Engenheiro do Google é preso por fraude na Polymarket

Autoridades dos Estados Unidos prenderam Michele Spagnuolo, engenheiro de segurança da informação do Google, após promotores acusá-lo de fraude com commodities, fraude eletrônica e lavagem de dinheiro. Segundo a denúncia, ele teria usado dados internos confidenciais da empresa para apostar na Polymarket e lucrar cerca de US$ 1,2 milhão.

O gabinete do procurador federal do Distrito Sul de Nova York tornou pública a denúncia contra Spagnuolo em 27 de maio de 2026. O acusado tem 36 anos, é cidadão italiano, mora na Suíça e usava o nome de usuário AlphaRaccoon na Polymarket.

Após a prisão em Nova York, Spagnuolo compareceu diante da juíza magistrada Sarah Netburn. Em seguida, deixou a custódia após pagar fiança de US$ 2,25 milhões, garantida por US$ 1 milhão em dinheiro. Até aquele momento, ele ainda não havia apresentado uma declaração formal sobre culpa ou inocência.

Dados internos teriam guiado apostas

A denúncia afirma que Spagnuolo tinha acesso a uma ferramenta interna do Google marcada como Google Confidential. O sistema permitia acompanhar, em tempo real, o que usuários pesquisavam na plataforma da companhia. Além disso, os dados abasteciam os rankings anuais do Year in Search, retrospectiva das buscas mais populares do Google.

Segundo os promotores, esse acesso permitiu a Spagnuolo montar uma estratégia de apostas na Polymarket, plataforma de mercados de previsões baseada em criptomoedas. Em maio de 2024, ele teria criado sua conta e passado a negociar contratos ligados a pessoas, programas e temas que apareceriam entre os mais buscados do Google em 2025.

Conforme a acusação, esses mercados surgiram no segundo semestre de 2025. Nesse período, investigadores afirmam que Spagnuolo transferiu cerca de US$ 3,8 milhões em USDC para seu endereço na Polymarket. Depois disso, distribuiu o capital em várias posições direcionadas.

Entre os exemplos citados no processo, aparece uma aposta de US$ 381,12 em “sim” para que o artista d4vd entrasse na lista dos mais pesquisados do Google. A denúncia também cita acertos em contratos como “Zohran Mamdani ficará entre os cinco mais pesquisados?” e “Squid Game será o programa de TV mais buscado?”.

Para os promotores, esse índice de acerto não ocorreu por acaso. A acusação sustenta que Spagnuolo sabia antecipadamente quais contratos tenderiam a vencer. Isso teria ocorrido porque ele monitorava dados internos ainda indisponíveis ao público e não refletidos integralmente nos preços do mercado.

Google e CFTC avançam em paralelo

Além do processo criminal, a Commodity Futures Trading Commission, a CFTC, abriu uma ação civil contra Spagnuolo. O objetivo é recuperar valores obtidos, exigir restituição e aplicar outras penalidades financeiras. Ao mesmo tempo, o Google confirmou que colocou o funcionário em licença e coopera com as autoridades.

A empresa afirmou que a ferramenta era tecnicamente acessível a funcionários. Ainda assim, ressaltou que usar informações confidenciais para fazer apostas representa uma violação grave de suas políticas internas.

O episódio amplia a pressão regulatória sobre a Polymarket e sobre o segmento de mercados de previsões. Embora a plataforma não figure como acusada no esquema, o caso reforça a preocupação de autoridades americanas com contratos baseados em eventos. Esses mercados podem sofrer distorções quando participantes acessam informações não públicas antes dos demais.

Segundo caso federal eleva pressão regulatória

A prisão de Michele Spagnuolo marca o segundo caso criminal federal ligado a suposto insider trading na Polymarket em pouco mais de um mês. Em abril de 2026, autoridades prenderam Gannon Ken Van Dyke, sargento-mestre das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos.

Van Dyke foi acusado de usar conhecimento militar sigiloso sobre a planejada captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, para apostar na mesma plataforma. Segundo a acusação, ele teria obtido mais de US$ 400 mil. Naquele processo, Van Dyke se declarou inocente.

Assim, a nova acusação sugere um endurecimento mais rápido do cerco regulatório sobre o setor. Em um curto intervalo, autoridades dos Estados Unidos passaram a associar apostas em mercados de previsões ao uso indevido de informação militar classificada e de dados corporativos confidenciais.

A diretora jurídica da Polymarket, Olivia Chalos, afirmou em comunicado que a empresa trabalhou em estreita cooperação com o gabinete do procurador federal e com a CFTC no caso Spagnuolo. Segundo ela, a Polymarket é, até o momento, a única plataforma de previsões cuja colaboração resultou em acusações de insider trading nos Estados Unidos.

Além disso, Chalos declarou que a própria estrutura em blockchain da plataforma faz com que agentes mal-intencionados deixem rastros verificáveis. Por fim, o caso reúne os principais elementos da atual ofensiva regulatória: um funcionário do Google acusado de usar dados internos confidenciais, transferências de aproximadamente US$ 3,8 milhões em USDC, lucro estimado em US$ 1,2 milhão, ação civil paralela da CFTC e cooperação formal do Google e da Polymarket com as autoridades americanas.