ChatGPT entra em caso do FBI com Patrick Yaroch

As autoridades federais prenderam o ex-agente supervisor do FBI Patrick Yaroch, acusado de desviar cerca de US$ 1 milhão em criptomoedas, misturar os valores com recursos pessoais e usar o ChatGPT para avaliar como investir o dinheiro e se mudar para a Europa.

Segundo uma declaração juramentada apresentada em 1º de agosto, Yaroch encontrou chaves privadas que lhe davam acesso a carteiras digitais descritas nos autos como “contas de criptomoedas adversárias”. A partir disso, ele teria feito cerca de uma dúzia de transferências para si mesmo entre o fim de 2024 e o início de 2025.

Investigação cita consultas ao ChatGPT

De acordo com os investigadores, Yaroch combinou as criptomoedas em disputa com seus próprios fundos. Depois, recorreu ao ChatGPT para avaliar o que poderia fazer com US$ 1 milhão.

As perguntas, conforme a declaração, tratavam de como gastar ou investir esse valor e se ele deveria deixar os Estados Unidos para viver em um país europeu. Em uma das respostas citadas no documento, o chatbot sugeriu Portugal com base em detalhes pessoais compartilhados por Yaroch, como a família, o tamanho de propriedade desejado e seu interesse por vinho.

“Dado tudo o que você me disse, incluindo seu filho, sua esposa, o desejo por uma propriedade de 2 a 5 hectares, interesse em vinho tinto de guarda e o objetivo de realmente viver lá, em vez de apenas possuir uma propriedade, eu não começaria buscando cidadania.”

Na sequência, a resposta apontou Portugal como a principal opção para as circunstâncias descritas por Yaroch. Além disso, as autoridades encontraram a compra de uma passagem para Portugal com partida em 3 de setembro, junto com um voo de retorno.

O processo não indica que o ChatGPT sabia que os fundos eram supostamente roubados. Da mesma forma, os autos não estabelecem que Yaroch tenha seguido as sugestões financeiras do chatbot.

Transferências teriam usado chaves privadas encontradas

As autoridades afirmam que Yaroch usou as chaves privadas descobertas para movimentar os ativos. Conforme o processo citado pelo Wall Street Journal, ele foi preso na sexta-feira sob alegação de ter retirado criptomoedas dessas carteiras.

Yaroch teria dito aos investigadores que estava frustrado com sua incapacidade de fazer mais para impedir que pessoas ligadas a uma “nação adversária” usassem criptomoedas. Ainda assim, os promotores sustentam que ele transferiu os ativos em benefício próprio, e não por meio de um processo autorizado de apreensão ou confisco.

O valor total do suposto desvio foi estimado em aproximadamente US$ 1 milhão. No entanto, os documentos judiciais não identificam quais ativos digitais estavam envolvidos nem revelam de quais carteiras eles teriam sido retirados.

Posteriormente, Yaroch disse a um funcionário do Departamento de Justiça que havia tomado “algumas decisões muito ruins relacionadas a carteiras de criptomoedas”. Em outra entrevista, ele também reconheceu diante de agentes federais que havia cometido um erro grave.

Ex-agente atuava na contrainteligência

Yaroch ocupava o cargo de agente especial supervisor na Divisão de Contrainteligência e Espionagem da sede do FBI. Antes disso, ele trabalhou no escritório de campo da agência em Boston.

Essa posição pode se tornar parte central do caso porque ajuda a explicar como ele teve contato com as chaves das carteiras e com os ativos mencionados na declaração. Mesmo assim, o documento não detalha publicamente como o FBI obteve essas carteiras nem a qual investigação elas estavam vinculadas.

O FBI demitiu Yaroch em 31 de julho, um dia antes do protocolo da declaração juramentada. Mais tarde, ele foi acusado de transporte interestadual de bens roubados e de recebimento de bens, valores mobiliários e dinheiro roubados.

As acusações seguem como alegações, e Yaroch não foi condenado.

Caso reforça debate sobre custódia

O episódio surge em meio a uma renovada atenção sobre controles de acesso e manejo de credenciais de carteiras no mercado de criptomoedas. Nesse contexto, incidentes recentes levantaram novas dúvidas sobre procedimentos de custódia.

A Coldcard, por exemplo, enfrentou escrutínio por uma falha de geração de seed que durou cinco anos e foi ligada a ataques suspeitos envolvendo mais de 1.800 BTC em mais de 5.200 endereços potencialmente afetados. A Galaxy Research alertou, porém, que esses números são estimativas on-chain e não confirmam que um único atacante tenha causado todas as perdas.

Separadamente, a Ostium informou que um invasor comprometeu sua infraestrutura off-chain e manipulou relatórios de preço de BTC-USD para drenar 23,75 milhões de USDC de seu cofre de liquidez. Segundo o protocolo, os contratos inteligentes e os multisigs de governança não foram comprometidos.

O caso de Yaroch difere desses episódios porque trata de um suposto furto interno cometido, segundo a acusação, por um funcionário da polícia federal dos Estados Unidos, e não de uma exploração técnica externa. Ainda assim, o episódio mostra como o acesso a chaves de carteiras pode contornar outras salvaguardas quando os procedimentos de custódia falham.