BlackRock fatura US$ 82 mi e mira carteiras digitais
A BlackRock gerou US$ 82 milhões em receita com produtos de ativos digitais no primeiro semestre de 2026. O resultado veio apesar da forte queda de Bitcoin e Ethereum. A desvalorização reduziu em quase US$ 30 bilhões o patrimônio que sustenta esse negócio.
No relatório trimestral, a maior gestora de ativos do mundo registrou US$ 42 milhões em taxas básicas e receita de empréstimo de títulos no primeiro trimestre. Em seguida, somou US$ 40 milhões nos três meses encerrados em 30 de junho.
O desempenho prolonga a expansão da companhia em produtos ligados ao mercado de criptomoedas. Essa frente começou com o lançamento dos ETFs spot de Bitcoin e Ethereum em 2024. Além disso, em 2025, esses fundos geraram cerca de US$ 174 milhões em taxas líquidas de patrocínio, impulsionados pela alta dos ativos digitais e pela demanda dos investidores.
Em 2026, porém, a receita mostrou mais resiliência do que o patrimônio final sob gestão. Isso ocorreu porque a BlackRock cobrou taxas sobre saldos médios ainda elevados. Segundo o relatório do segundo trimestre, os ativos digitais médios sob gestão foram de US$ 67,74 bilhões no primeiro trimestre e de US$ 61,48 bilhões no segundo. Já o saldo em 30 de junho caiu para US$ 48,84 bilhões.
Receita resiste à queda dos fundos de criptomoedas
Assim, a diferença entre ativos médios e patrimônio final suavizou o impacto imediato sobre a receita. As taxas ligadas a ativos digitais no segundo trimestre recuaram apenas US$ 2 milhões, ou cerca de 5%, em relação aos três meses anteriores. No mesmo intervalo, o patrimônio final encolheu quase 20%.
Por outro lado, a base de ativos sofreu uma contração expressiva. Desde o início do ano, Bitcoin e Ethereum recuaram mais de 26% cada. Como consequência, os ativos digitais sob gestão da BlackRock caíram 38% no primeiro semestre. O volume passou de US$ 78,44 bilhões no fim de dezembro para US$ 48,84 bilhões em 30 de junho.
Em outras palavras, a maior parte dessa perda veio da desvalorização do mercado, e não de saques dos investidores. A BlackRock atribuiu US$ 27,4 bilhões da queda à baixa dos preços dos ativos. Em comparação, as retiradas líquidas somaram US$ 2,18 bilhões, enquanto o efeito cambial foi de US$ 11 milhões. Dessa forma, cerca de 93% da redução total decorreu da depreciação de mercado.
No primeiro trimestre, os produtos de criptomoedas da companhia ainda atraíram cerca de US$ 934 milhões. Ainda assim, os ativos caíram para US$ 60,67 bilhões em 31 de março, enquanto o valor de Bitcoin e Ethereum mantidos pelos fundos encolheu.
No segundo trimestre, entretanto, o cenário piorou. Os investidores retiraram US$ 3,12 bilhões dos produtos, revertendo com sobra as entradas dos três primeiros meses do ano. Ao mesmo tempo, os movimentos de mercado eliminaram mais US$ 8,71 bilhões. Com isso, os ativos digitais sob gestão recuaram 19,5% entre março e junho.
ETFs spot seguem sensíveis a Bitcoin e Ethereum
Como os fundos spot da BlackRock acompanham diretamente os tokens subjacentes, seus patrimônios podem cair com força mesmo sem resgates equivalentes. Foi o que ocorreu com os principais produtos da casa, o iShares Bitcoin Trust e o iShares Ethereum Trust.
Ambos perderam valor relevante em relação ao início do ano. Ainda assim, os fundos recuperaram parte das perdas após o segundo trimestre, com o Bitcoin voltando para perto de US$ 65.000 em julho.
Em meados de julho, os dois fundos somavam cerca de US$ 52,6 bilhões. Apesar disso, o movimento representava apenas uma recuperação parcial das perdas acumuladas em 2026.
BlackRock amplia estratégia além dos ETFs spot
A retração dos fundos de criptomoedas não mudou os planos da BlackRock para o setor. Pelo contrário, aumentou a importância de frentes capazes de gerar receita com ativos digitais sem depender tanto da valorização de Bitcoin e Ethereum.
Em teleconferência de resultados, o diretor financeiro Martin Small afirmou que a empresa tem cerca de US$ 110 bilhões em ativos ligados a mercados digitais. Segundo ele, a meta é fazer esse segmento gerar US$ 500 milhões em receita anual até 2030.
Esse objetivo representa algo próximo de três vezes o ritmo anualizado sugerido pelos US$ 82 milhões arrecadados no primeiro semestre de 2026. Portanto, a meta indica a necessidade de ir além das taxas cobradas nos ETFs spot de criptomoedas.
Segundo Martin Small, a estratégia se apoia em três eixos principais. A BlackRock quer conectar produtos regulados de investimento aos mercados digitais, administrar reservas que lastreiam stablecoins e levar produtos tradicionais para redes blockchain.
Além disso, a BlackRock já começou a diversificar sua linha. Em fevereiro, lançou o iShares Staked Ethereum Trust ETF, com exposição ao ETH e a uma parcela das recompensas geradas pelo staking do token. Em junho, apresentou o iShares Bitcoin Premium Income ETF, que combina exposição ao Bitcoin com uma estratégia de opções voltada à geração de renda mensal.
Esses produtos ampliam o leque de taxas que a empresa pode captar de investidores em criptomoedas. Contudo, eles continuam sensíveis aos preços de mercado e ao humor dos investidores.
Stablecoins e tokenização ganham peso até 2030
O movimento mais relevante está na gestão de reservas e na tokenização. Martin Small disse que a BlackRock administra cerca de US$ 60 bilhões em reservas para a Circle, emissora da stablecoin USDC. Esse volume representa quase um quinto do mercado de stablecoins, estimado em cerca de US$ 310 bilhões.
A companhia busca mandatos semelhantes com outros emissores à medida que o setor cresce. Dessa maneira, pode gerar taxas de administração sobre caixa, títulos do Tesouro e outros ativos que dão lastro às stablecoins.
Esse tipo de operação permite à BlackRock capturar receitas vinculadas ao crescimento dos pagamentos digitais. Além disso, reduz a dependência de produtos mais especulativos de criptomoedas em períodos de enfraquecimento da demanda.
A gestão de reservas também se encaixa nas operações já existentes de mercado monetário e gestão de caixa da companhia. Afinal, emissores de stablecoins precisam manter ativos líquidos para honrar resgates e, ao mesmo tempo, buscar rendimento sobre esses recursos.
A estratégia de tokenização amplia esse plano ao usar stablecoins e redes blockchain para distribuir produtos convencionais da gestora. Martin Small afirmou que a empresa protocolou recentemente registros para duas ofertas tokenizadas de mercado monetário.
Uma delas criaria uma classe de cotas baseada em Ethereum para um fundo já existente. A outra incluiria recursos voltados ao mercado digital, como reinvestimento diário de dividendos.
A expectativa da BlackRock é que esses produtos estejam disponíveis em múltiplas redes blockchain. Além disso, a estrutura deve permitir subscrições e resgates financiados com stablecoins. Na prática, isso pode abrir caminho para que investidores migrem de dinheiro digital para fundos de mercado monetário sem passar primeiro por uma corretora tradicional ou por uma plataforma bancária convencional.
Os registros se somam ao BUIDL, o fundo tokenizado de Treasuries e gestão de caixa da BlackRock. No longo prazo, a companhia quer aplicar estruturas semelhantes a uma gama maior de produtos. A lista inclui ETFs iShares, carteiras de ações, títulos de longo prazo e investimentos em mercados privados.
“No longo prazo, queremos que os produtos da BlackRock estejam acessíveis de forma nativa nos ambientes onde muitos investidores já mantêm ativos digitais.”
Com isso, carteiras baseadas em blockchain passariam a funcionar como mais um canal de distribuição para os produtos da gestora. Investidores poderiam fazer alocação entre stablecoins, criptomoedas, ações, títulos e fundos de gestão de caixa dentro da mesma conta digital. Martin Small citou uma estimativa de 5 bilhões de carteiras digitais no mundo como sinal da escala potencial desse mercado.
“Queremos construir uma gestora nativa para carteiras digitais.”
Como resultado, a meta de US$ 500 milhões em receita anual até 2030 depende de mais do que uma recuperação dos ETFs spot da BlackRock. O plano também exige avanço em mandatos de reservas de stablecoins, fundos tokenizados e distribuição via blockchain. No primeiro semestre de 2026, a empresa arrecadou US$ 82 milhões mesmo após a queda de 38% dos ativos digitais sob gestão para US$ 48,84 bilhões, com cerca de 93% dessa retração explicada pela desvalorização de mercado.