Circle cai 17,55% após sair de índices Russell
As ações da Circle Internet Group caíram 17,55% nas últimas 24 horas e passaram a ser negociadas a US$ 62. Além disso, em 30 dias, a desvalorização acumulada chegou a 40,34%. A pressão aumentou sobre a emissora da stablecoin USDC, mesmo após avanços regulatórios recentes na União Europeia.
Rebalanceamento dos índices ampliou pressão vendedora
A queda ganhou força após o rebalanceamento anual dos índices Russell, realizado em 26 de junho de 2026. Nesse processo, a Circle saiu de cinco índices de crescimento relevantes. Entre eles estão o Russell 1000 Growth, o Russell 3000 Growth e o Russell Midcap Growth.
A FTSE Russell atualiza periodicamente a composição desses índices por meio de sua metodologia. Assim, mudanças na carteira podem gerar ajustes automáticos em fundos passivos e ETFs que replicam esses benchmarks.
Esse tipo de revisão costuma provocar impacto imediato no mercado. Afinal, quando uma empresa deixa um índice, esses veículos reduzem ou zeram posições. Como resultado, a oferta de ações aumenta no curto prazo, independentemente do desempenho operacional da companhia.
Além disso, a exclusão pode diminuir a presença de investidores passivos na base acionária. Por consequência, a Circle tende a perder parte de um grupo institucional mais estável. Nesse cenário, o papel pode enfrentar spreads mais amplos e volatilidade mais elevada.
O analista independente Shanaka Anslem Perera atribui as perdas recentes da Circle não apenas à nova concorrência. Para ele, o peso dos nomes envolvidos na iniciativa rival também agravou a reação do mercado.
Ao mesmo tempo, investidores passaram a reavaliar o equilíbrio entre fatores técnicos e fundamentos. Embora a retirada dos índices siga regras predefinidas, o movimento coincidiu com um momento sensível para a estratégia comercial da empresa.
Fundos passivos aceleram ajuste de posições
Em primeiro lugar, a saída dos índices Russell afeta diretamente a demanda automática por ações da Circle. Portanto, gestores passivos reduzem exposição sem considerar, necessariamente, mudanças no negócio.
Ainda assim, esse fluxo vendedor costuma pressionar o preço de forma relevante em janelas curtas. Em contrapartida, investidores ativos avaliam se a correção abriu espaço para uma nova precificação.
No entanto, a leitura do mercado permanece cautelosa. Isso ocorre porque outros riscos relevantes surgiram ao mesmo tempo, principalmente no segmento de stablecoins.
Open USD eleva risco competitivo para o USDC
O rebalanceamento dos índices coincidiu com o avanço da concorrência no mercado de stablecoins. Dessa forma, a nova stablecoin Open USD, criada sob a iniciativa Open Standard, passou a mirar diretamente o principal mercado da Circle.
O ponto mais sensível envolve parceiros estratégicos da própria Circle. BlackRock, Coinbase e o banco custodiante BNY Mellon aderiram à nova iniciativa. A BlackRock administra cerca de 80% das reservas do USDC por meio do Circle Reserve Fund. Já a Coinbase, parceira fundadora do USDC, recebe aproximadamente US$ 908 milhões por ano em receita de distribuição.
De fato, o centro da preocupação está no modelo de receitas da Circle. A companhia gera a maior parte da receita com os juros produzidos por US$ 74 bilhões mantidos em caixa e títulos do Tesouro dos Estados Unidos de curto prazo.
Já o Open USD prevê repartir uma fatia maior dessa receita de juros com parceiros de distribuição. Assim, o novo desenho econômico reduz a concentração do retorno no emissor da stablecoin.
Assim sendo, a estrutura pode alterar incentivos em toda a cadeia de distribuição. No modelo atual da Circle, a remuneração ocorre por divisão de receitas ou taxas. No Open USD, porém, parceiros podem acessar rendimentos de forma mais direta.
Coinbase e Base entram no centro da disputa
Outro fator chama atenção porque o Open USD deve estrear na blockchain Base, que pertence à Coinbase. Além disso, Circle e Coinbase devem renegociar seu acordo em agosto.
Nesse contexto, a Circle chega à mesa de negociação em posição mais delicada. Afinal, sua principal parceira também apoia uma concorrente direta no mercado de stablecoins.
Por outro lado, a administração da Circle sustenta que o setor comporta vários participantes de grande porte. Ainda que essa tese faça sentido em um mercado em expansão, investidores querem entender como a empresa defenderá margens, distribuição e participação.
Valuation segue dividido entre analistas
Os sinais de valuation continuam mistos. O ticker CRCL é negociado perto de 47% abaixo do preço-alvo de consenso dos analistas. Contudo, a plataforma Simply Wall St ainda classifica a ação como sobrevalorizada.
Ao mesmo tempo, investidores acompanham com cautela as vendas recentes feitas por insiders nos últimos três meses. O mercado interpreta esses movimentos como um possível sinal de risco adicional.
Apesar da forte pressão sobre as ações, o USDC mantém liquidez, conformidade regulatória e demanda de mercado. Ainda assim, o cronograma dos próximos meses ganhou peso para a tese de investimento.
O lançamento do Open USD ainda neste ano e a renegociação com a Coinbase em agosto devem influenciar a leitura sobre o futuro da Circle. Portanto, a reação dos investidores dependerá não só do fluxo técnico, mas também da resposta da empresa à concorrência crescente.
Em suma, o mercado observa quatro números centrais: a queda diária de 17,55%, a perda de 40,34% em 30 dias, a remoção de cinco índices Russell e a dependência de US$ 74 bilhões em reservas. Esses fatores devem orientar a nova precificação da Circle enquanto o setor de stablecoins se torna mais competitivo.