Ethena mira funding maior que Bitcoin em ações
A Ethena pretende ampliar a estratégia de base do USDe para contratos perpétuos de ações. A iniciativa busca taxas de funding mais de cinco vezes superiores às registradas pelo Bitcoin. Dessa forma, o protocolo tenta reverter a contração enfrentada pelo dólar sintético em 2026.
Em 28 de agosto, a Ethena apresentou seus planos para atuar nesse segmento. O interesse em aberto no mercado subiu de menos de US$ 1 bilhão em março para cerca de US$ 6,2 bilhões. Nos últimos meses, o funding médio alcançou aproximadamente 14% na Hyperliquid e 17,5% na Binance.
Contratos de ações ampliam estratégia da Ethena
Em comparação, o funding dos contratos perpétuos de Bitcoin registrou média de 2,2% em 2026 até 11 de agosto. O indicador havia alcançado 4,9% em 2025 e 11% em 2024. Portanto, os contratos ligados a ações representam uma fonte de retorno potencialmente mais rentável.
Guy Young, fundador da Ethena, afirmou no X que ações e commodities se tornaram um dos principais mercados de crescimento do protocolo. Conforme Young, o volume de ativos do mundo real superou metade do volume de criptomoedas na Hyperliquid no mês anterior. Já o volume agregado de perpétuos de RWA na Binance atingiu cerca do dobro do volume de BTC-USDT.
Young espera que o interesse em aberto e o volume desse setor superem os perpétuos de criptomoedas nas principais plataformas em cerca de dois anos. Com isso, a Ethena amplia o universo disponível para sua estratégia. O mercado potencial passa de aproximadamente US$ 2,5 trilhões em criptomoedas para mais de US$ 120 trilhões em ações.
Protocolo prepara posições nas próximas semanas
O protocolo planeja abrir posições de base em ações nas próximas semanas. Para isso, usará plataformas onde já opera com criptomoedas e a infraestrutura desenvolvida para o USDe. Young explicou que a equipe aguardou maior liquidez e um histórico de negociação suficiente antes de atuar em escala.
Na data da publicação, a oferta do USDe permanecia próxima de US$ 4,04 bilhões. Esse montante correspondia a menos de um terço do pico de aproximadamente US$ 15 bilhões alcançado no ano anterior. Nesse cenário, a diversificação busca fortalecer os retornos e apoiar uma possível recuperação do produto.
Queda no funding cripto pressiona o USDe
A expansão ocorre após uma forte deterioração da operação que sustentou o crescimento inicial do USDe. Com a queda das taxas de funding no mercado de criptomoedas, as posições tradicionais de base perderam atratividade. Por isso, a Ethena passou a procurar outras fontes de retorno.
A Ethena lançou o USDe com uma estrutura neutra em delta. Essa estrutura combinava garantias em criptomoedas com posições vendidas em derivativos. Quando operadores pagavam funding positivo para manter posições compradas e alavancadas, o protocolo capturava esses pagamentos. Ao mesmo tempo, as exposições opostas reduziam a sensibilidade aos preços de Bitcoin e Ethereum.
A estratégia funcionava melhor durante períodos de forte demanda por alavancagem. Contudo, as condições desfavoráveis do mercado enfraqueceram sua economia em 2026. Dados do painel de transparência da Ethena indicavam que as posições de base em criptomoedas representavam cerca de 13% do lastro do USDe.
Reservas migram para outros mercados
Enquanto isso, a Ethena transferiu uma parcela maior das reservas para outras estratégias. Empréstimos em DeFi somavam cerca de US$ 1,26 bilhão, equivalentes a 30,8% das reservas. Stablecoins líquidas respondiam por outros 32%, enquanto ativos do mundo real representavam 12,3%. O crédito institucional alcançava 11,8%.
Essas alocações geravam rendimentos entre cerca de 3,1% nos empréstimos em DeFi e até 7% no crédito institucional. Como resultado, a carteira de base em criptomoedas passou a fornecer somente uma pequena parcela dos retornos. Essa carteira havia definido a proposta do USDe em seu lançamento.
Os perpétuos de ações permitem retomar a negociação de base sem depender de uma alta na alavancagem de Bitcoin e Ethereum. Além do potencial de retorno, esse funding apresentou correlação limitada com o mercado de criptomoedas. Assim, a nova frente pode reduzir parcialmente a dependência dos ciclos do setor.
Estratégia também envolve riscos de liquidez
Por outro lado, a oportunidade enfrenta riscos comuns às operações de base. As taxas podem cair quando mais capital entra no lado vendido. A liquidez também pode diminuir durante períodos de estresse no mercado.
Os perpétuos de ações funcionam sem interrupção nas plataformas de negociação, inclusive quando as bolsas tradicionais estão fechadas. Isso cria desafios adicionais de precificação e liquidez fora do horário convencional. Ainda assim, a Ethena aposta que o mercado crescerá rápido o suficiente para absorver posições maiores.
A manutenção dos rendimentos também dependerá do equilíbrio entre posições compradas e vendidas. Caso o capital vendedor cresça rapidamente, as taxas de funding poderão perder atratividade. Desse modo, os resultados atuais não garantem que a diferença em relação ao Bitcoin continuará no longo prazo.
Recuperação do USDe condiciona recompras de ENA
A busca por retornos mais fortes ganhou urgência porque a Ethena vinculou futuras compras de ENA à recuperação da oferta do USDe. Em março, o dólar sintético tinha cerca de US$ 5,92 bilhões em circulação. Entretanto, o montante caiu para US$ 3,90 bilhões ao fim de abril, uma redução próxima de um terço em dois meses.
Em maio, a oferta cresceu 15,6% e atingiu US$ 4,51 bilhões. Depois, permaneceu perto de US$ 4,46 bilhões durante junho, antes de voltar a recuar. Em agosto, o USDe avançou de aproximadamente US$ 3,92 bilhões no dia 10 para mais de US$ 4,08 bilhões no dia 23.
Em seguida, a oferta recuou para cerca de US$ 4,06 bilhões em 28 de agosto. A recuperação interrompeu parte da queda anterior, mas manteve o USDe muito abaixo do pico de 2025. Essa diferença define quando os detentores de ENA poderão se beneficiar da proposta de ativação de taxas.
Primeira meta exige crescimento de cerca de 86%
Uma proposta de governança apresentada em 27 de agosto prevê recompras de ENA quando a oferta do USDe alcançar US$ 7,5 bilhões. A parcela destinada ao programa aumentaria após os patamares de US$ 10 bilhões, US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões. Após o primeiro marco, a Ethena propõe usar 95% da receita líquida destinada à Fundação para comprar ENA.
As receitas viriam de três linhas principais: poupança em USDe, stablecoins de marca branca e Ethena X. Na ocasião, o protocolo planejava lançar a terceira operação na semana seguinte. Com a oferta atual, o USDe ainda precisaria adicionar cerca de US$ 3,46 bilhões para atingir o primeiro limite.
Esse avanço equivale a aproximadamente 86%. Logo, a estrutura mantém as recompras inativas enquanto a Ethena reconstrói seu produto central. A proposta busca retomar o patamar de quase US$ 15 bilhões alcançado no ano anterior. Posteriormente, o protocolo pretende superar US$ 100 bilhões em oferta dentro de cinco anos.
O Comitê de Risco recomendou o uso da média móvel de 14 dias para verificar os limites. A medida reduz a possibilidade de uma emissão elevada ativar temporariamente o programa. Em um teste histórico, o comitê estimou recompras anuais próximas de US$ 52,7 milhões. No entanto, o valor dependerá das receitas e dos rendimentos futuros.
ENA avança antes da ativação das recompras
Os participantes do mercado já se anteciparam a uma possível recuperação. Em 28 de agosto, o ENA estava próximo de US$ 0,163, com alta de 11,6% em 24 horas. O avanço acumulado em 30 dias chegava a quase 99%, enquanto o volume negociado superava US$ 2 bilhões.
O movimento ocorreu após reações à proposta de recompra, às mudanças nos desbloqueios de investidores e à expansão da Ethena. Mesmo assim, o USDe continuava cerca de US$ 3,5 bilhões abaixo do patamar necessário para ativar compras recorrentes. Os perpétuos de ações representam a tentativa mais recente de reduzir essa distância. Porém, a recuperação dependerá da manutenção dos rendimentos quando mais capital entrar na estratégia.