Clarity Act trava no Senado por lucros cripto de Trump
O Clarity Act enfrenta nova resistência no Senado dos EUA por causa de um impasse ético ligado aos interesses da família de Donald Trump em criptomoedas. A Bloomberg informou no X que parlamentares democratas exigem regras mais rígidas antes de apoiar a proposta. Afinal, eles afirmam que o texto atual pode permitir que Trump e seus familiares continuem lucrando com memecoins e com a World Liberty Financial.
O obstáculo tem peso político imediato. Os republicanos precisam de ao menos sete votos democratas para avançar com o projeto no Senado. Assim, o apoio bipartidário virou condição essencial para levar a regulação de ativos digitais até a sanção presidencial. Além disso, negociadores ainda discutem salvaguardas ao consumidor e medidas contra finanças ilícitas, o que reduz as chances de aprovação antes do recesso de agosto.
Impasse ético pressiona avanço da regulação
Republicanos do Senado divulgaram nesta semana uma versão revisada do texto, com o propósito de retomar negociações que se arrastam há meses. Ainda assim, democratas e entidades de vigilância pública rejeitaram a nova redação. Segundo esses grupos, as proteções éticas ainda deixam brechas relevantes. Em outras palavras, a principal dúvida é se o Clarity Act impediria, de fato, que um presidente dos EUA lucrasse com mercados de criptomoedas regulados.

Fonte: Polymarket
A proposta permitiria que Donald Trump alienasse sua participação ou colocasse os ativos em um blind trust, sem exigir necessariamente uma venda integral. Contudo, críticos questionam a redação aplicada a autoridades com interesse direto em ativos digitais. Trump mantém exposição à World Liberty Financial por meio da DT Marks DEFI LLC, que detém cerca de 38% do empreendimento. Nesse sentido, opositores afirmam que essa estrutura pode dificultar a aplicação prática das regras.
Outro ponto sensível envolve os filhos de autoridades governamentais. A princípio, o rascunho não inclui esse grupo nas restrições. Com isso, Donald Trump Jr. e Eric Trump poderiam continuar conduzindo atividades empresariais ligadas a criptomoedas. Além disso, o texto não prevê recuperação de receitas já obtidas com tokens e memecoins. Para grupos de fiscalização, essas limitações enfraquecem o enfrentamento de conflitos de interesse já existentes.
Democratas resistem a modelo de fiscalização
Democratas também rejeitam a ideia de concentrar no Departamento de Justiça a autoridade principal para aplicar as novas regras éticas. Isso porque o modelo em discussão impediria procuradores-gerais estaduais de atuar como via independente de fiscalização. A senadora Angela Alsobrooks classificou a ética como o tema decisivo das negociações. Ao mesmo tempo, os senadores Ruben Gallego e Thom Tillis tentam construir um meio-termo que a Casa Branca possa aceitar.
O calendário político amplia a pressão. O líder da maioria no Senado, John Thune, não espera que o Clarity Act seja aprovado antes do recesso de agosto. Como ainda restam divergências sobre proteção ao consumidor e combate a finanças ilícitas, cresce o risco de os democratas negarem os votos necessários para uma tramitação rápida. Dessa maneira, a confiança do mercado em um acordo ainda em 2026 perdeu força.
Bancos, stablecoins e eleição elevam o risco
A disputa ética não representa o único obstáculo ao Clarity Act. Bancos defendem limites mais rígidos para recompensas pagas por stablecoins, pois temem a migração de depósitos para contas em ativos digitais com rendimento. Como resultado, esse movimento poderia reduzir a capacidade de concessão de crédito e pressionar a rentabilidade do sistema bancário. Thom Tillis discutiu inclusive poderes de interrupção emergencial para a Federal Deposit Insurance Corporation, ou para outros reguladores, caso ocorra uma queda acentuada nos depósitos.
A senadora Cynthia Lummis, uma das principais vozes republicanas favoráveis ao setor de ativos digitais, se opõe a essa abordagem. Portanto, o debate sobre os negócios de Trump com criptomoedas se mistura a uma disputa maior sobre estrutura de mercado, concorrência e espaço regulatório para stablecoins. Por outro lado, críticos também atacam uma cláusula que faria as regras éticas expirarem em 20 de janeiro de 2029, mesma data da posse do sucessor de Trump.
Para opositores, essa limitação temporal pode reduzir a responsabilização após o fim do mandato. Já republicanos sustentam que a proposta cria restrições mais duras do que aquelas aceitas por presidentes anteriores. Ademais, a pressão política tende a influenciar diretamente o desfecho. O Fairshake e dois super PACs afiliados arrecadaram US$ 164 milhões para as eleições de meio de mandato e já gastaram US$ 66,6 milhões, segundo registros federais.
Mercados de previsões reduzem expectativas
Nesse ambiente, democratas mais alinhados ao setor correm o risco de enfrentar oposição da indústria caso as negociações fracassem. Enquanto isso, parlamentares progressistas podem criticar qualquer compromisso considerado brando demais. O senador Chris Murphy defendeu que os democratas tratem a corrupção ligada às criptomoedas como tema de campanha. Entretanto, outros integrantes do partido temem que barrar o Clarity Act direcione gastos do setor contra candidatos ao Senado.
Os mercados de previsões já refletem essa incerteza. Operadores da Polymarket passaram a atribuir ao projeto uma chance próxima de um terço de virar lei em 2026. Esse nível representa cerca de metade da probabilidade observada após uma comissão do Senado aprovar uma versão anterior em 14 de maio. Em suma, a deterioração das expectativas se concentra na disputa sobre como o Clarity Act deve tratar os lucros de Donald Trump e de seu entorno familiar com negócios em criptomoedas.
Até agora, o cenário combina vários entraves. Entre eles estão a exigência de ao menos sete votos democratas, as críticas à participação indireta de Trump via DT Marks DEFI LLC, a exclusão de Donald Trump Jr. e Eric Trump das restrições propostas, o debate sobre recompensas de stablecoins e a queda das chances de aprovação nos mercados de previsões. Dessa forma, o futuro do Clarity Act no Senado segue incerto em 2026.