CLARITY pode barrar tokens de presidentes e cônjuges
Uma versão revisada do CLARITY Act inclui regras de ética que podem impedir o presidente dos Estados Unidos, o vice-presidente, outros altos funcionários públicos e seus cônjuges de emitir ou patrocinar ativos digitais mediante remuneração enquanto estiverem no cargo. Ao mesmo tempo, o texto amplia a supervisão da Commodity Futures Trading Commission, a CFTC, sobre mercados de commodities digitais.
As novas restrições surgem em um momento de maior escrutínio sobre empreendimentos em criptomoedas ligados a autoridades públicas. Além disso, o projeto combina limites de conduta para agentes do governo com uma expansão da estrutura regulatória aplicada ao setor.
Texto amplia restrições éticas para autoridades
O texto revisado adota a definição federal já existente para enquadrar “funcionários ou agentes públicos” e seus cônjuges. Dessa forma, a proposta evita criar uma nova categoria jurídica. Assim, ela inclui o presidente, o vice-presidente e outros integrantes de alto escalão do governo federal.
Segundo a redação, essas pessoas ficariam proibidas de emitir ou patrocinar um ativo digital em troca de remuneração durante o período em que exercerem mandato ou função pública. Em outras palavras, a norma atinge iniciativas com retorno financeiro direto enquanto a autoridade estiver no cargo.
Além disso, o projeto define “emitir” de forma ampla. O termo passa a abranger criar, cunhar, lançar ou controlar a venda inicial ou a distribuição inicial de um ativo digital. Portanto, a restrição não se limita à criação formal de um token.
Já o conceito de “patrocinar” também recebe definição extensa. A saber, o projeto inclui acordos para financiar, organizar ou endossar publicamente um token. A regra também cobre o uso do nome, da imagem, da semelhança pessoal ou da posição oficial de uma autoridade na criação ou promoção desse ativo.
Se um ativo digital violar essas regras, ele não poderá ser listado para negociação em um intermediário de ativos digitais. Assim, a consequência prática vai além da conduta pessoal da autoridade e alcança a circulação do token no mercado regulado.
Limites valeriam durante o mandato
As limitações valeriam apenas enquanto a autoridade permanecer no cargo. Do mesmo modo, a regra se estenderia ao cônjuge nesse mesmo período. Ainda assim, o texto não cria uma proibição geral para a posse de ativos digitais.
O projeto deixa expresso que os indivíduos abrangidos continuam autorizados a manter ativos digitais como investimento. No entanto, eles devem observar as regras já existentes de divulgação patrimonial e conflito de interesses. Dessa maneira, a proposta distingue posse patrimonial de promoção remunerada.
Ademais, as disposições éticas não seriam permanentes. Pelo texto revisado, as restrições expirariam ao meio-dia de 20 de janeiro de 2029, a menos que o Congresso decida prorrogá-las.
Debate envolve negócios cripto ligados a Donald Trump
Embora a nova redação do CLARITY Act não cite nominalmente o presidente Donald Trump nem qualquer projeto específico do mercado cripto, o contexto político tende a ampliar a atenção sobre a proposta. Ao longo do último ano, Trump e sua família expandiram sua atuação no setor de ativos digitais, inclusive por meio da memecoin TRUMP e de outros negócios relacionados.
Por isso, a revisão do projeto deve alimentar o debate sobre conflitos de interesse no uso de ativos digitais por autoridades eleitas. Afinal, parte dos parlamentares e especialistas em ética pública questiona se ocupantes de cargos federais deveriam lucrar com projetos desse tipo enquanto exercem funções de governo.
Ao mesmo tempo, o texto evita uma vedação absoluta ao investimento privado em ativos digitais. Em princípio, a proposta tenta separar a atividade de investimento pessoal da emissão ou do patrocínio remunerado de tokens com potencial uso político, comercial ou institucional.
CFTC teria papel maior na supervisão cripto
As regras de ética representam apenas uma parte da revisão do CLARITY Act. Além disso, a proposta estabelece um novo arcabouço para intermediários de commodities digitais regulados pela CFTC, incluindo exchanges, corretoras, dealers e custodiantes.
O projeto também fixa jurisdição federal sobre participantes registrados nos mercados de commodities digitais. No entanto, preserva a autoridade dos estados para agir em casos de fraude e aplicar leis estaduais de alcance geral.
Outro trecho acrescentado permite que tribunais determinem, em circunstâncias específicas, a apreensão, o congelamento, a queima e a reemissão de stablecoins de pagamento. Em seguida, o texto introduz medidas adicionais de aplicação da lei e ajustes técnicos vinculados ao GENIUS Act.
Na prática, a revisão reúne duas frentes no mesmo movimento legislativo. De um lado, reforça controles éticos sobre autoridades públicas e seus cônjuges. De outro, amplia a estrutura regulatória para o mercado de ativos digitais nos Estados Unidos. Por conseguinte, o CLARITY tende a ganhar mais peso político nas próximas discussões sobre regulação do setor.
Em suma, o texto revisado mantém a possibilidade de autoridades públicas deterem ativos digitais como investimento. Contudo, ele proíbe a emissão ou o patrocínio remunerado desses ativos enquanto elas estiverem no cargo. Além disso, amplia o alcance da CFTC sobre mercados de commodities digitais e prevê que as restrições éticas expirem em 20 de janeiro de 2029, salvo extensão aprovada pelo Congresso.