Bitwise: mineradoras de Bitcoin arriscam aposta em IA

Mineradoras de Bitcoin estão redirecionando bilhões de dólares e capacidade elétrica escassa para a inteligência artificial. A mudança ganhou força porque a rentabilidade da mineração encolheu nos últimos meses. Com o BTC perto de US$ 64.000, quase 50% abaixo do pico registrado em outubro, a competição elevada na rede e as taxas de transação fracas pressionam as receitas do setor.

Ao mesmo tempo, a infraestrutura voltada à IA ficou mais atraente para várias empresas. Clientes de data centers costumam pagar mais por energia confiável e contratos de longo prazo. Dessa forma, mineradoras encontraram uma nova via para monetizar ativos energéticos que hoje rendem menos quando dedicados apenas ao Bitcoin.

Margens menores aceleram contratos de IA

Algumas das maiores operadoras do setor já começaram a converter instalações, assinar contratos plurianuais de computação e reduzir investimentos em novos equipamentos de mineração. Ainda assim, André Dragosch, chefe de pesquisa da Bitwise Europe, afirmou que parte dessas empresas pode estar fazendo essa mudança no momento errado do ciclo.

Na avaliação de Dragosch, a demanda por capacidade computacional de IA, inclusive a associada a agentes autônomos, pode demorar mais para se materializar do que o ritmo atual de investimento sugere. Em contrapartida, ele acredita que o Bitcoin pode estar perto do fim de sua fase de baixa. Se esse cenário se confirmar, mineradoras podem comprometer capital e energia com IA nos próximos 12 meses justamente quando uma recuperação do BTC voltar a melhorar a economia da mineração.

O halving do Bitcoin de abril de 2024 reduziu o subsídio por bloco de 6,25 BTC para 3,125 BTC. Como resultado, a quantidade de novas moedas recebidas pelos mineradores pela segurança da rede caiu pela metade. Em seguida, a queda no preço do ativo ampliou a pressão porque também reduziu o valor em dólar dessas recompensas.

A VanEck calcula que a receita diária das mineradoras caiu quase 40% na comparação anual e agora gira em torno de US$ 28,5 milhões na média de 30 dias. Ao mesmo tempo, a hashrate elevada manteve a disputa por essas recompensas ainda mais intensa. O hashprice, indicador que mede o rendimento por unidade de poder computacional, caiu para cerca de US$ 30 por petahash por segundo ao dia, depois de tocar mínimas históricas neste ano.

Core Scientific já vê a IA superar a mineração

Esse cenário deixou máquinas mais antigas e menos eficientes próximas ou abaixo do ponto de equilíbrio, a depender do custo da eletricidade. Por isso, algumas empresas já abandonaram a expansão da frota dedicada ao Bitcoin. A Core Scientific, que já esteve entre as maiores mineradoras do setor, informou que não pretende mais gastar com novos equipamentos para manter ou ampliar sua hashrate. Em vez disso, a companhia quer extrair caixa de sua estrutura atual de mineração enquanto direciona mais energia para computação de alta densidade.

Os números do segundo trimestre ajudam a explicar essa guinada. A Core Scientific anunciou que a receita de colocation saltou para US$ 136,7 milhões, ante US$ 10,6 milhões um ano antes, e passou a representar cerca de 83% da receita total. Já a receita de mineração própria de Bitcoin caiu 66%, para US$ 21,5 milhões, respondendo por apenas 13% do total, contra cerca de 80% no mesmo período do ano anterior.

A diferença de rentabilidade ficou ainda mais expressiva. A Core Scientific reportou margem bruta de 59% no segmento de colocation durante o trimestre. Enquanto isso, o negócio de mineração própria registrou margem bruta negativa.

Mineradoras de Bitcoin migrando para IA
Mineradoras de Bitcoin migrando para IA. Fonte: VanEck

Esse movimento não é isolado. No começo do ano, a CoinShares calculou que mineradoras listadas em bolsa já anunciaram mais de US$ 70 bilhões em contratos acumulados de IA e computação de alto desempenho. Além disso, a estimativa da empresa indica que essas companhias podem obter até 70% de sua receita com IA até o fim de 2026, ante cerca de 30% anteriormente.

“Você ganha muito mais dinheiro por elétron quando usa energia para IA do que para mineração de Bitcoin.”

Fred Thiel, CEO da MARA Holdings, disse a frase recentemente. Ela resume a lógica econômica por trás dessa transição.

IA exige mais capital e reduz flexibilidade

Essa mudança não significa converter máquinas ASIC de Bitcoin em hardware de IA, já que esses equipamentos não executam as cargas de trabalho típicas de GPUs. O que as mineradoras conseguem reaproveitar é o acesso à energia, as conexões com a rede elétrica, os terrenos e a infraestrutura de data centers. Esses ativos se tornaram mais valiosos à medida que desenvolvedores de IA disputam locais capazes de suportar grandes clusters computacionais.

Apesar do apelo financeiro atual, a tese de André Dragosch destaca um risco importante. A CoinShares estima que a infraestrutura de mineração de Bitcoin custe entre US$ 700 mil e US$ 1 milhão por megawatt. Já instalações voltadas à IA podem exigir entre US$ 8 milhões e US$ 15 milhões por megawatt. Em outras palavras, mineradoras que entram em computação de alto desempenho assumem compromissos de capital muito maiores e de duração mais longa.

André Dragosch vê risco de timing no ciclo

Esses investimentos também ocorrem em um dos maiores ciclos de gastos em infraestrutura tecnológica já registrados. O Bank for International Settlements estima que as cinco maiores hyperscalers possam investir mais de US$ 1 trilhão em despesas de capital ligadas à IA entre 2025 e 2026. Além disso, o BIS alertou que a competição intensa entre empresas de tecnologia pode resultar em investimento excessivo caso os retornos comerciais não acompanhem o ritmo dos aportes.

Se a receita esperada com IA decepcionar, o desenvolvimento de nova infraestrutura pode desacelerar. Nesse sentido, a demanda por capacidade adicional pode enfraquecer, e o financiamento de projetos baseados em crescimento contínuo da computação pode ficar mais difícil. Dragosch não argumenta que a demanda por IA vá desaparecer. Pelo contrário, ele segue convencido de que a tecnologia será transformadora. No entanto, o ponto central é que mudanças dessa escala podem levar mais tempo para amadurecer do que os ciclos de investimento costumam assumir.

Nesse cenário, a oferta de infraestrutura pode crescer mais rápido do que a demanda comercial. Como consequência, as margens hoje consideradas muito atraentes para as mineradoras podem encolher. O impacto seria ainda mais relevante caso a rentabilidade do Bitcoin se recupere ao mesmo tempo. Uma alta no preço do BTC ou uma melhora no hashprice poderia reduzir a diferença de retorno entre mineração e IA. Contudo, operadoras que já comprometeram bilhões de dólares, capacidade elétrica e infraestrutura em projetos de computação de longo prazo teriam menos flexibilidade para reagir.

No fim, o risco está na perda de opcionalidade. Hoje, a IA oferece a melhor economia para parte do setor. Ainda assim, a mesma decisão pode se tornar um problema se o Bitcoin voltar a remunerar melhor a energia e a infraestrutura já desviadas. Os dados citados por VanEck, CoinShares, Core Scientific e Bank for International Settlements mostram que essa reconfiguração já está em curso, enquanto André Dragosch sustenta que algumas mineradoras podem se arrepender dessa escolha dentro dos próximos 12 meses.