Família Trump ganha US$ 2,3 bi em cripto, diz Reuters
A família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou sua atuação em cripto em uma das frentes mais lucrativas associadas ao seu nome. A Reuters apurou que, entre o rali pós-eleição de novembro de 2024 e abril de 2026, empreendimentos ligados a Trump geraram cerca de US$ 2,3 bilhões em renda bruta antes de impostos.
Além disso, o valor superou o desempenho de empresas tradicionais do setor no mesmo período. A Coinbase registrou US$ 2,1 bilhões em renda, enquanto a IREN, maior mineradora de Bitcoin em valor de mercado, obteve US$ 127 milhões. Já o negócio de ETF de Bitcoin da BlackRock, centrado no IBIT, somou estimados US$ 109 milhões. Em contrapartida, a Circle, emissora da stablecoin USDC, teve prejuízo de US$ 14 milhões, e a Galaxy Digital reportou perda de US$ 430 milhões.

Fonte: Reuters.
Segundo a apuração, a Trump Organization não competiu por liquidez, velocidade de negociação ou volume sob gestão. Em vez disso, o modelo priorizou baixo capital próprio em risco. Também concentrou valor por meio de venda de tokens, alocações de fundador e participações societárias. Assim, a estrutura antecipou receitas, enquanto investidores externos assumiram a maior parte do risco.
Ao mesmo tempo, os dados reunidos pela Reuters mostram um efeito quase espelhado no mercado. Os cerca de US$ 2,3 bilhões atribuídos à família presidencial coincidem com aproximadamente US$ 2,25 bilhões em perdas líquidas absorvidas por investidores de varejo e do mercado público.
World Liberty e memecoin TRUMP lideraram a receita
Venda de tokens concentrou os ganhos da família
A maior fatia da receita veio da World Liberty Financial. O projeto começou a vender tokens de governança em outubro de 2024, com Donald Trump e seus filhos como figuras centrais de promoção. Donald Trump Jr. e Eric Trump divulgaram a proposta de um sistema financeiro fora dos bancos tradicionais. Enquanto isso, a empresa se apresentava como uma plataforma de finanças descentralizadas e stablecoin.
Segundo a Reuters, a DT Marks DEFI LLC, entidade corporativa ligada à família, obteve direito contratual a 75% da receita da venda de tokens após despesas. Como resultado, esse arranjo teria rendido cerca de US$ 987 milhões.

Fonte: Reuters.
Esse formato permitiu à família capturar receita na etapa inicial da venda. Dessa forma, a exposição às quedas posteriores do mercado ficou reduzida. Para os compradores do token, porém, o efeito foi oposto. Até o fim de abril, investidores da World Liberty acumulavam cerca de US$ 674 milhões em perdas. Eles sofreram com longos períodos de bloqueio e forte desvalorização do ativo após a listagem.
Um padrão semelhante apareceu com a memecoin TRUMP. Lançado pouco antes da segunda posse de Donald Trump, o token virou um veículo especulativo ligado à marca política do presidente. Ainda assim, não tinha utilidade subjacente claramente definida. Análises de blockchain sobre transferências para corretoras indicaram que o projeto gerou mais de US$ 1,2 bilhão em receita total. Desse montante, a estimativa para a família Trump foi de US$ 616 milhões.
Os compradores de varejo, contudo, ficaram com o prejuízo quando a memecoin recuou da máxima de US$ 75,35. Segundo a reportagem, as perdas dos investidores ultrapassaram US$ 700 milhões. Nesse cenário, parte do público buscou exposição a criptomoedas ligadas ao nome Trump, mesmo sem fundamentos equivalentes ao nível de valorização inicial.
Wall Street ampliou a exposição aos projetos de Trump
Empresas listadas levaram o risco ao mercado acionário
Os ganhos ligados a Trump também avançaram para empresas de capital aberto. Com isso, a operação foi além dos tokens e chegou a contas tradicionais de corretagem. Um dos exemplos mais claros foi a ALT5 Sigma, pequena companhia listada na Nasdaq que passou a se chamar AI Financial Corp.
A empresa levantou US$ 750 milhões com a emissão de novas ações e destinou US$ 717 milhões à compra de tokens da World Liberty. De acordo com a Reuters, mais de US$ 500 milhões dessa aquisição seguiram para a família Trump por meio do mecanismo de divisão de receitas da World Liberty.
Assim, investidores do mercado acionário passaram a ter exposição indireta ao projeto por meio de uma ação listada em bolsa. Depois do fechamento da transação, Eric Trump e Donald Trump Jr. tocaram o sino de abertura da Nasdaq. O gesto converteu a compra de tokens em um evento de Wall Street.
No entanto, a ação desabou depois disso. A Reuters informou que o papel da ALT5 caiu de mais de US$ 9 em agosto de 2025 para US$ 0,75 no fim de abril. Como consequência, os investidores perderam cerca de US$ 675 milhões. A estrutura econômica da família, porém, permaneceu separada dessa queda. O ganho veio da venda de tokens da World Liberty para a ALT5, enquanto os acionistas externos assumiram o colapso das ações.
Outro canal no mercado público foi a American Bitcoin, empresa de mineração e tesouraria de Bitcoin apoiada por Donald Trump Jr. e Eric Trump. A companhia obteve listagem na Nasdaq em 2025. A Reuters afirmou que os irmãos Trump receberam participações na empresa sem custo monetário. Mesmo após a forte queda da ação, a fatia de Eric Trump ainda valia mais de US$ 70 milhões no fim de abril. A participação de Donald Trump Jr. não foi divulgada.
Mais uma vez, as perdas recaíram sobre investidores de fora. As ações da American Bitcoin recuaram de US$ 11 no lançamento, em setembro, para US$ 1,15 no fim de abril. Segundo a reportagem, o movimento apagou mais de US$ 200 milhões em valor para os investidores.
Questões éticas ampliam a pressão política
Lucro privado e regulação entraram no centro do debate
Essas estruturas ampliaram o alcance do negócio de criptomoedas ligado a Trump. Afinal, investidores que talvez nunca comprassem diretamente uma memecoin ou um token de governança puderam entrar na operação por meio de ações comuns. Ainda assim, a divisão financeira permaneceu a mesma. De um lado, entidades associadas à família capturaram valor cedo. De outro, o mercado ficou exposto à queda dos preços.
As movimentações ocorrem em meio a um ambiente regulatório sensível. A atual administração dos Estados Unidos defende ativos digitais, apoia legislação para stablecoins e orienta agências federais a adotar uma supervisão mais leve.
Embora essa mudança de postura tenha beneficiado o setor de forma ampla, o ganho financeiro direto da família presidencial provocou questionamentos éticos. Para críticos e entidades de fiscalização, os mecanismos corporativos podem parecer legais sob a legislação atual. Mesmo assim, eles veem conflito de interesses ao monetizar um setor que o próprio Poder Executivo ajuda a regular com menor rigor.
Nesse sentido, o debate chegou ao Legislativo. Parlamentares democratas, liderados pela senadora Elizabeth Warren, acionaram órgãos como a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) e a Securities and Exchange Commission (SEC). Segundo eles, os interesses financeiros da administração em criptomoedas e mercados de previsões comprometem a formulação de regras federais. Também subordinam a proteção pública ao patrimônio pessoal do presidente.
A Casa Branca rejeita essas acusações e sustenta que seu único objetivo é garantir a liderança dos Estados Unidos na corrida global dos ativos digitais. Representantes da World Liberty também negaram a leitura política do projeto. Eles descreveram o protocolo como uma iniciativa privada de tecnologia financeira.
Por fim, os números citados pela Reuters seguem no centro do debate. A família Trump teria acumulado cerca de US$ 2,3 bilhões em ganhos. Enquanto isso, investidores de varejo e do mercado acionário absorveram aproximadamente US$ 2,25 bilhões em perdas. Os casos envolvem, sobretudo, World Liberty Financial, memecoin TRUMP, ALT5 Sigma e American Bitcoin.