Bitwise vê fundo no Bitcoin após queda de 32,9% no ano

O Bitcoin encerrou o segundo trimestre de 2026 em sua fase de baixa mais longa e fraca desde o último bear market, segundo a revisão trimestral da Bitwise Asset Management para o terceiro trimestre de 2026, publicada pela gestora. Ainda assim, a empresa afirmou que o movimento atual se parece mais com uma base de reconstrução do que com um colapso estrutural do mercado de criptomoedas.

De acordo com o documento, o Bitcoin caiu 13,4% no segundo trimestre e acumula baixa de 32,9% em 2026. Além disso, em junho, o ativo caiu abaixo de US$ 60 mil pela primeira vez desde 2024. Nesse contexto, passou a ser negociado cerca de 52% abaixo do pico de US$ 126.080 registrado em outubro.

Para a Bitwise Asset Management, esse quadro estende o inverno das criptomoedas para nove meses. Ao mesmo tempo, marca o terceiro trimestre seguido de retornos negativos para o índice Bitwise 10 Large Cap Crypto Index, a maior sequência de perdas desde 2022.

Bitcoin supera Ethereum, Solana e Cardano no ano

O diretor de investimentos da Bitwise Asset Management, Matt Hougan, reconheceu a força do pessimismo. No relatório, ele escreveu que o sentimento do setor está entre os piores que viu em oito anos de atuação na indústria. Ainda assim, o Bitcoin resistiu melhor do que outros ativos relevantes de grande capitalização.

A queda de 32,9% no acumulado do ano ficou abaixo das perdas de Ethereum, que recuou 46,9%, da Solana, com baixa de 40,6%, e de Cardano, que caiu 56,5%. Com isso, o Bitcoin passou a responder por 64,2% de um mercado total de criptomoedas avaliado em cerca de US$ 1,88 trilhão. Além disso, dentro do índice Bitwise 10, o ativo representa 77,4% da composição.

Dessa forma, o relatório reforça a leitura de que o Bitcoin segue como o principal refúgio relativo do setor em períodos de liquidação mais ampla. Naquele momento, o ativo era negociado abaixo de US$ 62 mil.

Saídas de ETPs spot batem recorde no trimestre

O dado mais forte do trimestre veio dos produtos negociados em bolsa que simbolizaram a entrada institucional no setor. A Bitwise Asset Management afirmou que os ETPs spot de Bitcoin nos Estados Unidos registraram saídas líquidas de US$ 4,9 bilhões no segundo trimestre. Assim, o período marcou o pior resultado desde o lançamento desses produtos em janeiro de 2024.

Apesar disso, os ativos sob gestão ainda somam US$ 72,4 bilhões, com fluxo líquido acumulado de US$ 53,4 bilhões desde a estreia. No entanto, o movimento mostrou como o apetite institucional pode se deteriorar rapidamente. De acordo com documentos regulatórios, consultores de investimento detêm cerca de 43% das cotas de ETPs em posse profissional, enquanto gestores de hedge funds concentram outros 28%.

Entre os maiores detentores reportados estão Jane Street, com US$ 1,8 bilhão, e Millennium, com US$ 1,0 bilhão. Ainda assim, a demanda estrutural permaneceu acima da nova oferta. A Bitwise destacou que ETPs spot e empresas listadas compraram juntos cerca de 3,6 vezes mais Bitcoin do que o volume minerado desde a estreia dos ETFs.

Em outras palavras, isso equivale a uma demanda de cerca de 1,55 milhão de BTC diante de apenas 455.416 BTC de nova oferta no período.

Empresas ampliam reservas mesmo com venda da Strategy

As tesourarias corporativas de Bitcoin mantidas por empresas abertas chegaram a 1,28 milhão de BTC. Isso representa alta de 11,3% frente ao trimestre anterior e equivale a 6,11% do limite total de 21 milhões de unidades. Além disso, no segundo trimestre, as companhias adicionaram 130.467 BTC.

Ainda que o número de empresas com Bitcoin em balanço tenha recuado em três, para 184, o volume total continuou crescendo. A Strategy segue com ampla vantagem na liderança, com 846.842 BTC. Em seguida, aparecem XXI, com 43.514 BTC, Metaplanet, com 40.177 BTC, MARA Holdings, com 35.303 BTC, e Bitcoin Standard Treasury Company, com 30.021 BTC.

O movimento mais simbólico do período veio justamente da Strategy. A empresa vendeu Bitcoin pela primeira vez desde 2022 e se desfez de US$ 218 milhões no fim do trimestre para cumprir obrigações com dividendos. Mesmo após a venda, suas reservas continuavam avaliadas em US$ 52,3 bilhões. Além disso, a companhia mantinha uma posição de caixa de US$ 2,55 bilhões.

Ao mesmo tempo, a pressão sobre o preço do ativo também atingiu a ação da companhia. Os papéis MSTR caíram 30,3% no segundo trimestre e acumulavam baixa de 42,8% no ano, um dos piores desempenhos entre ações ligadas ao mercado cripto.

Infraestrutura regulada avança nos Estados Unidos

O relatório também apontou mudanças relevantes na infraestrutura de mercado do Bitcoin. A Commodity Futures Trading Commission aprovou os primeiros contratos futuros perpétuos de Bitcoin em uma bolsa regulada nos Estados Unidos, a Kalshi. Dessa maneira, um dos derivativos mais relevantes do setor passou a ganhar espaço no ambiente doméstico.

Ao mesmo tempo, a Charles Schwab lançou negociação spot de BTC para o varejo, enquanto a ETrade ampliou esse acesso para sua base de 8,6 milhões de usuários. Em contrapartida, o projeto de estrutura de mercado conhecido como CLARITY Act perdeu força no Senado por causa de questões éticas.

Segundo a Bitwise Asset Management, os mercados de previsões passaram a atribuir apenas cerca de 20% de chance de aprovação da proposta em 2026, abaixo dos 75% observados em maio. Para a gestora, se o CLARITY Act avançar, isso pode marcar o fundo do ciclo. Se não avançar, a indústria ainda deve seguir seu desenvolvimento sob reguladores mais favoráveis.

Bitwise vê base mais sólida para nova fase do Bitcoin

O argumento central de Matt Hougan é que cada ciclo deixa o setor mais robusto. Além disso, ele citou a sazonalidade do Bitcoin como fator moderadamente positivo no curto prazo, lembrando que julho historicamente registra ganho médio de 10,7%.

Ademais, os estudos de portfólio da gestora mostram que uma alocação de 5% em Bitcoin agregou valor a uma carteira tradicional de 60/40 em 100% das janelas móveis de três anos desde 2014. Na visão de Hougan, o mercado precifica um cenário típico de bear market para uma indústria que hoje tem o dobro do tamanho registrado no fundo do ciclo anterior.

No conjunto dos dados, a tese da Bitwise combina queda de 13,4% do Bitcoin no segundo trimestre, saídas de US$ 4,9 bilhões dos ETPs spot nos Estados Unidos, compras corporativas e institucionais equivalentes a 3,6 vezes a nova oferta minerada e participação de 64,2% do ativo no mercado total de criptomoedas. Ainda assim, a Strategy segue como a maior detentora pública, mesmo após vender US$ 218 milhões em BTC.