CLARITY Act cai a 50% na projeção da Galaxy
O CLARITY Act, principal projeto de lei para o mercado de criptomoedas no Congresso dos Estados Unidos, perdeu força nas estimativas para 2026. A Galaxy Digital reduziu de 60% para 50% a probabilidade de a proposta virar lei ainda neste ano. Já no Polymarket, a percepção é ainda mais cautelosa, com chance ao redor de 44%.

Senado enfrenta janela curta para votar o texto
O maior obstáculo, na avaliação da Galaxy Digital, é o tempo. Parlamentares trabalham com uma janela curta antes do recesso tradicional do fim do verão nos Estados Unidos. Assim, propostas complexas enfrentam dificuldade extra para avançar no Senado.
Em nota a clientes, pesquisadores da Galaxy Digital afirmaram que a revisão da projeção não indica colapso nas negociações sobre o mérito do texto. Pelo contrário, o ponto central está na logística legislativa. Para avançar, o projeto precisa unificar versões entre o Comitê Bancário e o Comitê de Agricultura do Senado. Em seguida, precisa passar por debate formal no plenário e por um processo de emendas que pode se alongar.
Além disso, qualquer versão final aprovada pelos senadores ainda precisará voltar para a Câmara dos Representantes. Na avaliação dos analistas, John Thune, líder da maioria no Senado, teria de reservar formalmente tempo de debate até a primeira semana de julho. Caso contrário, a análise tende a escorregar para setembro.
Historicamente, medidas financeiras complexas ou controversas sofrem mais quando se aproximam eleições nacionais. Atualmente, o texto segue parado no calendário do Senado, depois de avançar no Banking Committee em meados de maio. Até agora, não houve movimentações processuais para abrir o debate em plenário.
Pressão política cresce com Donald Trump
Ao mesmo tempo, o atraso do CLARITY Act se agrava pela disputa por tempo de plenário. Segundo a Galaxy Digital, a proposta concorre com pautas urgentes de segurança nacional e política doméstica. Entre elas estão a lei anual de autorização de defesa e a renovação de programas de vigilância ligados ao Foreign Intelligence Surveillance Act, o FISA.
Além disso, um novo impasse político elevou a pressão. Recentemente, o presidente Donald Trump declarou oposição a um projeto habitacional bipartidário, a menos que o Congresso também aprove o SAVE Act ao mesmo tempo. A proposta de habitação já havia passado com amplo apoio nas duas Casas, mas sua sanção foi cancelada de forma abrupta.
O SAVE Act é um projeto eleitoral altamente divisivo. A medida exigiria prova documental rigorosa de cidadania dos Estados Unidos para registro de eleitores. Também criaria novas exigências de identificação com foto para votos federais. Embora o texto tenha passado por margem estreita na Câmara, ele enfrenta forte resistência no Senado, onde não reúne os 60 votos necessários para superar obstrução parlamentar.
Assim, ao atrelar uma proposta amplamente apoiada a uma medida eleitoral polarizadora, Donald Trump inseriu uma disputa de alto risco justamente antes do recesso. Para observadores do mercado, esse tipo de manobra tende a consumir a atenção da liderança e a tirar espaço de legislações setoriais, como o CLARITY Act.
Ética e lavagem de dinheiro ainda travam acordo
Mesmo que a liderança do Senado encontre espaço no plenário, o projeto ainda carrega divergências relevantes. Parlamentares democratas seguem cobrando regras éticas mais rígidas, dispositivos mais fortes de conflito de interesses e padrões mais duros de combate à lavagem de dinheiro. Essas preocupações ganharam mais peso em Washington, à medida que empreendimentos de ativos digitais ligados a figuras políticas passaram a receber maior escrutínio.
A senadora Elizabeth Warren está entre as críticas mais contundentes ao texto. Ela afirmou que o projeto, na forma atual, enfraqueceria proteções contra finanças ilícitas.
“Nossos adversários exploram as criptomoedas para movimentar bilhões. O CLARITY Act, como está redigido atualmente, tornaria esse problema pior. O Congresso deveria fortalecer os padrões contra finanças ilícitas, não criar novas brechas.”
Elizabeth Warren no X.
Uma emenda do senador Chris Van Hollen para endurecer regras de conflito de interesses fracassou durante a análise em comitê. Já os senadores Ruben Gallego e Cory Booker também defenderam padrões éticos executáveis como parte de qualquer acordo final.
Por outro lado, outra frente de tensão envolve a linguagem de proteção a desenvolvedores vinculada ao Blockchain Regulatory Certainty Act, o BRCA. O texto busca impedir que desenvolvedores de software e provedores de infraestrutura recebam tratamento de intermediários financeiros quando não controlam recursos de clientes. Defensores consideram essa proteção essencial. Críticos, contudo, dizem que a redação pode limitar a fiscalização sobre finanças ilícitas, lavagem de dinheiro e evasão de sanções em finanças descentralizadas.
Setor intensifica lobby por votação em julho
Apesar do recuo nas chances, empresas de criptomoedas e entidades do setor seguem pressionando por uma definição ainda em 2026. Nas últimas semanas, as ações de lobby no Capitólio se intensificaram com o propósito de convencer a liderança do Senado a reservar uma votação no verão.
A Ripple lançou uma campanha móvel de publicidade e apelidou um veículo de Clarity Truck para circular por Washington. Segundo a empresa, o projeto ajudaria a proteger consumidores, apoiar o desenvolvimento responsável de ativos digitais e manter os Estados Unidos competitivos em tecnologia financeira.
Da mesma forma, a senadora Cynthia Lummis reforçou esse argumento no X. Ela afirmou que os Estados Unidos não deveriam ficar atrás de Europa, Reino Unido e Emirados Árabes Unidos, que já avançaram em regimes regulatórios para ativos digitais.
Para o setor, julho pode representar a última janela viável de ação neste ano. Quando o Congresso retornar em setembro, a campanha para as eleições de meio de mandato tende a dominar Washington. Nesse sentido, a disposição para dedicar tempo de plenário a um projeto técnico e ainda contestado deve cair.
Mercado monitora efeitos da incerteza regulatória
A incerteza em torno do CLARITY Act ocorre em um momento mais fraco para o mercado de criptomoedas. Por isso, o debate regulatório ganhou peso para além da política em Washington. Analistas vêm argumentando que a aprovação ou o fracasso do projeto pode influenciar se a atual correção dos ativos digitais vai estabilizar ou se aprofundar.
O Bitcoin caiu abaixo de US$ 60.000 na semana passada, ampliando uma desvalorização superior a 50% em relação ao pico de US$ 125.000 registrado em outubro. O movimento reacendeu dúvidas sobre o tamanho do suporte institucional restante após um ciclo marcado por ETFs spot, compras corporativas para tesouraria e participação mais ampla de Wall Street.
A Grayscale classificou a fase atual como uma correção cíclica. Ainda assim, vinculou a recuperação do mercado a variáveis de política e macroeconomia. Em seu cenário-base, o CLARITY Act passa no Senado, a Strategy toma medidas para reforçar seu balanço e o Federal Reserve evita novas altas de juros. Nesse quadro, o Bitcoin pode já estar próximo de um fundo.
No cenário negativo, a leitura é mais dura. Se o CLARITY Act não for aprovado neste ano, companhias de tesouraria ligadas a ativos digitais continuarem desalavancando e a inflação levar o Federal Reserve a retomar elevações de juros, os preços das criptomoedas poderão enfrentar pressão adicional. Ainda assim, a Grayscale não espera uma queda tão severa quanto os recuos próximos de 80% vistos em ciclos anteriores, citando uma estrutura de mercado mais madura e demanda institucional mais profunda.
Em suma, os números mais observados seguem os mesmos: 50% de chance estimada pela Galaxy Digital para o CLARITY Act virar lei em 2026, cerca de 44% nos mercados de previsões, ausência de debate formal no plenário do Senado e pressão política crescente por causa das exigências de Donald Trump. As disputas sobre ética, lavagem de dinheiro e responsabilidade de desenvolvedores também continuam no centro do impasse.