que compraram perto das mínimas recentes, passaram a realizar lucros em volumes vistos pela última vez no pico de maio.
Na prática, duas forças de venda atuam ao mesmo tempo. De um lado, compradores do topo do ciclo usam a recuperação para cortar perdas. Por outro, compradores do fundo local aproveitam o repique para travar ganhos. Portanto, o Bitcoin precisa de demanda mais forte para absorver a oferta disponível.
Oferta aumenta enquanto a demanda perde força
Esse ambiente fica ainda mais sensível porque a liquidez especulativa nessas faixas de preço aumenta o atrito para a continuidade do movimento. Dessa maneira, a principal dúvida do mercado é se o rompimento dos US$ 65 mil marca uma tendência altista consistente ou apenas mais um rali de alívio dentro de uma estrutura frágil.
Depois de três trimestres seguidos de queda, o dado de inflação ajudou a desencadear uma rotação para ativos de risco. Do ponto de vista técnico, o Bitcoin acumula alta superior a 9% no terceiro trimestre até agora. Além disso, o ativo registra seu primeiro trimestre positivo após perdas médias próximas de 20% nos três trimestres anteriores.
Nesse contexto, o aumento nas realizações de lucro por investidores de curto prazo não surpreende. O ponto de atenção está nos detentores de longo prazo. Afinal, a realização de perdas por esse grupo sinaliza que parte relevante do mercado ainda não enxerga a recuperação atual como o início de uma nova pernada de alta.
Em vez de ampliar posições na queda, parte desses investidores usa o repique para reduzir exposição. Assim, a convicção estrutural que costuma sustentar movimentos mais sólidos segue enfraquecida.
ETFs spot de Bitcoin reforçam sinal de cautela
Esse enfraquecimento também aparece em outro indicador importante. Segundo os dados citados, o volume dos ETFs spot de Bitcoin caiu 78% em relação ao pico. Ao mesmo tempo, a movimentação diária recuou para US$ 1,2 bilhão, contra US$ 4,4 bilhões no topo.

A contração sugere perda de força da demanda puxada pelos ETFs. Como resultado, o mercado opera com liquidez mais fraca justamente quando o BTC tenta sustentar a recuperação. Em essência, o quadro atual do Bitcoin evidencia um desequilíbrio crescente entre oferta e demanda.
A pressão vendedora continua elevada, enquanto os compradores ainda não entraram com intensidade suficiente para absorver essa oferta. Além disso, esse fator ganha peso adicional porque os detentores de longo prazo normalmente funcionam como uma fonte importante de demanda durante correções do mercado.
Faixa de US$ 65 mil pode virar armadilha de alta
Sem uma retomada mais firme da acumulação por essa categoria de investidores, a consolidação do Bitcoin ao redor de US$ 65 mil corre o risco de se transformar em uma armadilha de alta. Ou seja, o movimento pode falhar em confirmar um rompimento sustentável.
Em resumo, os dados reúnem sinais mistos. De um lado, o Bitcoin sobe mais de 9% no terceiro trimestre. De outro, o mercado vê volume de ETFs spot reduzido para US$ 1,2 bilhão por dia, realização de perdas por holders de longo prazo e realização de lucros por compradores de curto prazo que entraram nas mínimas recentes.
O avanço para US$ 65 mil melhora o cenário técnico no curto prazo, mas ainda não elimina os sinais de fragilidade. A menos que a demanda volte a crescer com mais consistência, a recuperação pode perder força justamente na região que o mercado tenta transformar em suporte.