FX invisível pode mudar pagamentos na América Latina

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Uma empresa argentina precisa pagar um fornecedor no Brasil. Hoje, a operação pode exigir a troca de pesos por dólares e, depois, a conversão para reais. Cada etapa também pode incluir custos antes que o dinheiro chegue ao destinatário.

Uma alternativa em discussão simplificaria essa experiência. A empresa ordenaria o pagamento em pesos, enquanto o fornecedor receberia reais. A conversão, a liquidez e a liquidação continuariam nos bastidores, mas deixariam de aparecer para o usuário.

Conversão cambial pode sair da tela do usuário

O mercado cambial, conhecido pela sigla FX, permite a troca entre diferentes moedas. Durante décadas, os usuários acompanharam diretamente esse processo. Eles compravam dólares, observavam a cotação e pagavam a diferença entre os preços de compra e venda.

Com o avanço das stablecoins locais, essa etapa pode ficar menos perceptível. Mecanismos automáticos em blockchain poderiam converter reais e pesos sem apresentar o FX como uma fase separada. Em termos práticos, o usuário apenas informaria quanto deseja enviar e qual valor o destinatário deve receber.

A mudança, contudo, afetaria somente a experiência visível. A operação cambial continuaria ocorrendo na infraestrutura responsável pelo pagamento. Nas transações de grande porte, o FX permaneceria como uma atividade sofisticada e relevante.

Real e peso podem evitar a rota pelo dólar

Atualmente, muitas conversões regionais usam o dólar como ponte. Uma operação entre duas moedas latino-americanas pode passar primeiro pela divisa norte-americana. As stablecoins vinculadas ao dólar ainda concentram muito mais liquidez do que as alternativas locais.

A infraestrutura em blockchain abre outra possibilidade. Pesos e reais representados digitalmente poderiam formar pares diretos, desde que o mercado ofereça profundidade suficiente. Entretanto, essa alternativa não indica o fim do domínio do dólar nas transações internacionais.

Mesmo assim, algumas rotas regionais poderiam dispensar a passagem pela divisa norte-americana. Nesse contexto, o usuário não precisaria acompanhar cada conversão. A plataforma escolheria o caminho disponível para concluir o pagamento.

Três fatores diferentes sustentam essa discussão. Primeiro, a infraestrutura precisa representar e conectar as moedas. Depois, os participantes devem fornecer liquidez suficiente para as trocas. Já a adoção depende da demanda de empresas e consumidores.

Liquidez define a eficiência das rotas cambiais

A existência de uma stablecoin em pesos ou reais não garante um mercado líquido. Um fundo de liquidez reúne o capital necessário para executar conversões sem causar variações relevantes de preço. Porém, esse capital não surge apenas com a criação de uma nova tecnologia.

Participantes dos debates sobre pagamentos internacionais alertaram para a fragmentação da liquidez. Eles também rejeitaram a ideia de que todos os pares locais terão profundidade suficiente. Julián Colombo resumiu o problema ao afirmar que não existe dinheiro infinito para sustentar bons preços em dezenas de stablecoins simultaneamente.

Como consequência, os pares mais eficientes tendem a concentrar o capital disponível. Os demais podem registrar menor volume e custos superiores. Assim, a questão decisiva não envolve apenas a representação digital de uma moeda, mas também sua conversão eficiente.

A profundidade do mercado também influencia a experiência do usuário. Uma rota com pouca liquidez pode apresentar maior diferença entre os preços de compra e venda. Ao mesmo tempo, ordens maiores podem causar oscilações mais intensas.

Infraestrutura sofisticada sustenta pagamentos simples

O modelo apresenta uma aparente contradição. Quanto menos o usuário precisar pensar no câmbio, mais sofisticada deverá ser a infraestrutura do pagamento. Ela terá de integrar liquidez, formadores de mercado, precificação, liquidação, conformidade regulatória e gestão de risco.

Retirar o FX da tela, portanto, não reduz sua importância. Pelo contrário, a conversão passa a ocupar uma função ainda mais crítica nos bastidores. O sistema precisa encontrar uma rota eficiente e concluir a transferência sem expor toda a complexidade ao cliente.

Em países com controles cambiais ou mercados fragmentados, stablecoins locais também poderiam contribuir para a descoberta de preços. Esse processo mostra quanto uma moeda vale em relação a outra. Dessa forma, uma tecnologia discreta para o consumidor pode ampliar a transparência para participantes do mercado.

As operações com cartões já seguem uma lógica semelhante. O cliente escolhe uma forma de pagamento, enquanto a infraestrutura converte e liquida os valores. Na prática, a complexidade não desaparece, mas muda de lugar.

A América Latina oferece condições relevantes para testar esse modelo. A região reúne várias moedas, comércio regional, uso expressivo de dólares digitais e diferentes níveis de dolarização. A Argentina apresenta dolarização elevada, enquanto o Brasil registra uma dependência menor da divisa norte-americana.

O futuro do FX pode manter o mesmo número de conversões, mas ocultar suas etapas do usuário. Para isso, empresas e mercados ainda precisarão desenvolver liquidez, infraestrutura e mecanismos eficientes de precificação. Sem esses elementos, os pares diretos entre moedas locais terão dificuldade para competir com as rotas baseadas no dólar.

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