Franklin Templeton propõe ETFs com Bitcoin via dividendos
A Franklin Templeton, gestora com US$ 1,78 trilhão em ativos, apresentou à Securities and Exchange Commission (SEC) dos Estados Unidos uma proposta para lançar dois ETFs que combinam ações americanas com exposição gradual ao Bitcoin. Assim, a estratégia redirecionaria automaticamente os dividendos pagos pelas empresas da carteira para instrumentos ligados à maior criptomoeda do mercado.
A gestora protocolou o pedido em 18 de junho. A proposta prevê os fundos Franklin US Equity Bitcoin DRIP Index ETF e Franklin US Innovation Bitcoin DRIP Index ETF. Em outras palavras, os produtos uniriam o reinvestimento tradicional de dividendos a uma alocação programada em ativos vinculados ao Bitcoin, sem exigir compra direta inicial da criptomoeda.
Além disso, o movimento mostra como grandes instituições financeiras tentam ir além dos ETFs spot de Bitcoin. Ao mesmo tempo, a indústria busca estruturas mais sofisticadas para investidores acostumados com carteiras de ações, renda e estratégias automáticas de alocação.

Dados: SoSoValue, Franklin Templeton Bitcoin Fund.
Dividendos financiariam exposição gradual
A Franklin Templeton já atua nesse segmento por meio do Franklin Bitcoin ETF, negociado sob o código EZBC. De acordo com os dados citados no documento, o fundo acumula cerca de US$ 330 milhões em entradas líquidas e administra aproximadamente US$ 360 milhões em ativos.
A gestora estruturou os dois novos ETFs como fundos passivos baseados em índices da VettaFi. O Franklin US Equity Bitcoin DRIP Index ETF buscaria replicar o VettaFi US Large-Cap 500 Bitcoin DRIP Index. Já o Franklin US Innovation Bitcoin DRIP Index ETF seguiria o VettaFi US Innovation 100 Bitcoin DRIP Index, focado nas 100 maiores companhias não financeiras listadas na Nasdaq Stock Market.
Segundo o prospecto, cada fundo deve investir pelo menos 80% dos ativos líquidos nos papéis de seu índice e em instrumentos relacionados ao Bitcoin. Esses instrumentos corresponderiam à parcela cripto de cada benchmark. No lançamento, a proposta prevê uma alocação de 95% em ações e 5% em Bitcoin.
O diferencial está no mecanismo de reinvestimento. Quando as ações distribuírem dividendos ordinários ou extraordinários, os fundos direcionariam esses valores automaticamente para ativos relacionados ao Bitcoin. A compra ocorreria na abertura do mercado no dia seguinte à data ex-dividendo. Dessa forma, a exposição à criptomoeda cresceria aos poucos a partir da renda gerada pelas empresas americanas.
Além disso, a proposta impõe travas para limitar o peso do Bitcoin no portfólio. Nas revisões trimestrais, se a participação da criptomoeda ultrapassar 5%, o fundo reduzirá essa fatia para 4,5%. Contudo, se ela permanecer em 5% ou menos, não haverá ajuste para baixo.
Há ainda um limite emergencial. Se uma forte alta elevar a exposição ao Bitcoin para mais de 20% entre as revisões programadas, a alocação cairá para 4,5% até o fechamento do segundo dia útil após o rompimento do teto. Da mesma forma, a parcela em ações seguirá regras de concentração. Nenhum papel poderá exceder 20% do índice, e o peso combinado das empresas acima de 5% não poderá superar 40%.
Estrutura amplia as rotas de acesso ao ativo
O documento enviado à SEC dá flexibilidade para a gestora definir como os ETFs obterão exposição ao Bitcoin. Os fundos poderão investir em produtos negociados em bolsa lastreados em Bitcoin, inclusive veículos patrocinados por afiliadas da própria Franklin. Também poderão usar outras companhias de investimento com exposição à criptomoeda, contratos futuros, opções, recibos depositários que representem participações em Bitcoin e investimentos mantidos por uma subsidiária integral nas Ilhas Cayman.
Essa subsidiária ocupa papel importante na arquitetura tributária da proposta. Cada fundo poderá alocar até 25% dos ativos totais nessa entidade sediada nas Ilhas Cayman. O objetivo é ajudar receitas ou ganhos de determinados investimentos ligados ao Bitcoin a se enquadrarem como renda adequada sob o código tributário dos Estados Unidos.
Manter o status de companhia de investimento regulamentada é essencial para a eficiência tributária esperada de um ETF. Nesse sentido, a Franklin Templeton afirmou que pretende limitar os investimentos via subsidiária para permanecer dentro das exigências de diversificação ao fim de cada trimestre.
Ainda assim, o prospecto alerta para riscos regulatórios e fiscais. Mudanças na orientação da Receita dos Estados Unidos, alterações legislativas no Congresso ou revisões no tratamento tributário podem afetar a estratégia. Em alguns cenários, o conselho do fundo poderá aprovar mudanças de abordagem ou até a liquidação do produto.
Os responsáveis pela gestão seriam a Franklin Advisory Services LLC, como gestora de investimentos, e a Franklin Templeton Institutional LLC, como subconsultora. Os gestores de portfólio listados no documento são Dina Ting, Hailey Harris, Joe Diederich e Basit Amin.
Riscos do Bitcoin continuam dentro do ETF
A Franklin Templeton deixa claro que colocar o Bitcoin dentro de um ETF de ações não elimina os riscos característicos da criptomoeda. De fato, o prospecto descreve o ativo como um mercado com histórico mais limitado do que ações, títulos e moedas tradicionais. Além disso, classifica o Bitcoin como altamente especulativo.
Segundo o texto, o preço do Bitcoin pode cair de forma acentuada por mudanças regulatórias, perda de confiança, falhas tecnológicas, interrupções de rede ou concorrência com outros ativos digitais. A gestora também destaca preocupações ligadas à estrutura do mercado, já que muitas plataformas de negociação de ativos digitais operam com menos supervisão do que bolsas tradicionais.
Como resultado, aumentam os riscos de manipulação, fraude, roubo e proteção limitada ao investidor. Outro ponto citado envolve a concentração de propriedade. Uma parcela relevante do Bitcoin permanece nas mãos de poucos grandes detentores, conhecidos como baleias. Portanto, grandes vendas ou transferências podem gerar impacto desproporcional nos preços.
A custódia também aparece como fator de risco. Afinal, ativos digitais dependem de chaves privadas e sistemas especializados de segurança. Assim, ficam sujeitos a invasões, malware, falhas operacionais e perdas. O prospecto acrescenta que os instrumentos usados para seguir o Bitcoin também trazem riscos extras.
ETPs spot de Bitcoin não são registrados sob a Lei de Companhias de Investimento de 1940 dos Estados Unidos. Portanto, esses produtos não oferecem as mesmas proteções de fundos tradicionais registrados. Já futuros, opções e swaps podem introduzir alavancagem, risco de contraparte, descolamento de performance e até perdas superiores ao investimento inicial.
Mercado de ETFs entra em nova fase de competição
O pedido da Franklin Templeton chega quando o mercado de ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos entra em uma nova etapa. Depois de resolver o acesso regulado à criptomoeda com os produtos spot lançados em 2024, as gestoras passaram a competir pela forma como o ativo será encaixado em carteiras tradicionais.
Dados da SoSoValue mostram que os ETFs spot de Bitcoin dos Estados Unidos já acumulam US$ 53,40 bilhões em entradas líquidas desde o lançamento. Ao todo, esses produtos somam US$ 78,32 bilhões em ativos.

Dados: SoSoValue, fluxos e ativos dos ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o quadro recente perdeu força. No recorte citado, esses fundos registraram cerca de US$ 6 bilhões em saídas nas seis semanas anteriores, em um período contínuo de resgates. Esse contraste entre escala acumulada e pressão recente ajuda a explicar por que as emissoras tentam criar novos formatos além da exposição spot simples.
Um exemplo citado é o iShares Bitcoin Premium Income ETF, da BlackRock, negociado sob o código BITA. O fundo de gestão ativa busca oferecer exposição ao Bitcoin e gerar renda mensal por meio da venda de opções de compra sobre o IBIT, ETF spot de Bitcoin da própria BlackRock, em aproximadamente 25% a 35% da carteira.
Por outro lado, a proposta da Franklin Templeton segue caminho diferente. A estratégia combina ações americanas, reinvestimento automático de dividendos, alocação inicial de 5% em Bitcoin, rebalanceamentos trimestrais para 4,5% quando necessário e um gatilho de emergência caso a exposição à criptomoeda ultrapasse 20% entre as revisões.
A Franklin Templeton ainda não informou os códigos de negociação dos novos fundos, nem as bolsas de listagem, taxas ou razão de despesas. Ainda assim, o pedido à SEC indica que a disputa entre emissores deixou de ser apenas sobre acesso. Agora, acima de tudo, ela se concentra no desenho do produto.