Bitcoin vira tema de segurança nacional nos EUA
O Bitcoin passou a integrar discussões estratégicas nos Estados Unidos, especialmente no campo da segurança nacional. Legisladores pressionam para repatriar a fabricação de equipamentos de mineração, a fim de reduzir a dependência de hardware produzido no exterior.
Ao mesmo tempo, o debate ganhou força após declarações do almirante Samuel Paparo, comandante do Indo-Pacific Command. Durante audiência no Senado, ele afirmou que o Bitcoin deve ser considerado dentro do contexto mais amplo de poder nacional dos EUA.
Mineração de Bitcoin e riscos estratégicos
Durante audiência no Comitê de Serviços Armados do Senado, Paparo descreveu o Bitcoin como uma ferramenta de “projeção de poder”. A fala ocorreu após questionamento do senador Tommy Tuberville, que destacou que a China já trata o ativo como estratégico.
Segundo o almirante, a tecnologia não pode ser ignorada. “O Bitcoin é uma realidade. Trata-se de uma transferência de valor peer-to-peer baseada em confiança zero. Tudo que fortalece os instrumentos de poder nacional dos Estados Unidos é positivo”, afirmou, conforme registro da audiência.
Além do uso financeiro, Paparo destacou o mecanismo de proof-of-work. De acordo com ele, essa estrutura eleva significativamente o custo de ataques, o que reforça a segurança cibernética. Em outras palavras, o modelo dificulta invasões e protege sistemas críticos.
“Fora da formulação econômica, há aplicações muito importantes de ciência da computação para segurança cibernética”, acrescentou. Assim, o Bitcoin passa a ser visto não apenas como ativo financeiro, mas também como tecnologia estratégica.
Uso militar e precedentes no setor
Essa não é a primeira vez que militares dos EUA associam o Bitcoin à segurança nacional. Em 2023, Jason Lowery, membro da Space Force, já havia defendido o uso do proof-of-work além das finanças.
Na ocasião, ele argumentou que a tecnologia poderia proteger dados, comunicações e sinais de comando contra agentes hostis. Ainda assim, suas ideias tiveram alcance limitado fora de círculos técnicos.
Agora, entretanto, o cenário mudou. Um oficial de quatro estrelas levou o tema diretamente ao Senado, o que amplia o peso institucional do debate. Dessa forma, o Bitcoin passa a integrar discussões mais amplas sobre defesa e soberania digital.
Bitcoin sendo negociado próximo de US$ 78.062 no gráfico de 24 horas. Fonte: TradingView
Ao mesmo tempo, a audiência abordou ameaças globais relevantes, como o avanço militar da China, a guerra na Ucrânia, tensões no Oriente Médio e ações da Coreia do Norte. Nesse contexto, a cibersegurança apareceu como elemento central.
Por exemplo, o grupo Lazarus, ligado à Coreia do Norte, foi citado como responsável por roubar bilhões em criptomoedas. Segundo autoridades, parte desses recursos teria financiado programas de armamentos, reforçando a conexão entre ativos digitais e segurança nacional.
Produção de hardware e autonomia tecnológica
Apesar de os Estados Unidos liderarem em reservas governamentais de Bitcoin e manterem forte presença na mineração global, há uma vulnerabilidade relevante. Grande parte dos equipamentos utilizados ainda é fabricada fora do país.
Por isso, cresce a pressão no Congresso para incentivar a produção doméstica de hardware. A medida busca reduzir riscos estratégicos e, ao mesmo tempo, ampliar o controle sobre a infraestrutura ligada ao Bitcoin.
Além disso, a iniciativa se alinha a uma estratégia mais ampla de reindustrialização tecnológica. Assim sendo, o objetivo é garantir maior autonomia em setores considerados essenciais.
Como resultado, as declarações de Paparo reforçam essa tendência. Ao enquadrar o Bitcoin como componente da arquitetura de poder nacional, o debate ultrapassa o mercado de criptomoedas e ganha dimensão geopolítica.
Em conclusão, o ativo passa a ocupar um papel crescente nas discussões sobre tecnologia, defesa e soberania digital, sobretudo diante do avanço de outras potências e do uso estratégico de ativos digitais em cenários internacionais complexos.