FMI cobra regras para fundos soberanos com Bitcoin
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou nesta terça-feira que os fundos soberanos de investimento administram mais de US$ 16 trilhões e ganharam relevância sistêmica. No entanto, a estrutura legal desses veículos não avançou no mesmo ritmo. Segundo o organismo, esses fundos cresceram de cerca de US$ 3 trilhões em 2008 para o patamar atual. Assim, passaram a figurar entre os agentes mais influentes das finanças globais.
Na avaliação do FMI, a mudança não foi apenas quantitativa. Além disso, fundos criados para suavizar orçamentos públicos e administrar poupança intergeracional passaram a financiar infraestrutura, executar políticas industriais e sociais e ampliar presença em capital privado, imóveis e tecnologia. Em um ambiente de fragmentação geopolítica, muitos países também passaram a tratar esses instrumentos como peça central de sua autossuficiência econômica.
Os fundos soberanos agora administram mais de US$ 16 trilhões e assumem papéis maiores nas economias ao redor do mundo. À medida que seus mandatos se expandem, estruturas legais claras se tornam essenciais para a prestação de contas, a boa governança e a estabilidade financeira.
FMI no X
Fundos soberanos ampliam presença no mercado
Embora o relatório do Fundo Monetário Internacional não tenha foco direto no mercado de criptomoedas, o movimento recente de alguns desses fundos mostra até onde chegou a diversificação de portfólio. De fato, parte desse capital institucional já ganhou exposição ao Bitcoin, ainda que de forma indireta e por meio de veículos regulados.
O caso mais visível é o da Mubadala Investment Company, de Abu Dabi, que administra mais de US$ 330 bilhões. O fundo entrou no ETF de Bitcoin da BlackRock no fim de 2024 e aumentou a posição em quase todos os trimestres desde então. Em 31 de março, declarou à Securities and Exchange Commission dos Estados Unidos 14,7 milhões de cotas, avaliadas em cerca de US$ 566 milhões.
Somadas às posições da entidade irmã Al Warda, as exposições de Abu Dabi teriam superado US$ 1 bilhão no fim de 2025. Enquanto isso, o fundo soberano de Luxemburgo se tornou o primeiro da zona do euro a destinar 1% de sua carteira a ETFs de Bitcoin. Já o fundo norueguês mantém exposição indireta por meio de ações ligadas ao setor.
O padrão observado chama atenção. Nenhum desses fundos compra Bitcoin diretamente. Em vez disso, a preferência recai sobre instrumentos listados, regulados e negociados em mercado. Isso ocorre principalmente por causa dos desafios de custódia e da ausência de marcos normativos mais claros. Nesse sentido, a preocupação regulatória destacada pelo FMI para os fundos soberanos também aparece quando essas instituições avaliam um ativo novo como o Bitcoin.
Por que o FMI cobra regras mais claras
No estudo assinado por Yan Liu, o FMI lista vulnerabilidades específicas. Em primeiro lugar, mandatos vagos, mal definidos ou sobrepostos enfraquecem a prestação de contas e podem prejudicar o desempenho desses veículos. Para o organismo, esse ponto fica ainda mais sensível à medida que os fundos acumulam funções econômicas, fiscais e estratégicas mais amplas.
O Fundo também afirma que estruturas frágeis de governança abrem espaço para desvios e má alocação de recursos, como já ocorreu em casos de grande repercussão internacional. Além disso, quando um fundo soberano atua como uma autoridade fiscal paralela e também compra títulos públicos sem base jurídica bem delimitada, ele pode distorcer o orçamento estatal e ocultar o real nível de endividamento do país.
O organismo chama esse risco de “tesourarias na sombra”. Em outras palavras, trata-se de fundos que movimentam recursos públicos sem controles institucionais adequados e sem supervisão legislativa efetiva. Dessa forma, eles ficam mais expostos à influência política.
Outro ponto de atenção está nas operações transfronteiriças. Quando vários fundos soberanos se associam em um mesmo projeto, a exposição ao mesmo risco pode se concentrar. Como resultado, um problema em um dos participantes pode se espalhar para os demais. Além disso, se houver deterioração nas relações entre os países envolvidos, a proteção dos ativos ou a saída do investimento pode se tornar mais difícil.
Bitcoin entra nas carteiras por vias reguladas
Como resposta, o FMI defende soluções ancoradas no direito. A recomendação inclui separar legalmente os mandatos de cada fundo, adotar estruturas compatíveis com o objetivo de cada veículo e assegurar autonomia operacional prevista em lei. O organismo cita a Nigéria como exemplo, por manter juridicamente separados seus fundos de estabilização, de gerações futuras e de infraestrutura.
O relatório também sugere revisar os Princípios de Santiago, guia internacional criado em 2008 por 26 fundos soberanos com apoio do próprio FMI. Segundo o organismo, esse conjunto de diretrizes foi desenhado para investidores majoritariamente passivos e indexados. Entretanto, hoje muitos desses fundos fazem investimento direto, participações não listadas e operações típicas de capital privado.
Esse contexto ajuda a explicar por que o ingresso em Bitcoin por parte de fundos soberanos ainda ocorre com cautela e por vias reguladas. Afinal, para o capital institucional mais conservador do mundo, a discussão central não começa pelo preço do ativo. Antes de tudo, passa pela segurança jurídica, pela governança e pela previsibilidade das regras.
Com mais de US$ 16 trilhões sob gestão, os fundos soberanos já ocupam um papel central nas finanças globais. Ao mesmo tempo, a exposição da Mubadala ao ETF de Bitcoin da BlackRock, com 14,7 milhões de cotas avaliadas em cerca de US$ 566 milhões em 31 de março, mostra que o ativo começa a entrar nas carteiras de grandes investidores públicos. Por isso, o debate agora combina expansão institucional, governança e regras mais claras para ativos digitais.