Bitcoin sobe com payroll fraco, mas depende do Fed
O Bitcoin avançou após o relatório de empregos dos Estados Unidos de junho. No entanto, a continuidade da alta ainda depende da reação do Federal Reserve. A criação de vagas fora do setor agrícola somou 57 mil, bem abaixo da estimativa de 110 mil. Além disso, os dois meses anteriores tiveram revisão negativa de 74 mil vagas.
A princípio, o dado reforçou a aposta em cortes de juros. Esse cenário costuma favorecer ativos de risco, pois melhora as condições de liquidez. Ainda assim, outros componentes do payroll impediram uma leitura totalmente favorável a cortes. A taxa de desemprego caiu para 4,2%, contra projeção de 4,3%, enquanto os salários cresceram 3,5% na comparação anual.
Além disso, a taxa de participação da força de trabalho recuou 0,3 ponto percentual, para 61,5%. Dessa forma, a queda do desemprego não refletiu necessariamente um mercado de trabalho mais forte. Em outras palavras, parte do movimento veio de uma força de trabalho menor, o que deixou o quadro mais ambíguo.
Mercado avalia se o Fed aceitará a leitura mais fraca
O pano de fundo segue delicado. Para que a recuperação do Bitcoin ganhe força, a economia precisa desacelerar o bastante para estimular apostas em afrouxamento monetário. Contudo, essa desaceleração não pode sinalizar deterioração severa do crescimento. Assim, o mercado busca um equilíbrio entre alívio e cautela.
Iggy Ioppe, diretor de investimentos da Theo, classificou essa dinâmica como uma armadilha em nota ao mercado.
"O erro para baixo no payroll parece um tropeço no crescimento, e a reação imediata é recolocar cortes de juros nos preços. Essa é a armadilha."
Segundo ele, a taxa de desemprego de 4,2% oferece cobertura suficiente para um Fed mais duro ignorar um único relatório fraco. Portanto, investidores podem estar antecipando um alívio monetário mais rápido do que a autoridade monetária pretende entregar.
Ademais, Ioppe afirmou que os rendimentos reais seguem elevados e continuam pressionando ativos dependentes de uma guinada mais favorável a cortes. Ele também observou que a liquidez reduzida pelo feriado nos Estados Unidos tende a ampliar oscilações de curto prazo.
O Federal Open Market Committee manteve a faixa-alvo dos juros entre 3,50% e 3,75% na reunião de 17 de junho. Além disso, reiterou que a inflação segue acima da meta de 2%. O gráfico de projeções de junho também mostrou estimativas dispersas entre os dirigentes. Parte delas ficou ao redor do nível atual, enquanto outra parte apareceu acima dele.
Kevin Warsh e os filtros para o próximo movimento
Fabian Dori, diretor de investimentos do Sygnum Bank, disse que um dado fraco tende a aliviar de imediato a pressão por novas altas de juros. Com efeito, essa reprecificação aparece rapidamente nos mercados, antes mesmo de a manchete ser totalmente absorvida. Ainda assim, ele ressaltou que números mais fracos não são automaticamente positivos para ativos de risco.
"Um dado fraco reduz de imediato a pressão por alta, e isso aparece na reprecificação antes mesmo de a manchete se acomodar, mas dados mais fracos não são automaticamente positivos."
Na avaliação de Dori, dois filtros serão decisivos. Em primeiro lugar, o mercado precisa saber se o Fed, sob a presidência de Kevin Warsh, reagirá de fato ao relatório de trabalho. Como essa gestão atribui maior peso à credibilidade no combate à inflação, um único dado mais fraco pode não alterar a postura do banco central.
Em segundo lugar, pesa a intensidade do enfraquecimento econômico. Um número fraco, mas ordenado, favorece a tese de alívio de liquidez. Por outro lado, um enfraquecimento profundo pode indicar um problema real de crescimento. Nesse caso, ativos de risco podem cair, mesmo com maior chance de corte de juros.
Dori ainda destacou que a política monetária representa apenas uma parte do quadro de liquidez global. Conforme sua leitura, saldos de caixa do Tesouro dos Estados Unidos, reforma da eSLR e adoção de stablecoins também influenciam o ambiente financeiro.

Com os mercados acionários dos Estados Unidos fechados em 3 de julho por causa do Dia da Independência, e com a CME em horário reduzido no fim de semana prolongado, o mercado de criptomoedas permaneceu como um dos poucos segmentos negociando normalmente. Nesse sentido, o Bitcoin ficou mais suscetível a oscilações ampliadas por manchetes macroeconômicas em um ambiente de menor liquidez.
Bitcoin testa resistência entre US$ 60.000 e US$ 61.000
Matt Mena, estrategista sênior de pesquisa em criptomoedas da 21Shares, afirmou que o Bitcoin começou a precificar o dado de emprego antes da divulgação oficial. Segundo ele, o ativo recuou até uma mínima recente próxima de US$ 57.000 antes de romper a zona de resistência entre US$ 60.000 e US$ 61.000.
Em seguida, o BTC registrou máxima intradiária de US$ 62.056 e passou a negociar ao redor da faixa recuperada entre US$ 60.000 e US$ 61.000. Assim, o movimento mantém viva a tese de rompimento, embora ainda falte confirmação mais firme acima da resistência.
O próximo patamar observado por Mena está em US$ 65.000. Se esse nível for superado, abre-se espaço para uma trajetória até US$ 75.000 até o fim do mês, desde que o impulso se mantenha. Além disso, ele lembrou que julho historicamente figura entre os meses mais fortes para o Bitcoin, com retorno médio de cerca de 7,4% e desempenho positivo em 9 dos últimos 13 anos.
Cenário otimista e cenário de armadilha
No cenário otimista, o mercado interpreta o payroll fraco e as revisões negativas como sinais de desaceleração controlada. Ao mesmo tempo, desemprego e salários seguem longe de um quadro de recessão evidente. Nessa leitura, o Fed preserva a possibilidade de cortar juros mais adiante e permite que o mercado continue precificando esse alívio. Como resultado, o Bitcoin sustentaria a região de US$ 60.000 a US$ 61.000, testaria US$ 65.000 e manteria vivo o alvo de US$ 75.000 em julho.
No cenário negativo, prevalece a armadilha descrita por Iggy Ioppe. O Fed pode considerar o payroll decepcionante apenas como ruído diante de uma taxa de desemprego de 4,2%. Assim, a autoridade monetária não mudaria a postura sobre juros e manteria os rendimentos reais elevados. Nesse caso, a alta do Bitcoin perderia força, a faixa de US$ 60.000 viraria campo de disputa e a zona de liquidação em US$ 57.000 voltaria ao radar.
Por fim, os próximos pregões devem testar se o Bitcoin consegue sustentar esse alívio de preço e liquidez em um mercado esvaziado pelo feriado. Até aqui, o relatório mostrou criação de 57 mil vagas, revisão negativa de 74 mil nos dois meses anteriores, desemprego em 4,2%, salários em 3,5% ao ano, participação da força de trabalho em 61,5% e resistência técnica concentrada entre US$ 60.000 e US$ 61.000, com US$ 65.000 como próximo ponto de confirmação.