Bitcoin sobe com trégua no Irã e compra da Strategy

O Bitcoin avançou para o maior nível em duas semanas nesta segunda-feira. Além disso, o movimento ganhou força após a trégua entre Estados Unidos e Irã e a nova compra de BTC anunciada pela Strategy. O alívio geopolítico também sustentou ações ligadas ao mercado cripto. Agora, investidores aguardam o principal teste da semana: a primeira reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, o FOMC, sob o comando de Kevin Warsh no Federal Reserve.

Na sessão, o Bitcoin chegou perto de US$ 67.000, com alta de 4% em 24 horas. O avanço ocorreu depois que o Irã confirmou um memorando de entendimento para reabrir o Estreito de Ormuz. Assim, o ativo rompeu a resistência de US$ 64.000 em meio à liquidez reduzida do fim de semana. Em seguida, consolidou parte dos ganhos na abertura de Nova York.

Rali melhora humor, mas não elimina cautela

Apesar da recuperação, Nicolai Sondergaard, analista de pesquisa da Nansen, afirmou que o mercado ainda evita tratar o movimento como retomada consistente. Segundo ele, a notícia do cessar-fogo levou o Bitcoin a US$ 66.000 em um ambiente de baixa liquidez. Ainda assim, muitos operadores seguem cautelosos depois de se frustrarem duas vezes neste ano.

“A notícia do cessar-fogo empurrou o Bitcoin para US$ 66.000 com a liquidez fraca do fim de semana, mas os traders que já se queimaram duas vezes neste ano ainda não estão se reposicionando totalmente”, disse Nicolai Sondergaard.

Segundo o analista, o acordo de abril fracassou e os ataques dos Estados Unidos interromperam uma segunda trégua em 9 de junho. Como resultado, o Bitcoin devolveu todo o rali de alívio nas duas ocasiões. Por isso, na avaliação de Sondergaard, o mercado trata o encontro de 19 de junho, na Suíça, como o verdadeiro marco temporal, e não apenas as manchetes do domingo.

Strategy amplia reservas e ações do setor disparam

A Strategy divulgou um novo formulário 8-K nesta segunda-feira. O documento mostrou a compra de 1.587 BTC por cerca de US$ 100 milhões entre 8 e 14 de junho. Além disso, a companhia financiou a operação por meio de seu programa de oferta de ações no mercado. Com isso, as reservas totais da empresa chegaram a 846.842 BTC.

As ações da Strategy, negociadas sob o ticker MSTR, subiram mais de 9% após a divulgação. O volume intradiário alcançou 16,84 milhões de papéis. Ao mesmo tempo, a Strive, empresa de tesouraria em Bitcoin presidida por Vivek Ramaswamy e negociada sob o ticker ASST, avançou quase 16%, para US$ 17,50. Dessa forma, o papel deu continuidade à recuperação desde a mínima de três meses de US$ 9,00 registrada no começo de abril.

Outras ações relacionadas ao setor também registraram altas expressivas. Coinbase, Robinhood e Circle subiram mais de 5%, refletindo o apetite renovado por empresas com exposição ao mercado cripto.

A leitura de maior interesse institucional também ganhou reforço com Austin Federa, cofundador da DoubleZero. Segundo ele, o entusiasmo de bancos e executivos tradicionais com o setor segue elevado, mesmo em um ambiente sem percepção clara de mercado em forte tendência de alta.

“As instituições adoram cripto. Nunca vi tanto entusiasmo por parte de banqueiros e executivos. Conversando com eles, você não diria que é um mercado de baixa”, afirmou Austin Federa.

Estrutura de preço divide analistas

Mesmo com a melhora no curto prazo, analistas da Bitfinex alertaram que o mercado pode confundir um rali de alívio com retorno real da demanda. A equipe afirmou que o gráfico sugere exaustão dos vendedores no mesmo momento em que surgiu um alívio macroeconômico. Em outras palavras, essa condição difere da presença de demanda genuína e sustentada.

“O que o mercado mostra é a exaustão dos vendedores chegando ao mesmo tempo que um alívio macro, o que é diferente de demanda real. O comportamento de preço em cada um desses casos é muito distinto, e isso nos leva a acreditar que, apesar da recuperação de curto prazo, os compradores ainda enfrentam obstáculos relevantes antes que uma tendência de alta se forme”, destacou a Bitfinex.

A corretora disse acreditar na formação de um fundo temporário, apoiado por vários fatores simultâneos. Entre eles estão a alta de ativos correlacionados, liquidações relevantes que ajudaram a resetar o financiamento e o interesse em aberto, além da exaustão dos vendedores no mercado à vista em meio ao alívio macroeconômico. No entanto, a Bitfinex ressaltou que os dois principais blocos compradores de BTC no mercado à vista, os ETFs e as empresas de tesouraria de ativos digitais, ou DAT, precisam voltar a terreno positivo para que o Bitcoin sustente a demanda.

ETFs mostram sinal inicial, mas sem confirmação

Os dados dos ETFs à vista mostram sinais mistos. Antes de 12 de junho, os ETFs spot de Bitcoin acumulavam cinco semanas consecutivas de saídas líquidas, com quase US$ 1,8 bilhão. Entretanto, a sequência terminou com uma entrada líquida de US$ 85,85 milhões. O movimento teve liderança do IBIT, da BlackRock, com US$ 57,69 milhões, além do FBTC, da Fidelity. Ainda assim, uma única sessão positiva não confirma reversão, embora represente o primeiro sinal de retorno de compradores institucionais.

Federal Reserve vira gatilho decisivo da semana

Para Nicolai Sondergaard e para a Bitfinex, o alívio geopolítico importa, mas o fator decisivo da semana continua sendo o Federal Reserve. Os dias 16 e 17 de junho marcam a primeira reunião de Kevin Warsh como presidente do Fed. A inflação ficou em 3,8% em abril, cortes de juros deixaram de liderar o cenário central e algumas autoridades já levantam a possibilidade de altas mais adiante neste ano.

A expectativa predominante aponta manutenção dos juros na faixa entre 3,50% e 3,75%. No entanto, o mercado acompanha com atenção o novo gráfico de projeções do Fed e a primeira coletiva de imprensa de Kevin Warsh. Esses sinais devem indicar a inclinação do comitê e, por consequência, influenciar o comportamento do Bitcoin.

Na avaliação da Bitfinex, o acordo com o Irã funciona mais como mecanismo de transmissão do que como catalisador isolado. Se a trégua se mantiver, o petróleo pode recuar. Além disso, o componente inflacionário ligado à energia pode perder força, enquanto rendimentos reais e expectativas implícitas de inflação podem aliviar. A procura pelo dólar como porto seguro também pode diminuir. Por conseguinte, essa cadeia de eventos representa o vento favorável mais claro no curto prazo para ouro e Bitcoin.

A Bitfinex também destacou o momento do acordo, firmado na véspera da reunião do FOMC. Dessa forma, uma normalização crível da oferta ajuda o comitê a tratar a alta de maio como transitória. Isso favoreceria a manutenção dos juros, em vez de um aperto adicional diante de um dado acima da meta.

Para os compradores de Bitcoin, o cenário mais positivo ainda depende de três condições: manutenção do cessar-fogo, sinalização neutra ou mais branda por parte de Kevin Warsh e sequência de entradas líquidas nos ETFs. Contudo, nenhum desses fatores está garantido. Nesse sentido, o Bitcoin permanece em uma zona de consolidação entre níveis críticos. O ativo precisa construir uma base de suporte duradoura ou enfrentar o risco de uma nova perna de baixa.

Até aqui, os dados que sustentam o movimento incluem a alta do Bitcoin para perto de US$ 67.000, a compra de 1.587 BTC pela Strategy por cerca de US$ 100 milhões, o avanço de mais de 9% das ações da MSTR, a entrada líquida de US$ 85,85 milhões nos ETFs spot em 12 de junho e a expectativa de manutenção dos juros pelo Federal Reserve na faixa de 3,50% a 3,75%.