Coreia do Norte quer ter a própria moeda digital

Cidadãos ainda usarão o Won coreano regular, pois os tokens serão para bancos, empresas e organizações

Aparentemente, a Coreia do Norte está desenvolvendo sua própria moeda digital e espera usar contratos inteligentes no estilo Ethereum para estabelecer um sistema judicial “livre da ONU”, de acordo com pessoas envolvidas no processo. A fim de atingir esse objetivo, o regime norte-coreano vem organizando conferências para atrair os maiores talentos da indústria crypto e aprender com eles.

Segundo Alejandro Cao de Benós, presidente da Associação de Amizade com a Coreia e apoiador de longa data do regime norte-coreano, o país não busca digitalizar sua moeda fiduciária existente, como fazem a China e a Venezuela. Os dois primeiros eventos crypto na Coreia do Norte foram organizados por Benós, que trabalhou junto a funcionários do governo. Ele também é oficial do Comitê de Relações Culturais e representante do país na Europa.

Benós explica que a Coreia do Norte busca desenvolver um token baseado em algo com valor físico no mercado internacional – como o ouro, por exemplo. Ele compara o projeto à Ripple e à Paxos Gold, e diz que operaria como uma moeda proxy usada para alcançar um preço mais estável para acordos internacionais entre a Coreia e outras empresas ou outros indivíduos.

Os pedidos de comentários feitos ao governo norte-coreano ficaram sem resposta. Na verdade, uma visita à embaixada da República Popular da Coréia do Norte, em um subúrbio de Londres, foi infrutífera. Um homem, que se identificou como zelador, atendeu a porta e disse que não havia ninguém disponível.

Embora o regime, que é objeto de rigorosas sanções dos Estados Unidos e da ONU, já permita que empresas estatais negociem Bitcoin, Ether e Tether, essas criptomoedas são voláteis e impossíveis de controlar.

“O BTC e o ETH não estão sob nosso desenvolvimento ou controle. Além disso, podem estar sujeitos à especulação estrangeira, (ou) bombear e despejar”, diz Benós.

Aberto a negócios

Na semana passada, o governo da Coreia do Norte anunciou um evento batizado de “Pyongyang Blockchain and Cryptocurrency Conference”, que será realizado na capital do país, em fevereiro de 2020, sob a coordenação de Benós. Embora qualquer pessoa possa se inscrever, os candidatos devem ser pré-aprovados antes de poderem participar da reunião, que foi descrita como oferecendo um “ambiente exclusivo de confidencialidade e contatos com os mais altos funcionários e engenheiros do governo”.

O objetivo da conferência é atrair especialistas internacionais na área de crypto. Foi o que aconteceu em uma reunião anterior, em abril de 2019: de acordo com Benós, um punhado de estrangeiros “amigos do regime e especializados em crypto” ofereceu informações sobre a moeda digital planejada.

Um dos participantes, que pediu para permanecer anônimo, reconheceu ter ouvido falar sobre o que descreveu como um sistema no estilo “WeChat” que o governo estava interessado em construir, mas não forneceu outras informações.

“As principais coisas em que eles estavam interessados ​​eram usar o Bitcoin para contornar as sanções e usar o Ethereum para os tribunais sem ONU”, disse o participante.

A fonte anônima contou que cerca de cem norte-coreanos participaram da conferência de abril, incluindo professores de economia e funcionários do governo e do banco estatal. Todos queriam saber como usar o Bitcoin como um substituto do SWIFT.

“Eles não estão realmente na autossoberania, mas sim na ‘soberania nacional’, que definiram como uma maneira de facilitar a independência nacional”, afirmou o participante.

De acordo com a fonte, a Coreia do Norte vê os contratos inteligentes autoexecutáveis ​​que rodam na rede Ethereum como uma maneira de fazer cumprir acordos com interlocutores estrangeiros. Como o regime não confia na ONU, conta com intermediários chineses para fazer negócios no exterior. Mas as autoridades disseram à fonte que, às vezes, esses intermediários enganam os norte-coreanos.

“A Coreia do Norte tem problemas para fazer cumprir acordos fora de suas fronteiras. Geralmente, eles carregam milhões de dólares em dinheiro para o povo chinês (e os enviam para a fronteira), mas na metade do tempo essas pessoas desaparecem. Não há muito que eles possam fazer sobre isso”, explica o participante.

Segundo a fonte anônima, os norte-coreanos buscam desesperadamente uma forma de fazer acordos que funcionem fora de suas fronteiras.

“Contei a eles sobre contratos inteligentes. Eles estavam muito animados com isso”, disse o participante.

A fonte acrescentou que um funcionário do governo gostou em especial da ideia de usar contratos inteligentes para manter sob custódia depósitos feitos a jornalistas estrangeiros. Esses fundos só seriam pagos se os artigos dos repórteres fossem considerados lisonjeiros, sugeriu o funcionário.

* Imagem de Reijo Telaranta por Pixabay 
Fonte: Decrypt

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Foto de Simone Gondim O autor:

Jornalista, revisora e roteirista, apaixonada por tecnologia e especializada em conteúdo.

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