Fed: regulação empurra crédito para fora dos bancos

A vice-presidente de supervisão do Federal Reserve (Fed), Michelle Bowman, afirmou que a regulação bancária pós-crise de 2008 está gerando um efeito colateral relevante. Em outras palavras, o crédito corporativo está migrando dos bancos tradicionais para instituições menos reguladas, como fundos de crédito privado.

Durante evento no Hoover Institution, em 8 de maio, Bowman comparou o fenômeno a um balão de água. Ou seja, ao pressionar uma parte do sistema, outra se expande. Assim, o endurecimento regulatório acabou deslocando a concessão de crédito para fora do sistema bancário supervisionado.

Segundo a autoridade do Fed, esse movimento não elimina riscos. Pelo contrário, apenas os redistribui para áreas com menor visibilidade regulatória. Nesse sentido, o desafio passa a ser monitorar atividades financeiras que ocorrem fora do alcance direto das autoridades.

Participação dos bancos no crédito encolhe

Os dados apresentados por Bowman indicam uma mudança estrutural no mercado. Em 2015, os bancos respondiam por cerca de 48% do crédito corporativo. No entanto, em 2025, essa participação caiu para 29%.

Assim sendo, a diferença foi absorvida por agentes não bancários. Esses participantes operam com regras mais flexíveis e, por consequência, alteram a dinâmica tradicional do sistema financeiro.

Além disso, uma parcela crescente do crédito circula fora do perímetro regulatório do Fed. Como resultado, a capacidade de monitoramento e resposta a crises pode ser reduzida. Ainda que o sistema pareça mais diversificado, ele também se torna mais opaco.

Risco sistêmico fora do radar

Em contrapartida, o crescimento de credores não bancários levanta preocupações sobre risco sistêmico. Isso ocorre porque essas entidades não enfrentam os mesmos testes de estresse nem exigências de transparência impostas aos bancos.

De fato, enquanto instituições bancárias seguem regras rígidas, fundos privados operam com maior liberdade. Portanto, o risco não desaparece, mas muda de localização. Esse ponto, segundo Bowman, exige atenção dos reguladores.

Basileia III pressiona crédito bancário

Um dos principais fatores por trás dessa transformação é o arcabouço de Basileia III. Criado após a crise financeira de 2008, o conjunto de regras busca fortalecer a resiliência bancária.

No entanto, conforme destacou Bowman, essas normas elevam o custo do crédito para os bancos. Isso acontece porque cada empréstimo exige mais capital como garantia. Dessa forma, a rentabilidade das operações diminui.

Além disso, existe um incentivo indireto relevante. Bancos enfrentam menor custo regulatório ao emprestar para fundos de crédito privado do que ao financiar empresas diretamente. Em outras palavras, cria-se uma distorção no sistema.

Distorções no modelo regulatório

Essa distorção ocorre porque ativos com riscos semelhantes recebem tratamentos diferentes. Assim, operações economicamente equivalentes acabam sendo reguladas de forma desigual.

Consequentemente, os bancos tendem a reduzir sua exposição direta ao crédito corporativo. Ao mesmo tempo, fundos privados ampliam sua participação. Esse movimento, embora previsível, não foi intencional.

Esse cenário também dialoga com transformações mais amplas no mercado cripto, especialmente diante da crescente interconexão entre diferentes segmentos financeiros.

Fed propõe ajustes nas regras de capital

Diante desse cenário, Bowman defende uma recalibração das regras de Basileia III. Segundo ela, os chamados pesos de risco precisam refletir melhor a realidade econômica.

Ou seja, empréstimos com riscos semelhantes deveriam receber tratamento regulatório equivalente. Dessa maneira, seria possível reduzir distorções e aumentar a competitividade do crédito bancário.

Além disso, a proposta não busca enfraquecer a regulação. Pelo contrário, o objetivo é torná-la mais eficiente e alinhada ao risco real das operações.

Equilíbrio entre segurança e eficiência

Durante o evento, que abordou a independência dos bancos centrais, Bowman enfatizou que o problema está no desenho regulatório. Portanto, trata-se de um ajuste técnico, e não de uma falha de mercado.

Segundo ela, o Fed possui ferramentas e mandato para corrigir essas distorções. Assim, seria possível equilibrar segurança financeira e eficiência na concessão de crédito.

Como resultado, os dados apresentados reforçam a magnitude da mudança em curso. A queda da participação dos bancos e a ascensão de credores não bancários indicam uma transformação estrutural no sistema financeiro.