Chile cancela registro da Plusspay por US$ 84 mi suspeitos

A plataforma de criptomoedas Plusspay perdeu o registro no Chile após decisão da Comisión para el Mercado Financiero (CMF), órgão que supervisiona o mercado financeiro local. Assim, a empresa fica impedida de operar e captar novos clientes no país. Além disso, a autoridade determinou a devolução de todos os ativos mantidos sob custódia em nome dos usuários.

CMF cancela registro da empresa ligada à Plusspay

Em 26 de junho, a Comisión para el Mercado Financiero anunciou o cancelamento do registro da Inversiones Plusservice SpA, responsável pela Plusspay. Dessa forma, a plataforma não pode continuar oferecendo seus serviços no Chile. Ao mesmo tempo, precisa processar retiradas para restituir os depósitos dos clientes atuais.

A empresa se apresentava como prestadora regulada de serviços financeiros. No entanto, segundo a CMF, ela tinha apenas um registro preliminar. Ou seja, ainda não possuía a autorização operacional completa exigida pela legislação fintech chilena. Pela regra local, as empresas primeiro se registram. Em seguida, precisam obter aprovação expressa para atuar junto ao público.

A CMF destacou que a Plusspay concluiu apenas a etapa inicial de registro, mas divulgou sua atuação como se já fosse uma plataforma plenamente regulada antes de receber a autorização complementar exigida.

Segundo a autoridade, esse tipo de conduta exige atenção especial porque pode induzir investidores a erro. Além disso, a fiscalização chilena revisa com mais rigor as empresas enquadradas na Lei Fintech, sobretudo após os primeiros casos de descumprimento das exigências revisadas.

Depósitos em pesos chilenos viraram stablecoins

Durante a apuração, investigadores identificaram um padrão relevante de movimentação. Em primeiro lugar, clientes depositavam recursos em pesos chilenos. Em seguida, os valores eram convertidos principalmente em stablecoins como Tether (USDT) e USD Coin (USDC). Posteriormente, esses ativos seguiam para carteiras digitais e contas bancárias no exterior.

De acordo com os promotores, esse fluxo levantou suspeitas entre as autoridades. Por conseguinte, os reguladores estimaram que o volume de transações consideradas suspeitas supera US$ 84 milhões. Ainda que a investigação siga em andamento, o montante colocou a Plusspay no centro de um caso de possível infração financeira grave.

No mercado de criptomoedas, uma stablecoin é um ativo digital geralmente atrelado a uma referência, como o dólar americano. USDT e USDC estão entre as stablecoins mais utilizadas no mundo.

As autoridades também citaram a possível origem ilícita de parte do capital. Mais especificamente, há alegações de que os recursos possam estar ligados ao Tren de Aragua, grupo criminoso sediado na Venezuela. Em 2024, o Office of Foreign Assets Control, órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, classificou oficialmente o Tren de Aragua como organização criminosa global.

Investigação cita fundador e empresas de fachada

O Ministério Público da Região Metropolitana Sul emitiu um mandado de prisão contra o venezuelano Jose Manuel Rios Guaido, de 38 anos, apontado como fundador da plataforma. Segundo os promotores, ele teria usado várias empresas de fachada reunidas sob a marca Bex. Com isso, buscaria ocultar o fluxo de recursos dentro do sistema bancário chileno.

Além disso, os investigadores localizaram uma empresa registrada na Flórida com o mesmo endereço citado no caso. Esse detalhe reforçou as suspeitas sobre a estrutura operacional usada pela rede investigada. Ainda assim, a plataforma poderá continuar processando saques de clientes atuais, mas apenas com a finalidade de devolver os recursos custodiados.

As autoridades determinaram que a Plusspay deixe de aceitar novos clientes, mas a plataforma poderá seguir processando saques de usuários atuais para garantir a devolução dos recursos.

Fiscalização fintech fica mais rígida no Chile

A Plusspay surgiu em 2021 e começou a oferecer serviços de custódia e intermediação de criptomoedas em 2023. Já no início de 2024, a companhia concluiu seu processo de registro. No entanto, iniciou ações de marketing antes de obter a segunda autorização necessária para funcionamento pleno.

A CMF afirma que plataformas com autorização incompleta frequentemente se apresentam como empresas plenamente licenciadas. Contudo, a legislação local prevê punições severas quando há operação sem aprovação integral. Em certos casos, o regulador comunica as violações ao Ministério Público, o que pode ampliar as consequências legais.

Agora, a autoridade revisa todas as empresas listadas no registro fintech para verificar o cumprimento das obrigações atualizadas. Ademais, outras companhias também receberam sinalização por falhas nas exigências revisadas de informação. Pela Lei Fintech do Chile, operar sem autorização adequada configura infração grave. Se houver comprovação de fraude, o cenário pode se tornar ainda mais severo.

No caso da Plusspay, a decisão da CMF reuniu dois pontos centrais. A plataforma promoveu seus serviços como se tivesse licença completa antes da aprovação final. Paralelamente, a investigação identificou mais de US$ 84 milhões em fluxos considerados suspeitos. Por fim, a autoridade exigiu a devolução dos ativos mantidos em nome dos clientes.