Bitcoin sobe com tese da Citadel sobre Estreito de Ormuz

A Citadel Securities avalia que os mercados ainda não precificam corretamente um possível acordo para reabrir rapidamente o Estreito de Ormuz. Em condições normais, a passagem marítima movimenta cerca de 21 milhões de barris de petróleo por dia. Assim, responde por aproximadamente 21% da oferta global.

Para a empresa, investidores seguem pessimistas demais sobre a duração do impasse entre Irã e Estados Unidos. Como resultado, ativos sensíveis ao risco geopolítico podem apresentar distorções. Nesse contexto, o Bitcoin entrou no radar, já que uma eventual normalização da rota pode destravar nova demanda por ativos digitais.

A interrupção no estreito durante o conflito atingiu uma das rotas logísticas mais importantes do planeta. Ao mesmo tempo, o fluxo diário de embarcações caiu de cerca de 138 navios para apenas 2. Por consequência, o petróleo superou US$ 90 por barril, ampliou pressões inflacionárias e enfraqueceu expectativas de crescimento econômico em várias regiões.

Citadel vê pessimismo excessivo sobre a rota

A análise da Citadel Securities aponta que o mercado atribuiu probabilidade alta demais à continuidade da escalada militar. Além disso, plataformas de mercados de previsões, como a Polymarket, refletiram esse sentimento mais negativo. Para a empresa, porém, essa leitura ignora os incentivos econômicos do Irã para restabelecer a passagem o quanto antes.

A tese central indica que Teerã tem forte motivação financeira para reabrir o Estreito de Ormuz. Afinal, a economia do país sofreu forte impacto com o conflito. Dessa forma, a retomada de receitas ligadas ao trânsito marítimo surgiria como uma das vias mais rápidas para recompor caixa.

A análise afirma que o Irã planeja cobrar uma tarifa de US$ 1 por barril dos petroleiros que cruzarem a rota, com pagamento em Bitcoin ou USDT. Considerando o fluxo de 21 milhões de barris por dia, isso representaria US$ 21 milhões diários em receitas de pedágio denominadas em ativos digitais.

Bitcoin e USDT entram na equação do pedágio

Esse desenho ajuda a explicar a reação do mercado cripto. O Bitcoin avançou cerca de 3% diante da perspectiva de reabertura. Além disso, o mercado mais amplo de ativos digitais adicionou aproximadamente US$ 75 bilhões em valor. Para um país sob sanções, Bitcoin e USDT também oferecem uma trilha de pagamentos fora do sistema SWIFT e das relações tradicionais de bancos correspondentes.

Desde que a Citadel Securities publicou sua análise, em 4 de abril, o índice NDX acumulou alta de 13%. Segundo a empresa, esse movimento sugere que ao menos parte dos investidores passou a considerar com mais seriedade a hipótese de desescalada entre Estados Unidos e Irã. Ainda assim, o consenso continua cauteloso.

Se a reabertura ocorrer dentro de um cronograma negociado, a tendência indicada pela análise é de moderação no preço do petróleo. Em consequência, um dos principais vetores de inflação perderia força. Assim, bancos centrais poderiam ganhar algum alívio, enquanto ações e outros ativos de risco tenderiam a reagir positivamente.

Mercado cripto pode reagir por dois canais

No mercado de criptomoedas, o efeito potencial seria duplo. Em primeiro lugar, haveria o impacto direto do pedágio. Isso porque operadores de navios-tanque precisariam adquirir e custodiar Bitcoin e USDT de forma recorrente. Em segundo lugar, uma redução da tensão geopolítica poderia melhorar o apetite global por risco.

Esse segundo canal importa tanto quanto o primeiro. Afinal, quando o petróleo sobe de forma abrupta, investidores costumam revisar projeções de inflação, juros e atividade. Por outro lado, uma queda sustentada da commodity tende a aliviar esse quadro e beneficiar classes de ativos mais voláteis, como tecnologia e criptomoedas.

A Citadel Securities, no entanto, ressalta que a tese depende de avanço diplomático concreto. Embora sinais de cessar-fogo e desescalada entre Estados Unidos e Irã sejam positivos, o histórico de negociações na região recomenda cautela. Ou seja, acordos podem fracassar mesmo em estágio avançado.

Risco político ainda pode travar a tese

Outro ponto de atenção envolve a reação de governos ocidentais a um país sancionado arrecadando taxas em Bitcoin e USDT em uma hidrovia historicamente patrulhada pela Marinha dos Estados Unidos. Nesse sentido, o fator político pode interferir tanto na implementação do modelo quanto na velocidade de uma normalização completa da rota.

A tese combina três vetores centrais. Primeiro, a queda abrupta do tráfego de 138 para 2 embarcações diárias. Segundo, a relevância do corredor para cerca de 21 milhões de barris de petróleo por dia. Por fim, a possibilidade de arrecadação de US$ 21 milhões diários com pedágio em Bitcoin ou USDT, caso a reabertura negociada do Estreito de Ormuz se confirme.

Portanto, o avanço recente do Bitcoin não reflete apenas melhora no humor dos investidores. Ele também incorpora a hipótese de uso prático em uma rota energética decisiva para a economia global. Contudo, essa precificação seguirá sensível a qualquer mudança nas negociações entre Irã e Estados Unidos.