CLARITY Act amplia papel da SEC e da CFTC nos EUA

O fracasso processual do CLARITY Act no Senado dos Estados Unidos deslocou a atenção do mercado cripto para os reguladores federais. Em 15 de setembro, a proposta recebeu 49 votos favoráveis e 50 contrários. Como precisava de 60 votos, a medida ficou 11 votos abaixo do necessário para abrir o debate.

O resultado não encerrou formalmente o projeto, mas bloqueou sua rota imediata no Senado. A proposta buscava dividir a supervisão dos ativos digitais entre a SEC e a CFTC. Além disso, estabeleceria caminhos de registro para plataformas de negociação e outros intermediários.

Agências federais assumem protagonismo regulatório

Sid Powell, CEO e cofundador da Maple Finance, acredita que o foco regulatório migrará do Congresso para as agências federais. Segundo ele, a SEC e a CFTC podem aplicar leis existentes, normas e orientações. Dessa forma, os reguladores devem definir os limites operacionais da indústria antes da aprovação de uma legislação abrangente.

Powell afirmou que aprovar uma estrutura de mercado sempre foi mais difícil do que apresentar um projeto. Por isso, ele espera orientações relevantes das agências no curto prazo. Uma legislação ampla, contudo, poderá retornar durante o próximo Congresso.

Gabor Gurbacs, fundador e CEO da OpenAssets, apresentou uma avaliação semelhante. Para ele, a votação não resolveu dúvidas sobre competência regulatória, classificação de ativos ou estruturas disponíveis às instituições. Ainda assim, Gurbacs prefere padrões liderados pela indústria a exigências abrangentes impostas pelos reguladores.

Na avaliação do executivo, grandes agências dependem de comitês, precedentes e processos avessos ao risco. Consequentemente, suas normas podem avançar mais devagar do que a tecnologia. Gurbacs resumiu o cenário ao afirmar que “a votação pode ter parado, mas o trabalho regulatório não”.

Regras administrativas oferecem menos estabilidade

Courtney Olujobi, executiva da Moon Pursuit Capital, também espera que os reguladores entreguem a maior parte dos avanços imediatos. Porém, ela diferenciou medidas administrativas de leis aprovadas pelo Congresso. Afinal, futuras administrações podem alterar orientações emitidas pela SEC ou pela CFTC.

Edwin Mata, cofundador e CEO da Brickken, concordou que a atuação pública não termina quando o Congresso paralisa um projeto. No entanto, ele ressaltou que a qualidade das regras importa mais do que a simples existência de um marco. Portanto, orientações pouco claras não eliminariam os riscos enfrentados pelo setor.

Os especialistas rejeitaram a possibilidade de a votação interromper o desenvolvimento do mercado. Mesmo assim, a indefinição pode alterar onde empresas contratam profissionais, obtêm licenças, captam recursos e lançam produtos. Kyle Sonlin, presidente e cofundador da Global Settlement Network, espera maior atenção a jurisdições com regras previsíveis.

Empresas podem ampliar operações internacionais

Sonlin afirmou que fundadores voltados ao mercado institucional precisam conhecer o tratamento jurídico de seus produtos. Também precisam saber qual órgão supervisionará cada atividade. Nesse contexto, mais empresas podem construir uma presença internacional desde o início.

Varun Datta, fundador e CEO da Truth Ventures, acredita que fundadores sérios continuarão operando nos Estados Unidos. Entretanto, a previsibilidade regulatória ganhará peso na comparação com mercados concorrentes. Para Olujobi, a incerteza já representa um custo, mesmo antes do surgimento de despesas jurídicas formais.

Esse custo pode determinar se a primeira contratação será um engenheiro ou um especialista em conformidade. Da mesma maneira, pode influenciar o lançamento de produtos e a escolha entre investidores americanos ou estrangeiros. Mata citou o MiCA, da União Europeia, como exemplo dos benefícios e custos gerados por regras claras.

De acordo com Mata, o regime europeu criou uma porta de entrada definida para empresas. Em contrapartida, também elevou os custos de conformidade. Bobby Gray, fundador da TEXITcoin, defendeu negócios resistentes a mudanças políticas e regulatórias, sem dependência direta do Congresso.

Olujobi lembrou que os Estados Unidos ainda concentram mercados de capitais profundos e compradores institucionais. O país também possui uma base crescente de custódia regulada e produtos de investimento. Apesar disso, Mata alertou que operações transferidas ao exterior podem se tornar permanentes após a criação de equipes, licenças e relações bancárias.

CLARITY Act pode atrasar adoção institucional

A ausência de uma lei pode afetar instituições que exigem padrões estáveis antes de alocar capital. Raj Kamal, CEO e fundador da TransFi, espera uma desaceleração da adoção institucional nos Estados Unidos. Além do mercado americano, países influenciados pela regulação dos EUA também podem sentir os efeitos.

Kamal vê o risco de mais atividades migrarem para os Emirados Árabes Unidos e Singapura. Na visão dele, o atraso também pode desacelerar stablecoins usadas em pagamentos e o crescimento dos depósitos tokenizados. Ao mesmo tempo, o executivo demonstrou preocupação com o retorno da regulação por medidas de execução.

Sonlin acrescentou que a infraestrutura financeira precisa de regras capazes de sobreviver a diferentes administrações presidenciais. Sem esse marco, instituições tendem a adotar decisões mais cautelosas. Logo, orientações temporárias podem não oferecer a confiança necessária para produtos de longo prazo.

Bancos e gestoras devem avançar com cautela

Jeff Ko, analista-chefe da ViaBTC, diferenciou instituições que já possuem Bitcoin por meio de ETFs regulados da próxima onda de adoção. Bancos ainda estudam serviços de custódia e negociação. Enquanto isso, gestoras desenvolvem produtos com vários tokens e empresas avaliam iniciativas de tokenização.

Ko acredita que essas instituições avançarão mais lentamente, embora não devam abandonar o mercado. Tim Sun, pesquisador sênior do HashKey Group, também espera uma distribuição de capital baseada no risco regulatório. Assim, produtos enquadrados em normas estabelecidas podem continuar atraindo demanda.

Em contrapartida, setores dependentes de nova legislação devem enfrentar maior cautela. Sun descreveu esse movimento como uma bifurcação das estratégias de alocação de capital. Desse modo, o risco jurídico terá influência maior sobre a seleção de produtos.

Sun observou que o Bitcoin possui um status relativamente consolidado como ativo que não constitui valor mobiliário. Títulos tokenizados e ativos do mundo real também podem operar sob regras existentes. Já a responsabilidade de desenvolvedores de DeFi e os padrões de listagem permanecem dependentes de decisões futuras.

Bitcoin mantém vantagem sobre altcoins e DeFi

Jag Kooner, chefe de derivativos da Bitfinex, afirmou que a reação moderada mostrou poucas apostas na aprovação do projeto. Como havia poucas posições favoráveis, os traders tiveram pouco para desfazer após a votação. Com isso, o mercado registrou uma resposta inicial limitada.

Kooner considera a extensão da incerteza regulatória mais relevante do que uma reprecificação repentina. Ko também destacou que o projeto travou, mas não morreu juridicamente. Além do mais, o Bitcoin já possui ETFs regulados, enquanto o GENIUS Act criou regras para stablecoins de pagamento.

Nesse cenário, a principal lacuna permanece no restante do mercado de criptomoedas. Ko espera que altcoins, emissores, protocolos de DeFi e exchanges americanas carreguem o maior desconto regulatório. A separação entre valores mobiliários e commodities continua sem solução.

Essa indefinição pode manter elevada a dominância do Bitcoin e ampliar as diferenças entre tokens. Ko prevê vantagem para produtos com status jurídico mais claro e negócios que geram caixa. Sun acrescentou que empresas ligadas ao setor podem reagir mais intensamente do que o próprio Bitcoin.

Juros e liquidez podem exercer impacto maior

O revés legislativo representa apenas uma das forças que influenciam o mercado cripto. Ko apontou inflação persistente, petróleo acima de US$ 95 e expectativas de novas altas de juros como obstáculos mais importantes. Historicamente, o setor encontra dificuldades para sustentar altas com rendimentos crescentes e liquidez restrita.

Ko considera possível uma retomada do mercado de alta ainda neste ano, mas esse não é seu cenário principal. Para isso, seriam necessários fluxos sustentados para ETFs, inflação mais favorável e melhora da liquidez. Nesse caso, o capital poderia se concentrar em menos ativos do que nos ciclos anteriores.

Sun também relacionou a pressão recente às taxas livres de risco mais altas e à perda do otimismo regulatório. Para ele, a política do Federal Reserve e os rendimentos dos Treasuries definirão o próximo movimento sustentado do Bitcoin. A liquidez em dólar, igualmente, pode pesar mais do que o calendário legislativo.

Apesar das divergências sobre a gravidade do atraso, os especialistas esperam a continuidade do desenvolvimento e dos investimentos. A votação transferiu às agências maior influência sobre as regras americanas no curto prazo. Como resultado, segurança jurídica, escolha de jurisdição e acesso à liquidez ganharão importância nas decisões empresariais.

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