Desempenho do mercado cripto em março e perspectivas para abril de 2026
Março foi um mês de forte pressão para os ativos de risco. O Bitcoin encerrou o período com alta de 4,06%, passando de US$ 65.056 na abertura, para US$ 67.700 no fechamento. Apesar do resultado positivo, essa aparente estabilidade esconde uma oscilação de 14% entre a mínima e a máxima mensal, com quedas e altas rápidas puxadas por forte liquidação.
O mercado cripto foi impactado por dois choques macroeconômicos ao longo do mês. O primeiro foi o conflito no Oriente Médio, que trouxe o risco de fechamento do Estreito de Ormuz, levou o petróleo acima de US$ 100 e reacendeu o debate sobre inflação. O segundo foi o endurecimento da política monetária nos Estados Unidos, confirmado na reunião do FOMC do dia 18, que manteve os juros entre 3,50% e 3,75% e sinalizou apenas um corte em 2026.
Esses fatores aumentaram a aversão ao risco entre os investidores. O mercado passou a precificar uma atividade econômica mais fraca, com o payroll de março mostrando perda de 92 mil vagas. Ao mesmo tempo, a inflação seguiu pressionada pela alta da energia. Esse cenário reduziu as expectativas de afrouxamento monetário e aumentou o custo de manter posições alavancadas.
Leis para os criptoativos
O Bitcoin atingiu a máxima do mês no dia 17, ao alcançar US$ 76.000. A alta veio após a divulgação de uma orientação conjunta da SEC e da CFTC, que esclarece como as leis federais se aplicam aos criptoativos.
A nova classificação divide os ativos em diferentes categorias: aqueles que não são valores mobiliários; as Commodities Digitais, como o Bitcoin; os Colecionáveis Digitais (NFTs); e as Ferramentas Digitais, que incluem tokens com função prática, como ingressos, credenciais e identidades. Essa diretriz encerra mais de uma década de incerteza regulatória nos Estados Unidos e estabelece um ambiente mais seguro e previsível, com regras claras para que inovadores, desenvolvedores e investidores possam operar legalmente no país.
Para o mercado, esse tipo de medida não costuma ter impacto imediato nos preços, como ocorre com dados de inflação ou decisão do Fed. Ainda assim, muda a percepção de risco no médio prazo ao destravar novos produtos e reduzir o desconto aplicado por investidores institucionais quando o ambiente jurídico é incerto.
Na sequência, com a alta do petróleo e a postura mais dura do Fed, o BTC recuou e atingiu US$ 67.360 no dia 22, marcando um período de menor apetite por risco. A queda de aproximadamente 11,3% entre o pico do dia 17 e a mínima do dia 22 evidencia a atual sensibilidade do ativo às condições financeiras globais.
O restante do mês foi marcado por volatilidade de curto prazo, influenciada pela guerra e pela dinâmica dos derivativos. No dia 25, o mercado voltou a testar a região de US$ 72.000, mas perdeu força e recuou, voltando para a faixa de US$ 65.000 no dia 29.
No mercado como um todo, o valor total das criptomoedas oscilou entre US$ 2,35 trilhões e US$ 2,37 trilhões ao longo do mês.
Fluxo e liquidez
O fluxo institucional foi o principal termômetro de março, e ele mudou de direção após o FOMC.
No início do mês, os produtos de investimento em cripto voltaram a registrar entradas de capital. A CoinShares registrou US$ 1 bilhão em entradas na primeira semana, encerrando uma sequência de cinco semanas consecutivas de saídas. O Bitcoin liderou esse movimento, com US$ 881 milhões em inflows.
Nas semanas seguintes, o fluxo continuou positivo: US$ 619 milhões na segunda semana. E US$ 1,06 bilhão na terceira. Reforçando a leitura de resiliência mesmo sob estresse geopolítico. Ao mesmo tempo, os ETFs spot de Bitcoin nos EUA tiveram uma sequência forte de entradas entre 9 e 17 de março. Com saldo líquido positivo em US$ 876 milhões. Esse fluxo ajudou a sustentar o mercado enquanto a pressão macro ainda não havia se consolidado por completo.
O ponto de virada veio após o FOMC.
Com a manutenção dos juros e a sinalização de apenas um corte para este ano, os fluxos ficaram mais instáveis. Na semana do dia 23, os produtos de investimento registraram saídas de US$ 405 milhões.
O fluxo institucional segue como uma das principais bases de sustentação do preço. Quando é estável e previsível, o mercado ganha suporte. Quando oscila, o preço fica mais exposto à dinâmica dos derivativos e às condições macroeconômicas.
Na liquidez nativa do mercado, o principal destaque do mês esteve nos derivativos. O fim do período ficou marcado por liquidações e episódios de short squeezes. No dia 23, com o Bitcoin orbitando a faixa de US$ 67 mil. O mercado registrou mais de US$ 400 milhões em liquidações em 24 horas. No dia seguinte, a recuperação acima de US$ 71 mil levou à liquidação de cerca de US$ 550 milhões em posições vendidas.
Esse episódio reforça o papel dominante dos derivativos no curto prazo, com liquidações sucessivas acelerando tanto as quedas quanto as recuperações.
Principais drivers
O principal driver macroeconômico foi a reprecificação da trajetória de juros nos Estados Unidos. O payroll negativo de março (-92 mil vagas) indicou desaceleração da atividade. Por outro lado, o choque de energia e o PPI mais forte, em 3,4% ao ano, recolocaram a inflação no centro do debate. Com a gasolina acumulando alta superior a 20% desde o início do conflito, o mercado já projetava pressão inflacionária nos meses seguintes.
O FOMC consolidou essa leitura ao manter os juros e indicar apenas um corte em 2026. Para o mercado cripto, o impacto é direto porque ativos mais dependentes de liquidez tendem a sofrer quando o mercado conclui que o custo do dinheiro seguirá caro por mais tempo.
No campo geopolítico, o destaque foi a escalada do conflito envolvendo o Irã, com impactos diretos no Estreito de Ormuz. A Agência Internacional de Energia classificou o episódio como o maior choque geopolítico de energia desde 1990. Com uma queda estimada de 8 milhões de barris por dia e liberação recorde de 400 milhões de barris de reservas. Em 26 de março, o Barclays elevou a estimativa de risco para uma perda entre 13 e 14 milhões de barris por dia, caso o fechamento se prolongasse.
Esse cenário elevou o preço do petróleo, reacendeu as preocupações com a inflação e pressionou ainda mais as expectativas para os juros. Na prática, o conflito passou a ser interpretado como um choque capaz de apertar ainda mais as condições financeiras globais.
Conclusão
Março reforçou que o mercado cripto ainda está altamente dependente do cenário macroeconômico. A entrada de capital via ETFs e ETPs ajudou a sustentar os preços, mas não foi suficiente para compensar um ambiente mais difícil, com inflação elevada e juros restritivos.
O mês ficou marcado por um clima de cautela. Visto que em alguns momentos, houve recuperação, seja por sinais de alívio no cenário geopolítico, seja por movimentos técnicos do mercado. Mas essas altas foram pontuais e de curta duração.
O fluxo institucional continuou presente e o valor total do mercado se manteve estável. Por outro lado, também não houve uma tendência consistente de alta. Já que os preços foram influenciados por fatores externos, como o petróleo, as decisões do Fed e eventos de liquidação.
O ponto mais importante para avaliar a maturidade do mercado, por certo, é que o Bitcoin conseguiu se manter acima de US$ 65 mil mesmo em um dos cenários macro mais desafiadores dos últimos meses. Esse nível foi testado e sustentado.
Em contrapartida, a dificuldade em se manter acima de US$ 75 mil, mesmo após uma notícia positiva no campo regulatório, mostra que há uma resistência clara nessa faixa.
O mercado cripto, portanto, está maior e mais integrado ao sistema financeiro. Isso fortalece sua base, mas também aumenta sua sensibilidade aos mesmos fatores que afetam outros mercados, como juros, câmbio e bolsa.
Perspectivas para abril
Três variáveis devem orientar o comportamento do mercado em abril.
A primeira é o fluxo dos ETFs spot de Bitcoin nos EUA. Ou seja, caso as entradas voltem a ganhar consistência, o mercado tende a recuperar força e a depender menos de movimentos forçados, como liquidações e recompras de posições. Por outro lado, se o fluxo permanecer instável, os preços devem ficar mais vulneráveis a choques externos.
A segunda é a combinação entre petróleo e juros. Se o conflito no Oriente Médio se prolongar, de fato, a pressão inflacionária via energia tende a persistir, reforçando uma postura mais dura do Fed. E reduzindo o espaço para altas sustentadas. Por outro lado, sinais claros de alívio, especialmente uma desescalada do conflito, podem melhorar o ambiente para ativos de risco. Se o choque de energia persistir, no entanto, o Bitcoin deve continuar sensível a episódios de aversão ao risco.
A terceira variável é o mercado de derivativos. O padrão recente, com maior concentração de posições vendidas, decerto, sugere que o preço pode alternar entre quedas rápidas e repiques fortes.
Cenários neutro, positivo e mais difícil
No cenário neutro, abril tende a repetir o padrão de março em escala menor: um mercado sensível ao macro, com presença institucional, mas sem direção clara.
Em um cenário mais positivo, sinais de alívio geopolítico e estabilização do petróleo podem reduzir o prêmio de risco e melhorar o humor, principalmente se o fluxo em ETFs acompanhar.
Já em um cenário mais difícil, uma piora do conflito, nova pressão inflacionária ou saídas líquidas dos produtos institucionais prolongariam a postura defensiva. Isto é, mantendo o mercado mais voltado à proteção do que crescimento.
Vale acompanhar de perto os fatores que realmente moveram março: petróleo, política monetária, fluxo institucional e derivativos. Em um ambiente ainda incerto e sensível ao macro, uma postura mais defensiva, com foco em gestão de risco e preservação de capital, tende a ser mais adequada do que a busca por ganhos agressivos.
*Análise escrita pela Ana de Mattos, Analista Técnica e Trader Parceira da Ripio, uma das maiores plataformas de criptoativos da América Latina.