Ethereum: BitMine busca US$ 300 mi com cupom de 9,5%

A BitMine, presidida por Thomas Lee, anunciou uma nova captação com ações preferenciais perpétuas e reforçou sua aposta em Ethereum. Segundo documento apresentado em 3 de junho à SEC, a empresa pretende vender 3 milhões de ações da Série A, com valor declarado de US$ 100 cada. Assim, a operação pode levantar até US$ 300 milhões.

O papel oferece dividendo anual fixo de 9,5%, com pagamentos semanais, desde que o conselho da BitMine os declare. Além disso, caso a oferta alcance o volume total, a companhia assumirá cerca de US$ 28,5 milhões por ano em dividendos.

A BitMine pretende levar as ações à Bolsa de Nova York sob o código BMNP, caso a NYSE aprove a listagem. Ademais, Moelis & Company e Cantor atuam como coordenadores líderes conjuntos da oferta.

O anúncio ocorre em um momento sensível para empresas que usam ativos digitais como base de tesouraria. Afinal, com a recente queda do Ethereum, as perdas não realizadas da BitMine em sua posição em ETH já superaram US$ 8,5 bilhões. Isso ocorreu porque o preço atual do ativo ficou muito abaixo do custo médio de aquisição da empresa.

Perdas não realizadas da BitMine em suas reservas de Ethereum
Perdas não realizadas da BitMine em suas reservas de Ethereum.

Fonte: CryptoQuant

Staking de Ethereum sustenta a tese da BitMine

O registro informa que os recursos poderão financiar fins corporativos gerais. Entre eles estão novas compras de ETH e outros ativos digitais, expansão da infraestrutura de staking e validadores, capital de giro, investimentos estratégicos ligados ao Ethereum e recompra de ações ordinárias.

Na prática, a oferta não serve apenas para reforçar o caixa. Pelo contrário, ela também pode permitir que a BitMine continue acumulando ETH em um período de preços mais fracos. Dessa forma, a empresa aprofunda a conexão entre seu balanço, sua operação de staking e os investidores do mercado acionário.

Ao longo do último ano, a companhia montou uma posição agressiva em Ethereum e hoje detém mais de 5,3 milhões de tokens. Isso equivale a cerca de 4,5% da oferta circulante de ETH. Além disso, uma parcela relevante dessas moedas está em staking, o que permite gerar rendimento de protocolo sem vender o ativo principal.

Principais métricas da BitMine
Principais métricas da BitMine.

Fonte: BitMineTracker

Rendimento operacional entra no centro da captação

Thomas Lee já havia defendido que esse rendimento operacional dá às empresas focadas em Ethereum uma vantagem estrutural sobre veículos concentrados em Bitcoin. Em outras palavras, enquanto o Bitcoin funciona como reserva passiva, o ETH pode gerar retorno via staking.

Esse ponto é central para a nova emissão. Com cupom fixo de 9,5%, a oferta integral de US$ 300 milhões implicaria pagamentos de cerca de US$ 548 mil por semana em dividendos. Ainda assim, a BitMine afirma que sua receita anualizada com staking já opera na casa de centenas de milhões de dólares, o que sugere capacidade de sustentar esse fluxo em condições normais de mercado.

O restante do setor também avança nessa direção. Um estudo da Everstake aponta que, em 2025, o staking respondeu por 60% da receita divulgada por empresas listadas com tesouraria em ETH. Portanto, a gestão ativa do Ethereum passou a ter peso crescente nesse modelo corporativo.

No entanto, a estrutura não elimina riscos. O registro da oferta mostra que a BitMine não vinculou uma fonte específica de receita de staking ao pagamento dos dividendos da ação preferencial. Em vez disso, a empresa poderá usar caixa disponível, rendimento do ETH, venda de títulos, futuras captações ou outras fontes.

Comparação com a Strategy revela limites do modelo

A iniciativa da BitMine lembra a estratégia de financiamento usada pela Strategy, empresa de tesouraria em Bitcoin associada a Michael Saylor. As duas companhias recorreram ao mercado de capitais para converter a demanda por rendimento em capacidade adicional de compra de ativos digitais. Assim, ambas oferecem exposição indireta à tese de tesouraria em criptomoedas.

As semelhanças, contudo, terminam em pontos importantes. A ação preferencial STRC da Strategy tem taxa variável, atualmente em 11,50%, e usa um desenho voltado a manter a cotação próxima do valor de US$ 100. Como resultado, a companhia ganha mais flexibilidade para reagir caso o preço de mercado se afaste do valor de referência.

Já a preferencial Série A da BitMine traz uma estrutura mais rígida. O dividendo é fixo em 9,50%, com pagamento semanal em atraso, se declarado. Além disso, se o pagamento não ocorrer, os dividendos se acumulam e passam a capitalizar semanalmente, com taxa que pode subir gradualmente até 15% ao ano.

Resgate, liquidação e pressão sobre o caixa

Outra diferença relevante aparece no resgate. A BitMine poderá recomprar as ações por 110% do valor declarado nos primeiros 18 meses, por 105% entre 18 meses e três anos, e por 100% após três anos, sempre acrescido de dividendos acumulados e não pagos. Em determinados eventos fundamentais, os investidores também terão direito de exigir recompra.

Os papéis ainda trazem preferência de liquidação que começa em US$ 100 e usa uma fórmula baseada no preço de mercado para ajustes, sem cair abaixo desse piso. Assim, a empresa preserva alguma flexibilidade, mas expõe o custo de captar recursos em um mercado cripto enfraquecido.

Por fim, o rendimento de 9,5% chama a atenção de investidores focados em renda, mas também reflete o prêmio exigido para financiar uma companhia fortemente atrelada ao Ethereum. Ao mesmo tempo, a BitMine tenta atravessar um período em que suas perdas não realizadas já passam de US$ 8,5 bilhões, mesmo com posição superior a 5,3 milhões de tokens e potencial de captação de até US$ 300 milhões.