Ethereum mira resistência quântica na camada 1 até 2029
A Fundação Ethereum definiu dezembro de 2029 como prazo para tornar a camada 1 resistente a ataques de computadores quânticos. A meta integra as prioridades de longo prazo do Protocol Cluster, grupo que coordena pesquisas e mudanças no protocolo. Ao mesmo tempo, a organização avaliou 62 propostas para a atualização Hegotá, prevista para 2027.
Em uma publicação no X, a Fundação Ethereum apresentou dois artigos sobre Hegotá e o planejamento da camada base. Um deles reúne avaliações e classificações das propostas consideradas para a atualização. Por sua vez, o segundo detalha compromissos técnicos que vão além de um único hard fork.
Fundação Ethereum classifica propostas para Hegotá
O artigo sobre as prioridades de Hegotá analisa 62 Ethereum Improvement Proposals, conhecidas como EIPs. Conforme a Fundação, essa é a primeira lista conjunta do Protocol Cluster dedicada a uma única atualização. Cerca de 60 especialistas de nove equipes enviaram 397 avaliações individuais.
Depois disso, os participantes discutiram ao vivo as propostas que provocaram maior divergência. As equipes compararam benefícios técnicos, custos de desenvolvimento e possíveis conflitos antes de definir o escopo. Ainda assim, as classificações não garantem que todas as 62 propostas chegarão à mainnet.
A lista registra a posição dos integrantes do Protocol Cluster durante a análise do possível escopo. Enquanto isso, desenvolvedores de clientes, pesquisadores e a comunidade avaliam quais recursos cabem no cronograma. Em agosto, os debates abrangiam resistência à censura, abstração nativa de contas, privacidade, validadores e preço do gas.
Naquele momento, a EIP-7805 era o único recurso previsto oficialmente para Hegotá. A proposta recebe o nome de Fork Choice-enforced Inclusion Lists, ou FOCIL. Contudo, o escopo pode mudar durante as etapas de desenvolvimento e testes.
FOCIL busca reduzir a censura de transações
A FOCIL permitiria que um comitê de validadores publicasse listas de transações elegíveis. Na prática, os construtores de blocos teriam de incluir essas transações. Caso ocorresse uma omissão indevida, os atestadores poderiam rejeitar o bloco.
Com isso, o modelo reduziria a influência de infraestruturas concentradas sobre a inclusão de transações. As equipes de clientes de execução também deveriam classificar suas propostas preferidas até 10 de setembro. Entre os temas avaliados estavam slots mais curtos, privacidade, crescimento de estado e incentivos aos validadores.
O roteiro público posiciona Hegotá em 2027, depois da atualização Glamsterdam. Atualmente, Glamsterdam está planejada para o quarto trimestre de 2026. No entanto, o calendário permanece sujeito a revisões durante a implementação.
Antes da ativação, as mudanças precisam passar por redes de desenvolvimento e testnets públicas. Além disso, as equipes devem coordenar a compatibilidade entre diferentes clientes. Portanto, a chegada à mainnet depende do resultado dessas etapas técnicas.
Camada 1 recebe prazo para segurança pós-quântica
O segundo artigo do Protocol Cluster estabelece dezembro de 2029 como limite para proteger a camada 1. Fredrik Svantes, coordenador de protocolo da Fundação Ethereum, afirmou que a meta influencia as recomendações para Hegotá. Da mesma forma, a diretriz orienta a avaliação de outros trabalhos no protocolo.
“Estamos mirando agressivamente uma camada 1 resistente a ataques quânticos até, no máximo, dezembro de 2029.”
Fredrik Svantes, no X.
Atualmente, o Ethereum não oferece resistência completa a ataques quânticos. Seus sistemas de contas e validadores usam métodos que futuras máquinas quânticas poderiam comprometer. Entretanto, a Fundação afirma que os equipamentos existentes ainda não possuem capacidade para executar esse tipo de ataque.
A preparação exige mais do que a substituição de um algoritmo criptográfico. Para isso, os pesquisadores dividiram o trabalho entre contas, validadores, consenso, disponibilidade de dados e provas de conhecimento zero. Cada área apresenta exigências próprias de desempenho, compatibilidade e migração.
Contas e validadores entram no plano de migração
Os experimentos relacionados às contas de usuários já começaram. Em junho, o pesquisador Nico afirmou que contratos inteligentes poderiam adicionar proteção pós-quântica por cerca de US$ 0,07 por conta. O método proposto utiliza assinaturas baseadas em SPHINCS.
Mesmo assim, essa solução não tornaria toda a rede resistente a ataques quânticos. Ela protegeria contas específicas por meio de uma lógica incorporada aos contratos inteligentes. Dessa forma, outras partes do protocolo ainda dependeriam de mudanças próprias.
Outro rascunho, apresentado em 24 de agosto, trata da migração dos validadores. A proposta prevê um novo contrato de depósito que aceite chaves públicas de tamanhos variáveis. Também atribui identificadores aos diferentes sistemas de assinatura.
Nesse modelo, o primeiro identificador manteria os depósitos BLS existentes. Já os identificadores seguintes poderiam oferecer suporte a assinaturas pós-quânticas. Porém, o documento não escolhe qual algoritmo substituiria o sistema atual.
A implementação ainda exigiria uma mudança na camada de consenso para verificar as novas assinaturas. Posteriormente, uma chave irreversível de migração poderia interromper novos depósitos BLS. Essa medida dependeria de um período de transição acordado entre os participantes.
Nesse cenário, validadores e provedores de staking precisariam atualizar suas infraestruturas. As equipes responsáveis pelos clientes também teriam de implementar os novos métodos. Assim, a migração envolveria coordenação entre diferentes componentes do Ethereum.
Padrões dos Estados Unidos orientam o cronograma
A abstração nativa de contas pode apoiar a migração ao permitir diferentes métodos de autorização. Entre os recursos previstos estão recuperação social, controles de gastos e pagamento patrocinado de gas. Desse modo, as contas deixariam de depender de um único esquema fixo de assinatura.
Paralelamente, privacidade, escalabilidade e verificação de provas permanecem no programa de desenvolvimento. Em agosto, o roteiro incluiu escalabilidade pós-quântica, rollups nativos e ferramentas de privacidade mais robustas. Também citou a verificação formal assistida por inteligência artificial.
Hegotá, contudo, não concluirá todas essas frentes de trabalho. A atualização representa apenas uma etapa de um planejamento mais amplo. Por outro lado, suas escolhas podem facilitar mudanças posteriores no protocolo.
Nos Estados Unidos, a meta da Fundação se aproxima do cronograma federal de transição pós-quântica. Em agosto de 2024, o NIST aprovou três padrões voltados à proteção contra computadores quânticos. A instituição declarou que eles estavam prontos para uso imediato.
O FIPS 203 estabelece um mecanismo de encapsulamento de chaves. Enquanto o FIPS 204 define assinaturas baseadas em reticulados, o FIPS 205 especifica assinaturas baseadas em hashes. A agência também recomendou identificar sistemas dependentes de algoritmos vulneráveis de chave pública.
O plano do NIST prevê retirar esses algoritmos de seus padrões até 2035. Para sistemas de alto risco, a recomendação é antecipar a migração. Apesar da proximidade entre os cronogramas, a meta do Ethereum não cria obrigação regulatória.
Por isso, detentores de ETH, exchanges, custodiantes e produtos negociados em bolsa não recebem novas exigências legais. Ainda assim, o prazo oferece uma referência para provedores americanos avaliarem seus sistemas. A Fundação também marcou uma sessão de perguntas e respostas para 16 de setembro, às 14h UTC, no Reddit.