Desempenho do mercado cripto em fevereiro e perspectivas para março de 2026

O desempenho do mercado cripto em fevereiro não partiu do zero, já que janeiro terminou em um contexto de aversão a risco que atingiu múltiplos mercados, criando condições para liquidações forçadas no setor. Esse quadro reduziu a tolerância do mercado à volatilidade e contribuiu para uma correção mais intensa. Como consequência, entre a máxima de janeiro e a mínima registrada em fevereiro, o Bitcoin acumulou queda de 38%.

Esse movimento exige atenção porque, ao longo de janeiro e fevereiro, o Bitcoin passou a reagir aos mesmos fatores que afetam ativos de risco tradicionais: maior sensibilidade aos juros dos títulos americanos de 10 anos (Treasuries), ao dólar (DXY), à volatilidade das bolsas americanas (VIX) e ao ruído político relacionado a tarifas. Essas variáveis apertaram as condições financeiras globais e passaram a impactar o preço do Bitcoin no curto prazo. Nesse período, o fluxo institucional esteve irregular, enquanto a alavancagem amplificou os movimentos.

Na prática, o Bitcoin apresentou comportamento semelhante ao de ativos de risco tradicionais. Quando o dólar se fortalece ou os juros americanos sobem, o acesso a capital fica mais caro, levando investidores a reduzir a exposição em ativos mais voláteis. Como resultado, o BTC perdeu força nesses momentos. Esse contexto ajuda a explicar por que, no início do mês, o mercado ficou mais exposto a novos apertos nas condições financeiras e com menor capacidade de estabilizar movimentos de venda.

Market cap global

O movimento decisivo ocorreu no início do mês, quando a correção foi intensificada por um mercado significativamente alavancado. Isso desencadeou uma cascata de liquidações de US$ 2,5 bilhões no dia 2 e, no dia 5, houve um novo pico próximo de US$ 1 bilhão em posições liquidadas em 24 horas, indicando que a queda não foi resultado apenas de um fluxo vendedor orgânico, mas também de um processo forçado de desalavancagem em derivativos, que acelerou a tendência de baixa no curto prazo.

Esse mecanismo é relevante porque as liquidações forçam vendas a mercado e reduzem temporariamente a capacidade dos compradores de absorver a oferta. Como consequência, a volatilidade aumentou rapidamente e a queda se intensificou de forma autônoma.

Enquanto o mercado cripto enfrentava uma forte correção no início de fevereiro, o market cap global orbitava a região de US$ 2,36 trilhões (25,6% em relação ao pico de janeiro, de US$ 3,17 trilhões). Nos períodos de maior desalavancagem, o sentimento do mercado recuou para níveis de “medo extremo” no Índice Fear & Greed, refletindo a combinação entre liquidações forçadas e fragilidade do fluxo institucional.

Ainda no início de fevereiro, surgiram sinais de impasse regulatório após reuniões sobre a legislação cripto nos EUA terminarem sem acordo, elevando o risco de atraso na definição de um arcabouço mais claro para o setor. Esse tipo de ruído ganha relevância por aumentar a incerteza regulatória e reduzir a disposição dos investidores em ampliar exposição durante períodos de maior volatilidade.
 

ETPs e ETFs

Nesse período, o canal mais direto para interpretar o movimento foi o comportamento dos investidores institucionais. Houve saídas relevantes de produtos ligados à cripto, com cerca de US$ 1,7 bilhão em outflows de ETPs na primeira semana de fevereiro. Nos EUA, dias consecutivos de resgates em ETFs spot de Bitcoin registraram saídas expressivas, de aproximadamente US$ 544,9 milhões no dia 4 e US$ 434,1 milhões no dia 5.

Esses outflows foram determinantes porque reduziram a presença de novos compradores justamente quando o mercado precisava absorver vendas forçadas. Com isso, parte do ajuste de preços ocorreu nos mercados de derivativos, onde a liquidez reage de forma mais imediata às pressões de venda.

A sequência de saídas em ETPs e ETFs ampliou o desequilíbrio: o mercado perdeu uma fonte importante de demanda ao mesmo tempo em que a oferta aumentava por meio de execuções de stops e chamadas de margem. Isso explica por que a queda se intensificou nesses dias, já que a formação de preços passou a responder mais a ordens de venda de curto prazo do que a fluxos compradores.

Após atingir a mínima mensal em US$ 60.000 no dia 5, houve um alívio no dia 8, quando o Bitcoin reagiu rapidamente e voltou aos US$ 72.271, uma recuperação de 20%. Esse rebote aconteceu porque a própria desalavancagem reduz temporariamente a pressão de venda e abre espaço para recomposição parcial de posições. Quando ocorre uma cascata de liquidações, o open interest cai de forma abrupta porque posições forçadas são zeradas. Isso reduz a pressão de venda, já que parte relevante da oferta foi executada a mercado. Como consequência, o livro de ofertas fica momentaneamente mais leve. Portanto, a leitura é de uma recuperação técnica, e não de uma reversão da tendência.

Conexão Macroeconômica

No restante do mês, os dados macroeconômicos atuaram como gatilhos de curto prazo. Leituras pontuais de inflação mais fraca nos EUA (CPI e núcleos) melhoraram o humor em momentos específicos, o que permitiu um alívio pontual no Nasdaq e em outros ativos de risco, e o Bitcoin acompanhou esse movimento. No entanto, como os fluxos de ETFs permaneceram fracos e houve uma sequência de outflows no início do mês, a melhora inflacionária não foi suficiente para alterar a direção do mercado.

A agenda tarifária dos Estados Unidos manteve o ambiente de cautela ao longo do período. Após idas e vindas durante o mês e ajustes descritos como “tariff relief” em 24/02, o impacto foi limitado, e a incerteza tarifária continuou atuando como fator de risco para os mercados.

O tema voltou a ganhar força em 25/02 com a sinalização de tarifas de 15% ou mais para alguns países. Para o mercado cripto, esse fator é relevante porque a incerteza comercial altera as expectativas de crescimento, a inflação e a trajetória de juros, elevando o prêmio de risco (risk-off) nos mercados globais.

Como consequência, ativos mais sensíveis à liquidez e apetite por risco, como o Bitcoin, tendem a sofrer mais. Já que o fluxo institucional fica mais seletivo e a demanda por ativos especulativos diminui em momentos prolongados de incerteza comercial.

No fechamento do período, o Bitcoin saiu de aproximadamente US$ 79.424 em 01/02 para US$ 68.100 em 26/02, uma diferença de 14% entre a abertura mensal e o preço atual. Esse movimento resume um mês de alta volatilidade e recuperação apenas parcial das perdas.

Perspectivas para o próximo mês

Para o próximo mês, a principal dúvida é se o mercado conseguirá recompor a demanda institucional (flows). E absorver o excesso de oferta gerado pelas perdas recentes sem a ocorrência de um novo choque macroeconômico, como mudanças em juros ou tensões comerciais.

Caso o dólar e os rendimentos dos títulos americanos voltem a subir, o Bitcoin tende a permanecer sensível ao ambiente global de risco. Com fluxos institucionais ainda frágeis, o mercado fica mais vulnerável a choques macro do que em períodos de entradas líquidas consistentes.

O principal ponto de atenção continua sendo o fluxo de capital e as condições financeiras. Já que a direção dos preços deve depender do retorno de compradores ao mercado à vista. Especialmente quando o ambiente macroeconômico se tornar mais favorável.

Nesse contexto, o acompanhamento do mercado pode se concentrar em poucos indicadores chave. Os fluxos diários de ETFs e ETPs ajudam a avaliar se o investidor institucional está voltando. Os Treasuries e o dólar indicam se as condições financeiras estão mais restritivas ou mais favoráveis. Métricas como funding e open interest mostram o retorno da alavancagem, enquanto eventos regulatórios podem movimentar o preço do Bitcoin.

*Análise escrita pela Ana de Mattos, Analista Técnica e Trader Parceira da Ripio, uma das maiores plataformas de criptoativos da América Latina.