China trata Bitcoin furtado como bem penalmente protegido
A Supreme People’s Procuratorate, máxima autoridade de acusação pública da China, publicou em 7 de junho um caso de referência no qual promotores de Qingdao sustentaram que o Bitcoin se enquadra como propriedade protegida pela legislação penal chinesa. A decisão levou à condenação de um homem pelo furto de 107 Bitcoin e expôs a tensão central da política chinesa para criptomoedas.
O caso apareceu no portal oficial da instituição com o título 107 Bitcoins desapareceram. Ele envolve um réu identificado apenas pelo sobrenome Zhang. Conforme os documentos judiciais, Zhang obteve a frase de recuperação da carteira da vítima. Em seguida, transferiu e vendeu os 107 Bitcoin. Por isso, os promotores trataram a conduta como furto de propriedade nos termos da legislação criminal chinesa.
A Justiça condenou Zhang a 10 anos e 9 meses de prisão, além de multa de 100 mil yuans, cerca de US$ 13,8 mil. Ademais, os promotores calcularam o valor do bem furtado com base nos 660 mil yuans, aproximadamente US$ 91 mil, que ele recebeu ao liquidar os ativos após o crime.
Caso de Qingdao reforça proteção patrimonial
O ponto central da acusação foi direto. Para os promotores, o Bitcoin atende à definição legal de propriedade prevista no direito penal chinês porque possui valor econômico verificável. Além disso, o ativo pode permanecer sob controle exclusivo de seu titular. Em outras palavras, esses dois elementos bastam para caracterizar um interesse patrimonial protegido.

Preço do BTC registrou leves ganhos no fim de semana. Fonte: TradingView.
Conflito com a proibição de criptomoedas
Contudo, a divulgação do julgamento coloca Pequim em uma posição delicada. Em setembro de 2021, a China impôs uma proibição ampla ao setor por meio de medida assinada por dez órgãos reguladores, incluindo o People’s Bank of China. Dessa forma, o país tornou ilegais as transações com criptomoedas e proibiu negociações, corretoras e mineração em todo o território.
Além disso, em maio de 2026, a repressão passou a incluir de forma explícita stablecoins, tokenização de ativos do mundo real e moedas digitais atreladas ao yuan emitidas no exterior. Ao mesmo tempo, as autoridades fixaram prazo de dois anos para regularizar canais financeiros transfronteiriços não autorizados.
Tribunais mantêm proteção patrimonial ao ativo
Ainda assim, tribunais chineses vêm reconhecendo de forma paralela o Bitcoin como um bem protegido em processos criminais. Em 2024, um tribunal de Xangai decidiu que a posse de criptomoedas é legal sob a legislação chinesa, segundo relato do South China Morning Post. Anteriormente, o Shanghai Second Intermediate People’s Court já havia descrito o Bitcoin como um ativo único e não replicável, com atributos financeiros claros.
Agora, com a divulgação do caso de Qingdao pela Supreme People’s Procuratorate, esse entendimento ganha peso institucional maior. Nesse sentido, a mensagem prática para promotores em todo o país fica clara. Quando houver furto de Bitcoin, o tratamento deve seguir a lógica do furto de propriedade, com avaliação do ativo a preços de mercado.
O que muda para promotores e tribunais
A veiculação desse processo na plataforma oficial da Supreme People’s Procuratorate não funciona como simples registro informativo. De fato, casos selecionados pela instituição costumam servir de referência para promotores e tribunais de instâncias inferiores nas 34 divisões administrativas de nível provincial da China.
Por isso, ao destacar o caso de Qingdao, a autoridade máxima de persecução penal do país sinaliza qual estrutura legal deve orientar ações semelhantes. Ou seja, ainda que o regime regulatório chinês proíba compra, venda e circulação de criptomoedas, o Estado admite que o Bitcoin pode ser objeto de propriedade. Portanto, o ativo pode receber proteção integral da lei penal em caso de subtração.
Essa arquitetura jurídica cria uma situação incomum. De um lado, cidadãos chineses não podem negociar ou movimentar Bitcoin livremente. Por outro lado, os tribunais recebem orientação para proteger os direitos patrimoniais de quem teve o ativo furtado. Como resultado, a proibição de uso convive com o reconhecimento da titularidade.
Além disso, o caso amplia a relevância global do debate sobre o status jurídico do Bitcoin. Em uma das jurisdições mais restritivas do mundo para o mercado de criptomoedas, a principal autoridade de acusação pública indicou que o ativo continua sendo tratado como propriedade protegida no âmbito criminal. Assim, a decisão não revoga a proibição vigente. Ainda assim, reforça que o ordenamento chinês distingue a ilegalidade de determinadas transações da existência de um direito patrimonial sobre o bem digital.
Pena, valores e alcance jurídico
No processo divulgado em 7 de junho, a Justiça condenou Zhang a 10 anos e 9 meses de prisão e aplicou multa de 100 mil yuans após o furto de 107 Bitcoin por meio da frase de recuperação da carteira da vítima. Com isso, a Supreme People’s Procuratorate acolheu a tese de que o ativo possui valor econômico e permite controle exclusivo pelo proprietário. Esses elementos sustentam seu enquadramento como propriedade protegida pela legislação criminal chinesa, mesmo sob a ampla proibição de transações com criptomoedas em vigor desde 2021.