Fidelity: IA pressiona mineração de Bitcoin
Os mercados de ativos digitais atravessam um 2026 mais turbulento, com preços pressionados. Ainda assim, a infraestrutura do setor continua avançando de forma menos visível. Esse é o diagnóstico da Fidelity Digital Assets em sua atualização de meio de ano, que descreve o período como uma fase de reestruturação estrutural, marcada por progresso regulatório, expansão da infraestrutura e testes institucionais.
Segundo a Fidelity Digital Assets, o Bitcoin acumula queda de cerca de 13% no ano. Ao mesmo tempo, esse movimento reflete um processo de desalavancagem provocado por liquidações, inflação persistente e choques geopolíticos. Esses fatores voltaram a reforçar expectativas de aperto monetário. Ainda assim, o relatório afirma que o ativo superou diversos referenciais tradicionais em momentos recentes de agravamento de conflitos globais.
Dessa forma, a gestora identifica uma renovação da demanda por ativos líquidos e politicamente neutros em períodos de estresse. Além disso, a procura por exposição ao mercado de criptomoedas por canais tradicionais segue resiliente. De acordo com o relatório, as opções sobre produtos negociados em bolsa lastreados em Bitcoin à vista, lançadas apenas no fim de 2024, já registram interesse em aberto comparável ao das opções liquidadas em Bitcoin nativo.
Preço cai, mas demanda institucional resiste
A Fidelity Digital Assets também destaca o avanço da tokenização. Conforme a empresa, grandes instituições financeiras lançaram produtos baseados em blockchain. Ao mesmo tempo, bolsas relevantes adquiriram participações em plataformas de ativos digitais. Esse movimento ganhou apoio de orientações conjuntas da SEC e da CFTC, bem como de propostas legislativas como a CLARITY Act, voltadas à formalização de uma taxonomia para ativos digitais.
Apesar da pressão sobre os preços, o relatório indica que a construção da infraestrutura do setor não parou. Em outras palavras, a adoção institucional continua avançando, embora o desempenho de mercado permaneça mais fraco em 2026. Assim, o contraste entre preço e desenvolvimento estrutural aparece como um dos principais temas do ano.
IA disputa energia e capacidade com mineradores
Um dos pontos mais relevantes apontados pela Fidelity Digital Assets em 2026 é a interação entre inteligência artificial e a capacidade de mineração do Bitcoin. De acordo com a empresa, a média móvel de 30 dias da taxa de hash e a dificuldade de mineração recuaram aproximadamente entre 8% e 9% em relação aos picos anteriores, antes de uma recuperação modesta.
Na leitura da gestora, esse movimento sugere que parte dos mineradores pode estar redirecionando energia e infraestrutura para cargas de trabalho de data centers voltadas à inteligência artificial. Isso ocorre porque essas operações oferecem, no momento, margens potencialmente mais altas. Por conseguinte, o crescimento da capacidade de processamento da rede perdeu força em comparação com ciclos anteriores.
No plano on-chain, a Fidelity Digital Assets relata que a ampliação da quantidade de dados permitida no campo OP_RETURN do Bitcoin não provocou o temido inchaço da blockchain. Segundo o relatório, o tamanho dos blocos e o nível de utilização seguem dentro das faixas projetadas. Portanto, os dados contrariam receios de que a mudança pudesse degradar de forma significativa a eficiência da rede.
Segurança de longo prazo ganha peso
Diversidade de nós preocupa mais que tamanho da blockchain
Com isso, a atenção do mercado passou a se concentrar em outro debate: a diversidade de nós e a segurança de longo prazo do Bitcoin. A Fidelity aponta que o Bitcoin Core ainda responde por cerca de 77% dos nós, enquanto o Bitcoin Knots representa aproximadamente 17%. Na avaliação da empresa, essa concentração cria um risco não nulo de fragmentação em determinadas circunstâncias.
Além disso, essa discussão ganha peso justamente em um momento no qual avança o trabalho sobre propostas como saídas Pay-to-Merkle-Root resistentes à computação quântica. Nesse sentido, a discussão técnica deixa de ser apenas teórica e passa a integrar o debate mais amplo sobre resiliência futura da rede.
Bitcoin e ouro disputam proteção macro
Fora do mercado de criptomoedas, o ouro voltou a se afirmar como proteção macroeconômica preferida em 2026. De acordo com a Fidelity Digital Assets, o metal chegou a subir quase 30% no início do ano. Depois, devolveu parte dos ganhos e estabilizou-se em alta de cerca de 3% a 4% no acumulado do ano.
O relatório atribui essa força à continuidade das compras por bancos centrais. Além disso, cita sinais de que o ouro vem ganhando espaço em algumas composições de reservas internacionais, superando o dólar dos Estados Unidos e os títulos do Tesouro dos EUA em determinados casos. Ainda assim, a Fidelity também menciona movimentos pontuais, mas simbolicamente relevantes, como a aceitação de BTC pelo Irã em certos pagamentos ligados ao tráfego no Estreito de Ormuz.
Em suma, os dados descritos pela Fidelity mostram um ano em que o preço do Bitcoin segue pressionado, mas a estrutura do setor continua evoluindo. O relatório reúne a queda de cerca de 13% do ativo em 2026, o recuo de 8% a 9% na taxa de hash e na dificuldade de mineração, a predominância de 77% do Bitcoin Core contra 17% do Bitcoin Knots entre os nós e o avanço de iniciativas institucionais, regulatórias e técnicas.
Como resultado, a leitura da Fidelity Digital Assets sugere que 2026 representa menos uma retração definitiva e mais uma fase de reorganização da infraestrutura do Bitcoin. Mesmo com preços mais fracos, a disputa entre mineração e inteligência artificial, o avanço regulatório e o debate sobre segurança indicam que a próxima etapa do mercado dependerá de fatores estruturais, e não apenas do desempenho de curto prazo.