CFTC prepara regras cripto sem depender da CLARITY Act

A CFTC já preparou propostas para estruturar o mercado de criptomoedas. Assim, a agência poderá avançar em sua agenda regulatória mesmo se o Congresso não aprovar a CLARITY Act.

Michael Selig, presidente da comissão, confirmou a iniciativa em 20 de agosto. No entanto, ele não informou quais propostas estão concluídas nem quando a agência pretende publicá-las.

“As criptomoedas terão uma estrutura de mercado independentemente do projeto de lei.”

Michael Selig, presidente da CFTC, no X.

A declaração não esclareceu quanto desse modelo a CFTC pode implementar com seus poderes atuais. Por isso, o Congresso ainda precisaria ampliar a autoridade da agência sobre o mercado à vista.

Autoridade atual permite regras para derivativos

A CFTC supervisiona mercados de derivativos, como futuros, opções e swaps vinculados a ativos digitais. Sua autoridade também abrange o combate a fraudes e manipulações em transações à vista de commodities.

Contudo, a comissão não exerce sobre exchanges à vista a mesma supervisão rotineira aplicada às plataformas registradas de derivativos. Sem uma nova lei, suas propostas precisam respeitar os limites da Commodity Exchange Act.

Nesse contexto, a agência pode avançar com regras para intermediários, plataformas registradas, divulgações e futuros de criptomoedas. Em contrapartida, um marco federal completo para commodities digitais à vista ainda dependeria do Congresso.

Essa diferença determina qual regulador supervisiona as plataformas usadas pelos investidores norte-americanos. A CLARITY Act criaria um regime de registro para determinadas exchanges e dividiria atribuições entre CFTC e Securities and Exchange Commission, a SEC.

Em linhas gerais, commodities digitais qualificadas ficariam sob supervisão da CFTC. Enquanto isso, a SEC manteria sua autoridade sobre produtos considerados valores mobiliários.

Os parlamentares ainda negociam regras para finanças descentralizadas, restrições éticas e recompensas sobre saldos de stablecoins. Além dessas divergências, uma eventual ampliação das atribuições da CFTC levanta dúvidas sobre pessoal e recursos.

Equipe reduzida pode limitar a supervisão

A comissão deveria ter cinco membros, mas atualmente conta apenas com Selig como comissário confirmado. Ao mesmo tempo, seu quadro de funcionários diminuiu em relação ao nível registrado no ano fiscal de 2025.

As limitações ganhariam importância caso o órgão assumisse a supervisão das negociações à vista. Ainda assim, a agência precisaria manter suas atividades em derivativos, mercados de previsões e fiscalização.

A CLARITY Act pode entregar à CFTC a supervisão principal de grande parte do mercado norte-americano de ativos digitais. Com isso, o órgão teria de analisar registros e monitorar empresas que hoje não acompanha regularmente.

CLARITY Act enfrenta teste no Senado

O líder da maioria no Senado, John Thune, apresentou um pedido de encerramento de debate, conhecido como cloture. A medida busca iniciar a análise da CLARITY Act após o recesso de agosto.

Conforme o calendário do Senado, a votação processual está prevista para 15 de setembro. A aprovação exige 60 votos, portanto o apoio republicano isolado pode não ser suficiente.

Mesmo que os senadores aprovem a cloture, a decisão apenas permitirá o início da análise. O Senado ainda poderá debater e alterar o texto antes da votação final.

A Câmara dos Representantes aprovou sua versão da CLARITY Act em julho de 2025. Posteriormente, o Comitê Bancário do Senado avançou com seu próprio texto em maio de 2026.

Caso as versões sejam diferentes, o Congresso terá de conciliar os textos antes de enviar a legislação ao presidente. As negociações permanecem difíceis por causa das regras éticas e das restrições às recompensas de stablecoins.

As expectativas também recuaram nos mercados de previsões. Em meados de agosto, a Polymarket apontava menos de 20% de probabilidade de aprovação em 2026, ante 82% em fevereiro.

Trump defende uma versão justa do projeto

Durante um evento na Casa Branca em 19 de agosto, Donald Trump pediu uma “versão justa” da legislação. O presidente classificou a proposta como bipartidária e defendeu uma lei federal para preservar as políticas governamentais após seu mandato.

Representantes de Coinbase, Gemini, Ripple, Kraken, Chainlink Labs, Anchorage Digital, Grayscale e OKX participaram do encontro. Executivos ligados a mercados de previsões e inteligência artificial também estiveram presentes.

A reunião ocorreu na véspera da primeira sessão do Comitê Consultivo de Inovação da CFTC. O órgão agendou o encontro inaugural para 20 de agosto, das 13h às 16h no horário EDT, em Washington.

Comitê debate criptomoedas, IA e previsões

A pauta inclui ativos digitais, inteligência artificial nos mercados financeiros e mercados de previsões. Na sessão sobre criptomoedas, os integrantes devem analisar proteção ao cliente, integridade de mercado e os poderes legais atuais da CFTC.

O debate também avaliará como a atuação da agência pode complementar futuras leis do Congresso. Porém, a discussão não substitui as atribuições adicionais previstas na CLARITY Act.

O comitê reúne especialistas e executivos de empresas do setor, instituições financeiras, provedores de infraestrutura e companhias de tecnologia. Embora possa apresentar recomendações, o grupo não aprova normas vinculantes nem amplia a jurisdição da comissão.

O público poderá enviar manifestações escritas até 27 de agosto. A CFTC publicará os materiais aceitos, mas a reunião não terá votação sobre uma proposta de estrutura para o mercado.

SEC conduz iniciativas regulatórias separadas

Paralelamente, a SEC desenvolve regras para ofertas de criptomoedas e valores mobiliários tokenizados. Brett Redfearn, presidente da Securitize, afirmou que o regulador retirou uma isenção de inovação planejada devido às preocupações com a votação de setembro.

Redfearn espera que a proposta retorne após a votação do Senado, possivelmente no início de outubro. A isenção criaria uma rota regulatória para emissão e negociação de valores mobiliários tokenizados sob jurisdição da SEC.

A SEC também cancelou uma reunião aberta marcada para 14 de agosto. Os comissários analisariam uma estrutura separada para ofertas de determinados contratos de investimento ligados a ativos digitais.

A agência atribuiu o cancelamento a um problema imprevisto de agenda. Entretanto, não relacionou publicamente a decisão à CLARITY Act, mantendo as iniciativas regulatórias em frentes distintas.

CFTC consulta mercado de computação para IA

Fora do segmento de ativos digitais, a CFTC solicitou comentários sobre derivativos vinculados à capacidade computacional de inteligência artificial em 19 de agosto. A consulta tem 19 páginas e aborda liquidez, referências de preços, manipulação, proteção ao cliente e futuros perpétuos de computação.

“Os Estados Unidos não podem vencer a corrida da IA sem um mercado robusto de derivativos para computação”, declarou Selig. De acordo com o presidente, a consulta representa o primeiro passo para estabelecer regras nesse mercado.

Um contrato poderia acompanhar o custo de aluguel de processadores gráficos específicos, como Nvidia H100 ou Blackwell B200. Outra opção seria usar como referência determinada capacidade de inferência de inteligência artificial.

O pedido não aprova contratos nem autoriza exchanges a iniciar negociações. O período de comentários ficará aberto por 60 dias após a publicação da consulta no Federal Register.

Até 20 de agosto, o registro ainda não havia publicado o documento. Dessa maneira, a agência ainda não havia definido o prazo final para o envio das contribuições.

O CME Group, por sua vez, estabeleceu 5 de outubro como meta para dois contratos futuros baseados em referências diárias de aluguel de GPUs da Silicon Data. Ambos ainda dependem de revisão regulatória, portanto a data não garante que a CFTC concluirá a análise até lá.