FASB propõe tratar stablecoins como equivalentes de caixa
O Financial Accounting Standards Board (FASB) apresentou uma proposta para permitir que determinadas stablecoins sejam classificadas como equivalentes de caixa. A medida pode facilitar o uso desses instrumentos por empresas, conforme analistas citados no debate. No entanto, a classificação dependerá do atendimento aos critérios previstos na norma.
A proposta ficará aberta a comentários públicos até 19 de novembro. Após essa etapa, o órgão responsável pelas normas contábeis dos Estados Unidos poderá revisar e finalizar as novas diretrizes.
Como o FASB pretende classificar as stablecoins
O FASB estabelece os princípios contábeis geralmente aceitos nos Estados Unidos, conhecidos pela sigla GAAP. A iniciativa surgiu após uma consulta realizada em 2025. Na ocasião, participantes apontaram incertezas sobre o tratamento das stablecoins nas demonstrações financeiras.
Agora, o órgão pretende alterar a definição de equivalentes de caixa para abranger stablecoins e outros instrumentos digitais que cumpram requisitos específicos. A proposta contábil também exige que as empresas informem quais instrumentos consideram equivalentes de caixa. Dessa maneira, investidores poderão identificar com mais clareza a composição dessas posições.
Em geral, equivalentes de caixa são investimentos de baixo risco, alta liquidez e rápida conversão em dinheiro. Portanto, a mudança busca esclarecer quando uma empresa poderá incluir determinados instrumentos digitais nessa categoria. A proposta não concede essa classificação de forma automática a todas as stablecoins.
David Hoffman, da Bankless, avaliou a iniciativa como positiva para empresas do setor. Austin Campbell, fundador da consultoria Zero Knowledge Group, apresentou uma interpretação semelhante sobre o possível impacto da medida.
“Para as stablecoins, ao menos aquelas abrangidas pela GENIUS Act, as empresas poderão mantê-las como dinheiro. É uma decisão sensata do FASB, que ajudará na adoção. Agora, também existe pressão sobre os reguladores bancários para corrigirem Basileia III.”
GENIUS Act influencia avaliação do risco
Campbell se referia à GENIUS Act, que estabelece reservas na proporção de um para um para stablecoins de pagamento emitidas nos Estados Unidos. Com esse respaldo, os instrumentos elegíveis teriam alta liquidez e menor risco de resgate. Assim, poderiam atender aos critérios exigidos para equivalentes de caixa.
Esse enquadramento pode ampliar a presença de stablecoins nos balanços corporativos. Além de padronizar a divulgação, a mudança reduziria dúvidas contábeis enfrentadas por empresas interessadas nesses instrumentos. Ainda assim, a proposta permanece em consulta e poderá sofrer alterações.
Proposta amplia pressão sobre Basileia III
Basileia III reúne regras bancárias internacionais destinadas a preservar a estabilidade do sistema financeiro. Contudo, o conjunto regulatório aplica tratamento rigoroso a stablecoins que não atendem ao teste de risco de resgate. O teste avalia, entre outros fatores, a capacidade de conversão pelo valor de referência.
Stablecoins como USDT e USDC, quando operam em blockchains públicas e sem permissão, podem receber tratamento semelhante ao de Bitcoin e Ethereum. Nesses casos, as regras aplicam uma ponderação de risco de 1.250%. Esse percentual implica uma exigência de capital equivalente ao valor integral da exposição, considerando o índice mínimo de capital.
Em comparação, dinheiro tradicional e títulos públicos podem receber ponderação de risco zero. Já as hipotecas costumam apresentar ponderações próximas de 50%, dependendo das condições aplicáveis. Por isso, representantes do setor consideram o tratamento das stablecoins excessivamente restritivo.
Recentemente, senadores republicanos dos Estados Unidos, liderados por Cynthia Lummis, pediram a revogação dessas exigências de capital. O grupo classificou as regras como punitivas e afirmou que elas criam uma proibição prática contra exposições bancárias a criptomoedas.
Transferências se aproximam de novo recorde
A discussão regulatória ocorre enquanto cresce o uso de stablecoins em transferências. No ano passado, o volume anual dessas operações atingiu o recorde de US$ 10,9 trilhões. Em 2026, o total já alcançou US$ 10,59 trilhões, embora ainda restem quatro meses para o encerramento do ano.
Desse modo, o mercado poderá registrar um novo recorde anual. O avanço reforça o debate sobre regras contábeis e bancárias compatíveis com a expansão desses instrumentos.

Ainda não está claro se a proposta do FASB levará os responsáveis por Basileia III a rever o tratamento de capital. Mesmo assim, analistas acreditam que a iniciativa poderá aumentar a pressão por regras bancárias menos rígidas. A decisão final dependerá da consulta pública e das etapas posteriores do processo regulatório.