DeFi institucional avança invisível, diz Katana
O próximo ciclo institucional do DeFi pode avançar sem levar mais usuários diretamente para blockchains públicas. Para Matt Fisher, CEO da Katana, a nova etapa de adoção passa por aplicativos financeiros, cartões, fintechs e exchanges que usam protocolos descentralizados nos bastidores.
Assim, o cliente final interage com uma marca conhecida, enquanto a infraestrutura on-chain permanece invisível. Em outras palavras, o usuário não precisa abrir um painel de finanças descentralizadas, conectar carteira ou entender a mecânica de um protocolo.
Se uma exchange ou fintech direciona depósitos para o Morpho ou para outra camada de crédito, a relação comercial continua na interface final. Portanto, o público tende a lembrar da marca, e não do protocolo que executa a operação.
Setor busca escala, mas enfrenta crise de confiança
Apesar do otimismo com a adoção institucional, Fisher afirmou que o setor atravessa uma fase delicada de credibilidade. Segundo ele, a sequência recente de ataques e explorações cobrou um preço alto da confiança no DeFi.
“On-chain, o DeFi enfrenta sua maior ameaça. A recente onda de hacks e explorações se tornou um enorme imposto sobre a credibilidade e a confiança.”
A avaliação de Fisher mira casos recentes como Drift e KelpDAO, que a TRM Labs associou a agentes estatais da Coreia do Norte. Juntos, esses episódios responderam por cerca de 76% das perdas com hacks no mercado de criptomoedas em 2026 até abril.
No caso da KelpDAO, o impacto chegou a aproximadamente US$ 290 milhões. Além disso, o rsETH sem lastro teria sido usado como colateral em plataformas como Aave, Compound e Euler.
Como resultado, a Aave acumulou cerca de US$ 200 milhões em inadimplência. Esse quadro exigiu um esforço conjunto entre protocolos e investidores de varejo para absorver o prejuízo.
Esse efeito em cadeia expôs um dos pilares do DeFi e, ao mesmo tempo, uma de suas fragilidades: a composabilidade. Afinal, o mesmo mecanismo que acelera a eficiência do capital também espalha risco com velocidade. Quando uma falha surge em um protocolo, seus efeitos podem alcançar mercados sem exposição direta ao problema original.
Protocolos fortes tendem a concentrar liquidez
Ainda assim, Fisher sustenta que a tese de longo prazo continua válida. Na avaliação dele, o setor deve passar por consolidação, com poucos protocolos concentrando a maior parte do volume, da liquidez e da confiança do mercado.
“Acho que existe um certo viés de sobrevivência entre as pessoas que constroem há muito tempo e continuam trabalhando duro.”
Infraestrutura invisível pode acelerar a adoção
Na prática, o usuário comum não quer estudar curadores de risco, oráculos, pontes ou gatilhos de liquidação antes de depositar recursos. Ele quer que o cartão funcione, que o empréstimo seja liberado e que o rendimento apareça de forma previsível.
Nesse sentido, Fisher avalia que a simplicidade da interface pode acelerar a próxima fase do setor. Ele compara esse movimento a um cartão de débito ou crédito que empresta depósitos usando o Morpho nos bastidores.
Se o emissor trocar de protocolo sem mudar a experiência final, o cliente dificilmente perceberá a alteração. Isso ocorre porque, acima de tudo, a marca do cartão controla a relação com o usuário.
Um exemplo já em operação é o produto de empréstimos em USDC da Coinbase, baseado em Morpho e cofres da Steakhouse na Base. Segundo o Morpho, essa integração já originou mais de US$ 1,2 bilhão em empréstimos de USDC, com mais de US$ 800 milhões ainda ativos e mais de US$ 1,4 bilhão em cbBTC depositados como colateral.
Para quem toma crédito usando Bitcoin na Coinbase, a experiência acontece dentro do aplicativo da exchange. No entanto, a transferência do colateral e as regras de liquidação rodam nos contratos inteligentes do Morpho. Dessa forma, o Bitcoin deixa de ser apenas um ativo em carteira e passa a atuar como garantia em uma infraestrutura automatizada.
A Kraken segue lógica semelhante com o produto DeFi Earn, que oferece uma experiência sem seed phrases nem assinaturas manuais de contratos. Enquanto isso, os ativos seguem para cofres e protocolos de empréstimo com infraestrutura da Veda e da Sentora.
Nesse modelo, a exchange mantém o vínculo com o cliente, enquanto o protocolo descentralizado se torna uma camada invisível de processamento financeiro. Fisher resumiu essa mudança da seguinte forma:
“A cripto está entrando em uma fase de utilidade prática. Distribuição é um fosso competitivo real em branding e confiança.”
Varejo pode ganhar estabilidade com escala institucional
Fisher rejeita a ideia de que a entrada institucional beneficia apenas grandes participantes. Segundo ele, o varejo pode ganhar estabilidade, já que a liquidez compartilhada entre instituições e usuários comuns tende a amortecer oscilações causadas por entradas ou saídas bruscas de capital.
Além disso, o aumento de escala pressiona desenvolvedores a endurecer sistemas e testá-los em condições mais severas. Em tese, isso pode reduzir a frequência de eventos como a exposição da Aave ao caso KelpDAO, à medida que a infraestrutura amadurece.
Outro ponto citado envolve mecanismos de seguro. De acordo com Fisher, instituições que entram em cofres curados podem começar a oferecer cobertura aos depositantes com o respaldo de suas próprias marcas. Assim, elas preencheriam riscos que os protocolos não absorvem diretamente.
Ademais, o Morpho V2 acrescenta empréstimos com taxa fixa e termos de colateral mais flexíveis. Com isso, a experiência on-chain se aproxima do mercado financeiro tradicional.
Privacidade institucional entra no centro da disputa
Há, porém, uma barreira relevante para participantes institucionais: a transparência radical das blockchains públicas. Em pools de liquidez compartilhada, qualquer agente que monitore a rede pode observar o tamanho das posições, o momento das entradas e até estratégias.
Por isso, Fisher apontou a integração da Zama com o Morpho como uma tentativa de resolver esse obstáculo sem isolar a liquidez institucional. A partir de 23 de junho, depositantes poderão alocar USDC confidencial em um cofre da Steakhouse.
Assim, o tamanho do depósito, a direção e o momento de entrada ficam protegidos por sigilo criptográfico. Ainda assim, o capital continua fluindo para o mesmo cofre compartilhado do Morpho.
De acordo com a documentação da Zama, essa privacidade decorre do agrupamento de depósitos e da redução de sinais públicos na blockchain. Com isso, instituições podem participar de liquidez compartilhada sem expor suas posições, removendo uma das maiores objeções ao uso de redes públicas.
Cenários para o DeFi em 2026
O cenário negativo inclui um novo ataque do porte da KelpDAO, falhas de curadoria, problemas com oráculos ou choques em colaterais empacotados. Se isso ocorrer, exchanges e fintechs poderão reduzir ou ocultar ainda mais sua exposição ao DeFi para proteger suas marcas.
Por consequência, o valor total bloqueado em protocolos de empréstimo descentralizado pode cair de forma relevante. Mesmo nesse cenário, produtos de crédito com garantia em Bitcoin ainda tenderiam a existir.
Contudo, esses produtos operariam com relações empréstimo sobre valor mais baixas, juros mais altos e controles mais rígidos do que os vistos hoje em integrações como a da Coinbase.
Já o cenário positivo depende da aceleração de vetores que já estão em curso. Entre eles está a maior clareza regulatória para stablecoins sob o GENIUS Act, que exige que emissores autorizados de stablecoins de pagamento cumpram obrigações do Bank Secrecy Act como instituições financeiras.
Em princípio, isso cria um caminho regulatório mais claro para protocolos voltados à distribuição institucional. Somados a isso, depósitos confidenciais da Zama, produtos de taxa fixa do Morpho V2 e integrações mais profundas com fintechs poderiam levar o DeFi de empréstimos para uma faixa próxima de US$ 50 bilhões.
Em outras palavras, esse crescimento poderia ocorrer sem que um novo usuário de varejo precisasse entender o papel de um curador de cofres.
Fisher também avalia que fundos de venture capital podem exercer uma função além do financiamento. Nesse sentido, eles podem conectar protocolos de crédito descentralizado a empresas que controlam a experiência do usuário.
Portanto, o acesso ao DeFi chegaria a milhões de pessoas por meio de aplicativos, cartões e produtos de exchange, sem a necessidade de um painel nativo de finanças descentralizadas.
A dimensão dessa oportunidade ajuda a explicar por que a disputa atual é menos sobre branding direto ao varejo e mais sobre infraestrutura. A Moody’s projeta que os ativos sob gestão em crédito privado podem superar US$ 2 trilhões em 2026 e se aproximar de US$ 4 trilhões até 2030.
Diante disso, os US$ 7,1 bilhões em valor total bloqueado do Morpho ainda representam uma fração pequena desse mercado. Para Fisher, a próxima onda institucional do DeFi pode crescer justamente porque muitos usuários nunca verão a camada técnica que sustenta a operação.