FCA avalia ETNs de criptomoedas em fundos com teto de 10%
A Financial Conduct Authority (FCA), reguladora do mercado financeiro do Reino Unido, abriu consulta sobre uma proposta que pode permitir que fundos de varejo autorizados invistam em ETNs de criptomoedas. No entanto, a medida prevê uma trava objetiva: a alocação ficaria limitada a 10% do patrimônio total do fundo.
O documento CP26/17 amplia a discussão sobre exposição a ativos digitais dentro de estruturas reguladas. Assim, o debate deixa de envolver apenas o acesso direto do investidor de varejo a ETNs negociados em bolsa, que a FCA já havia liberado antes. Agora, a consulta trata da inclusão desses instrumentos em carteiras diversificadas, sob gestão de administradores autorizados.
A FCA adota uma abordagem cautelosa. Os ETNs só poderiam entrar nas carteiras de forma limitada e quando a exposição estivesse alinhada ao objetivo declarado do fundo e ao seu perfil de risco. Além disso, a proposta não autoriza a compra direta de Bitcoin, Ether ou outros criptoativos por esses fundos para fins de investimento. As contribuições sobre esse trecho da consulta podem ser enviadas até 13 de julho de 2026.
Limite de 10% preserva exposição secundária
Se a regra avançar, fundos UCITS do Reino Unido e a maior parte dos regimes de varejo não UCITS, conhecidos como NURS, poderão manter ETNs de criptomoedas dentro do limite de 10% dos ativos do fundo. Em outras palavras, esse teto preserva a exposição como componente secundário da estratégia, e não como eixo central da carteira.
Na prática, um fundo multiativos ou balanceado poderia usar ETNs como alocação satélite. Dessa forma, o produto não se transformaria em um fundo essencialmente exposto ao mercado de criptomoedas. Ainda assim, um portfólio convencional de varejo seguiria sujeito às regras de fundos autorizados, com o risco cripto contido pelo formato do ETN e pelo limite percentual.
A FCA também diferencia o tratamento conforme o tipo de fundo. Por um lado, os qualified investor schemes, voltados a clientes profissionais e investidores sofisticados, ficariam fora desse mesmo limite proposto para o varejo. Por outro lado, os long-term asset funds e os NURS que operam como funds of alternative investment funds enfrentariam uma proibição proposta para manter ETNs de criptomoedas.

Fonte: CP26/17 da FCA.
Esse recorte mostra o desenho da proposta. Isto é, a porta pode se abrir por meio das regras de valores mobiliários e de fundos. Porém, a custódia direta das moedas digitais continuaria fora do portfólio do fundo. Assim, o gestor poderia obter exposição ao preço de um criptoativo por meio de um título listado em mercado regulado, sem que o ativo subjacente entre na carteira como posição direta.
Regra amplia acesso indireto ao mercado cripto
A proposta surge após a decisão anterior da FCA de liberar o acesso do varejo a ETNs de criptomoedas negociados em bolsas de investimento reconhecidas no Reino Unido. Essa mudança entrou em vigor em 8 de outubro de 2025. Desde então, consumidores de varejo podem acessar esses produtos em mercados aprovados pela reguladora, sujeitos às regras de promoção financeira e ao Consumer Duty.
Ao mesmo tempo, a FCA manteve esses instrumentos na categoria de produtos de alto risco. Além disso, a reguladora ressaltou que ETNs de criptomoedas destinados ao varejo ficam fora da cobertura do Financial Services Compensation Scheme. A proibição de derivativos de criptoativos para investidores de varejo também segue em vigor.
Para o setor, a mudança marca um novo estágio de integração entre finanças tradicionais e ativos digitais. Ainda assim, a FCA tenta limitar os riscos de forma clara, sobretudo para investidores com menor tolerância à volatilidade.
Bitcoin e Ether seguem fora da carteira direta
Embora a consulta represente mais um passo na normalização da exposição a ativos digitais no sistema financeiro britânico, a FCA deixa claro que a abertura é indireta. O texto não autoriza fundos a manter Bitcoin, Ether ou outros criptoativos diretamente para investimento. Portanto, a exposição continuaria restrita ao invólucro regulado dos ETNs listados.
Segundo a lógica da reguladora, o mercado amadureceu o suficiente para permitir acesso controlado a esse tipo de instrumento. Contudo, esse avanço não remove o rótulo de alto risco. Nesse sentido, a mesma linha de raciocínio chega aos fundos: ETNs de criptomoedas já existem como categoria negociada em bolsa no Reino Unido, mas sua entrada em veículos de investimento de varejo exige uma segunda camada de responsabilidade dos gestores.
Por isso, a FCA afirma que administradores de fundos devem conhecer adequadamente os ativos em que investem. Eles também precisam realizar diligência na seleção dos investimentos e monitorar a aderência dessas posições ao objetivo, à estratégia, aos limites de risco e ao perfil de liquidez do fundo. Ademais, a reguladora destaca que os gestores devem avaliar se os criptoativos e os ETNs continuarão líquidos em cenários de estresse de mercado.
Na prática, o teto de 10% é apenas o controle mais visível. Com efeito, a utilidade real da permissão pode depender de exigências de divulgação, adequação e liquidez. A FCA pretende se apoiar nas regras já existentes para fundos autorizados que detenham ETNs de criptomoedas. Desse modo, os gestores continuam sujeitos a obrigações sobre objetivos do fundo, política de investimento, comunicações de marketing, Consumer Duty e resumos de risco para criptoativos e ETNs.
Gestores terão de reforçar liquidez e divulgação
O regulador acrescenta que gestores de UCITS devem incluir um aviso de volatilidade em destaque quando o fundo tiver, ou puder ter, volatilidade elevada em seu valor patrimonial líquido. Dessa maneira, qualquer administradora que use a nova permissão precisará explicar a exposição na documentação do fundo e nos materiais voltados ao investidor.
Mesmo uma alocação pequena pode ser relevante dentro da estratégia quando deixa de ser verdadeiramente residual. Afinal, ETNs de criptomoedas carregam riscos diferentes daqueles presentes em muitos valores mobiliários transferíveis convencionais. Além disso, a FCA orienta os gestores a avaliar essas posições em conjunto com o restante da carteira, inclusive exposições indiretas a criptomoedas por meio de outros fundos, participação em ativos de maior risco e investimentos correlacionados ao mercado cripto, como empresas com tesouraria ligada a criptoativos.
Adoção prática ainda depende do mercado
Se aprovada, a regra criará a possibilidade regulatória. Porém, a demanda efetiva ainda dependerá das decisões de gestores, plataformas, depositários e distribuidores sobre custo operacional e risco reputacional. Assim, um caminho possível envolve adoção limitada, porém relevante, com gestores usando ETNs como ferramenta de alocação pequena dentro de fundos amplamente diversificados.
Nesse cenário, a mudança marcaria um ajuste concreto no mercado britânico. Afinal, a exposição a criptomoedas deixaria de ser apenas uma decisão individual do investidor de varejo ou um produto voltado a profissionais. Ela passaria a integrar o conjunto de instrumentos que um fundo tradicional poderia incluir sob controles claros de risco.
Por outro lado, o impacto também pode ser mais simbólico do que material. Gestores podem concluir que o limite de 10%, as obrigações de divulgação, as dúvidas sobre liquidez e o risco reputacional superam os benefícios práticos. Nesse caso, a permissão existiria formalmente, mas teria efeito modesto nas alocações reais.
Em suma, a proposta da FCA parece menos uma abertura ampla de portfólios e mais um movimento gradual de normalização da infraestrutura do mercado de criptomoedas. A reguladora aceita que os ETNs de criptomoedas estão suficientemente estabelecidos para entrar em alguns fundos autorizados. Ao mesmo tempo, tenta impedir que essa exposição se torne fonte dominante de risco para o investidor de varejo.
Os próximos sinais virão do comportamento dos alocadores, das atualizações de prospectos e da documentação das plataformas. Até lá, o ponto central da consulta permanece o mesmo: fundos UCITS do Reino Unido e a maioria dos NURS podem ganhar acesso a ETNs de criptomoedas com limite de 10% do patrimônio. Enquanto isso, a posse direta de Bitcoin, Ether e outros criptoativos segue fora da proposta, e o prazo para comentários termina em 13 de julho de 2026.