Fed: Robert Kaplan, do Goldman Sachs, apoia pausa
Robert Kaplan, vice-presidente do Goldman Sachs, apoiou a decisão do Fed de manter os juros entre 3,50% e 3,75% em julho. Para ele, os dirigentes precisavam de mais tempo para avaliar a inflação antes de agir.
Kaplan, ex-presidente do Federal Reserve Bank de Dallas, defendeu que os novos dados orientem a decisão do banco central em setembro. A próxima reunião ocorrerá nos dias 15 e 16 daquele mês.
Decisão do Fed teve três votos divergentes
Na reunião de 28 e 29 de julho, o Comitê Federal de Mercado Aberto manteve a taxa dos fed funds entre 3,50% e 3,75%. A decisão recebeu nove votos favoráveis e três contrários.
Beth Hammack, do Fed de Cleveland, Neel Kashkari, do Fed de Minneapolis, e Lorie Logan, do Fed de Dallas, defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual.
Na avaliação de Kaplan, as autoridades devem usar todo o período até setembro para examinar os próximos relatórios econômicos. Desse modo, poderão evitar uma posição rígida semanas antes da decisão.
“Se eu observar uma melhora significativa, talvez esteja disposto a permanecer onde estamos.”
Kaplan também afirmou que pretende aproveitar “cada momento antes de setembro” para decidir sem “rigidez ou noções preconcebidas”.
Em 12 de agosto, o Bureau of Labor Statistics informou que os preços ao consumidor subiram 0,1% em julho. Na comparação anual, a inflação alcançou 3,4%, ante 3,5% em junho.
Enquanto isso, a inflação subjacente, que exclui alimentos e energia, avançou 0,2% no mês e 2,5% em um ano. A taxa anual havia atingido 2,6% em junho.
Já o índice de energia permaneceu 14,7% acima do nível registrado um ano antes. Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, classificou a inflação como o principal problema da economia norte-americana.
Goolsbee descreveu o mercado de trabalho como estável, mas fraco. No entanto, ele não vota no FOMC em 2026.
IA, tarifas e petróleo pressionam a inflação
Embora tenha apoiado a pausa em julho, Kaplan apontou fatores que podem atrasar o retorno da inflação à meta de 2% do Fed.
O investimento ligado à inteligência artificial amplia a demanda por energia, materiais de construção, data centers e profissionais especializados. Portanto, essa expansão pode elevar custos antes de gerar ganhos de produtividade.
Kaplan também citou tarifas, restrições na oferta de mão de obra e preços elevados do petróleo. As tarifas podem encarecer produtos importados e insumos usados pelas empresas.
Por sua vez, a escassez de trabalhadores pode elevar salários ou atrasar expansões planejadas. O petróleo afeta transporte, manufatura e despesas das famílias.
A declaração de julho do Fed indicou que choques de oferta elevaram preços em setores como energia. Em contrapartida, Kaplan considera que a adoção da IA poderá reduzir a inflação no futuro.
Na visão do executivo, empresas poderão produzir mais com a mesma quantidade de trabalho e capital. Assim, os ganhos de produtividade ajudariam a reduzir despesas operacionais.
Dirigentes divergem sobre uma nova alta
Tom Barkin, presidente do Fed de Richmond, também abordou o tema em 13 de agosto. Ele afirmou que tarifas, petróleo e demanda ligada à IA contribuem para a inflação.
Para Barkin, ainda não está claro se o Fed precisará elevar novamente os juros para levar a inflação a 2%.
Hammack adotou uma posição mais firme. Em discurso realizado no mesmo dia, ela defendeu uma alta rápida dos juros, pois a inflação permanece acima da meta há mais de cinco anos.
A dirigente alertou que empréstimos e investimentos contínuos das empresas podem ampliar a pressão sobre os preços. Nesse contexto, as divergências reforçam a defesa de Kaplan por flexibilidade.
Kaplan espera explicação de Warsh em Jackson Hole
Kaplan pediu que Kevin Warsh, presidente do Fed, explique em Jackson Hole por que o banco central não elevou os juros em julho.
Segundo Kaplan, o discurso deve apresentar uma explicação breve da decisão. Ele considera insuficiente tratar apenas da filosofia que orienta a política monetária.
Warsh reduziu o uso de orientações futuras desde que assumiu a presidência em 2026. Como resultado, investidores passaram a depender mais dos dados sobre emprego, inflação e crescimento econômico.
A declaração de julho não indicou claramente se os dirigentes pretendem alterar os juros em setembro. O Federal Reserve Bank de Kansas City realizará o simpósio de Jackson Hole entre 27 e 29 de agosto.
O tema de 2026 será “Inovação financeira: implicações para pagamentos e política”. Antes da decisão de julho, os mercados futuros indicavam cerca de 33% de probabilidade de uma alta de 0,25 ponto.
Após os dados mais recentes de inflação, operadores de mercados de previsões atribuíram 67% de probabilidade a outra pausa em setembro.
O Bitcoin subiu de aproximadamente US$ 63.400 para US$ 64.100 após a divulgação do índice de preços ao consumidor. Contudo, o ativo perdeu força e recuou para perto de US$ 63.300.
Juros mais altos podem reduzir a demanda por Bitcoin, pois aumentam os retornos oferecidos por dinheiro em caixa e títulos públicos. Além disso, as expectativas afetam o dólar, o crédito e a liquidez disponível.
Rendimentos longos do Tesouro preocupam Kaplan
Kaplan afirmou que os rendimentos dos títulos de longo prazo do Tesouro dos Estados Unidos o preocupam mais que a taxa dos fed funds.
O Fed define diretamente uma faixa-alvo para os juros de curto prazo. Entretanto, demanda, inflação esperada e necessidades de financiamento do governo influenciam os rendimentos longos.
Para Kaplan, a alta desses rendimentos nos Estados Unidos e em outras grandes economias revela um desequilíbrio estrutural. A oferta de dívida estaria crescendo mais que a demanda disponível para absorvê-la.
Ele atribuiu a pressão principalmente aos déficits fiscais persistentes, e não às decisões do Fed sobre os juros de curto prazo. Déficits maiores exigem que o Tesouro venda mais títulos para financiar os gastos públicos.
Caso os compradores exijam retornos maiores, os rendimentos sobem mesmo sem uma mudança na taxa do Fed. Esse movimento encarece hipotecas, crédito corporativo e outras formas de financiamento.
Em 13 de agosto, o Tesouro vendeu US$ 25 bilhões em títulos de 30 anos com rendimento de 5,22%. A taxa havia alcançado 5,06% no leilão anterior, realizado em julho.
Com isso, o governo registrou o maior custo de captação em uma venda de títulos de 30 anos desde 2001.