Bitcoin: Strategy domina compras corporativas em março

O Bitcoin registrou forte movimentação corporativa em março, impulsionada quase exclusivamente pela Strategy, empresa liderada por Michael Saylor. Ao todo, companhias públicas e privadas adicionaram 47.435 BTC aos seus balanços, o equivalente a cerca de US$ 3,2 bilhões no fim do mês.

Entretanto, dados do BitcoinTreasuries indicam que a maior parte desse volume partiu de um único agente. Ao mesmo tempo, outras empresas reduziram suas posições, o que sugere uma mudança relevante no comportamento corporativo em relação ao ativo.

Strategy amplia posição e concentra participação

Durante março, a Strategy adquiriu 44.377 BTC, consolidando uma das fases mais agressivas de sua estratégia de acumulação. Além disso, em 16 de março, a companhia anunciou uma compra semanal de 22.337 BTC, entre as maiores já registradas.

Para financiar as aquisições, a empresa levantou cerca de US$ 1,57 bilhão por meio da emissão de ações preferenciais STRC e ações ordinárias MSTR. Como resultado, reforçou sua capacidade de seguir comprando Bitcoin em larga escala.

Com isso, a Strategy passou a deter aproximadamente 762 mil BTC, o que representa cerca de dois terços do total mantido por empresas públicas. Ainda que projeções sejam consideradas agressivas, estimativas de mercado indicam que a companhia pode alcançar 1 milhão de BTC caso mantenha o ritmo atual.

Instrumentos financeiros sustentam estratégia

O STRC tem papel central nesse modelo. Trata-se de um instrumento baseado em ações preferenciais perpétuas com taxa variável, projetado para manter valor próximo de US$ 100 e oferecer rendimento anual estimado em torno de 11,5%, ajustado periodicamente.

Durante março, o STRC registrou volumes elevados. Em um único dia, movimentou cerca de US$ 746 milhões e, ao longo de uma semana, superou US$ 2,27 bilhões. Dessa forma, esse fluxo contribui diretamente para sustentar as compras contínuas de Bitcoin.

Além disso, a Strategy anunciou um programa adicional de captação de até US$ 42 bilhões via ATM, dividido entre STRC e MSTR, bem como cerca de US$ 2,1 bilhões adicionais em STRK. Caso os aportes mensais se mantenham elevados e o preço do Bitcoin permaneça estável, analistas avaliam que a meta de 1 milhão de BTC pode se tornar viável no médio prazo.

Outras empresas reduzem exposição ao Bitcoin

Em contrapartida, diversas empresas diminuíram suas reservas. A MARA Holdings vendeu 15.133 BTC, equivalentes a cerca de US$ 1,1 bilhão, com o objetivo de recomprar dívidas.

“A MARA se endividou fortemente para acumular Bitcoin durante a alta e agora vende com prejuízo para pagar essa dívida”, explicou Tyler Rowe, do BitcoinTreasuries.

Com esse movimento, a Twenty One Capital (XXI), liderada por Jack Mallers, assumiu a segunda posição entre empresas públicas, com 43.514 BTC, mesmo sem novas compras recentes. Já a japonesa Metaplanet avançou para o terceiro lugar após adquirir 5.075 BTC, totalizando 40.177 BTC.

Mudanças no ranking e ajustes estratégicos

Outro caso relevante envolve a GameStop, que utilizou 4.709 BTC como garantia em uma operação com a Coinbase Credit. Como resultado, manteve apenas 1 BTC em posse direta, impactando sua posição no ranking.

Além disso, outras companhias também reduziram suas participações. A Exodus Movement vendeu cerca de 1.084 BTC, enquanto a Fold Inc. reduziu 178 BTC. Já a Cango Inc. diminuiu 331 BTC após ajustes em suas operações de mineração.

Dependência crescente da Strategy preocupa analistas

O cenário de março aponta para uma concentração relevante. Excluindo a Strategy, o ritmo de adoção corporativa do Bitcoin mostra sinais de desaceleração desde outubro.

No período, apenas 16 empresas ampliaram suas reservas. Segundo Ryan Strauss, do Bitcoin Consulting Group, isso indica uma dependência crescente de um único player para sustentar o crescimento do setor.

“Sem a Strategy, o cenário muda de crescimento para uma desaceleração clara, indicando redução na convicção corporativa”, afirmou Strauss.

Novo ecossistema financeiro emerge

Apesar desse movimento, um ecossistema financeiro começa a se formar ao redor da Strategy. Pelo menos cinco entidades já anunciaram investimentos no STRC ou estruturas semelhantes.

A gestora Strive, liderada por Matt Cole, investiu cerca de US$ 50 milhões no produto. Ao mesmo tempo, o protocolo DeFi Apyx declarou possuir aproximadamente 450 mil ações do STRC, avaliadas em US$ 45 milhões.

Além disso, fundos e ETFs passaram a deter mais de US$ 2 bilhões em produtos relacionados a crédito digital. Nesse contexto, o STRC responde por cerca de US$ 591 milhões, com participação de instituições como BlackRock, Fidelity e VanEck.

Esse movimento ocorre enquanto o mercado tradicional de crédito privado enfrenta restrições de liquidez. Assim, produtos estruturados com base em Bitcoin ganham espaço ao oferecer maior transparência e rastreabilidade em blockchain.

Em suma, os dados indicam uma concentração crescente no setor. A Strategy não apenas lidera a adoção corporativa de Bitcoin, como também influencia a estrutura financeira ao seu redor, consolidando seu papel como protagonista nesse segmento.