Digitra deixa varejo cripto após regras do Banco Central

A Digitra.com encerrará os serviços de negociação e custódia de criptoativos para investidores de varejo no Brasil. A empresa reúne cerca de 200 mil clientes brasileiros e estrangeiros e atribuiu a decisão ao novo marco regulatório do setor.

Além disso, a Digitra informou que não solicitará autorização ao Banco Central para permanecer nesse segmento. A companhia começará a comunicar os clientes nesta quinta-feira (20), por meio de seus canais oficiais.

Novas exigências afetam operação da Digitra

A decisão ocorre durante uma reorganização do mercado de criptomoedas brasileiro. As novas regras aumentaram as exigências aplicáveis às prestadoras de serviços de ativos virtuais.

Em resposta ao Valor Econômico, a empresa citou as Resoluções BCB nº 519, 520 e 521. As normas entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026.

A Resolução BCB nº 519 estabelece os processos de autorização para sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais. Já a Resolução BCB nº 520 trata da constituição e do funcionamento dessas empresas.

Por sua vez, a Resolução BCB nº 521 inclui determinadas operações com ativos virtuais nas regras de câmbio e capitais internacionais. O conjunto regulatório também estabelece requisitos de governança, capital e estrutura operacional.

Na avaliação da Digitra, as exigências inviabilizaram a manutenção de uma operação de varejo que ainda buscava ganhar escala. Contudo, a companhia continuará avaliando oportunidades no mercado de infraestrutura empresarial.

“Estamos encerrando as operações voltadas aos investidores de varejo, mas ainda estamos pesquisando o mercado de infraestrutura para empresas”, afirmou a Digitra. Dessa forma, a decisão não representa uma saída completa da companhia do setor.

Clientes terão prazos diferentes para saques

A Digitra conduzirá o desligamento da plataforma em etapas. Os clientes poderão sacar criptoativos até 21 de setembro e retirar valores em reais até 19 de outubro.

Depois desses prazos, a empresa pretende concluir o encerramento completo da plataforma em 30 de outubro. Portanto, os clientes precisam acompanhar os canais oficiais para organizar retiradas e eventuais migrações.

Regulação acelera consolidação entre corretoras

A saída da Digitra reforça uma tendência observada no mercado brasileiro. Em maio, a Bitnuvem anunciou o fim de suas atividades após sete anos de operação.

Na ocasião, a Bitnuvem citou o avanço das exigências regulatórias e a dificuldade para competir com grandes plataformas internacionais. Em junho, a NovaDAX também iniciou o encerramento de sua operação no Brasil.

A NovaDAX interrompeu as negociações em 30 de junho. Desde então, manteve a plataforma disponível apenas para saques, após anunciar a descontinuação no início daquele mês.

Custos de adaptação desafiam empresas do setor

As novas regras exigem autorização, segregação patrimonial e controles de prevenção à lavagem de dinheiro. Também incluem gestão de riscos e requisitos operacionais próximos aos adotados pelo mercado financeiro tradicional.

Com isso, as empresas precisam investir em compliance, governança, controles internos, tecnologia, capital e processos de reporte. Para o Banco Central, a inclusão dessas prestadoras no perímetro regulatório aumenta a segurança dos investidores.

Em contrapartida, parte do setor avalia que o custo de adaptação pode acelerar a concentração do mercado. Plataformas menores ou ainda em expansão enfrentam dificuldades para absorver as novas despesas regulatórias.

Rodrigo Batista, ex-CEO do Mercado Bitcoin, fundou a Digitra com uma proposta voltada à negociação digital e a novas estruturas de mercado. Após o encerramento do varejo, ele seguirá ligado a iniciativas empresariais, de tokenização e de mercados de previsões, conforme a companhia.

O caso indica uma nova etapa para o mercado cripto brasileiro, marcada por regras mais amplas e maior seleção entre empresas. Nesse cenário, operar no país exige escala, capital e uma estrutura regulatória próxima à das instituições financeiras tradicionais.