Galaxy destina até US$ 5 mi à defesa quântica do Bitcoin
A Galaxy Digital anunciou em 21 de julho de 2026 um compromisso de até US$ 5 milhões para ajudar o Bitcoin a se preparar para a era quântica. A iniciativa pretende financiar desenvolvedores à medida que equipes atinjam metas técnicas. Além disso, deve sustentar pesquisas e um conselho consultivo dedicado ao tema.
Embora computadores quânticos ainda não quebrem a segurança atual das assinaturas do Bitcoin, a proposta busca acelerar a migração antes que o risco deixe de ser teórico. Segundo a empresa, a coordenação necessária para uma mudança desse porte pode consumir anos entre debate, testes e implementação.
Rede precisa antecipar a transição pós-quântica
A iniciativa mira várias frentes da transição. Entre elas, estão a revisão de propostas de transações resistentes à computação quântica, a integração de assinaturas pós-quânticas, auditorias formais de segurança e a criação de ferramentas de software e migração institucional.
Dessa forma, o capital pode destravar trabalhos que dependem de código revisado e infraestrutura operacional. No entanto, o financiamento não define, por si só, o desenho final da atualização nem o ritmo de adoção da rede.
Além disso, a governança descentralizada do Bitcoin exige coordenação entre desenvolvedores, mineradores, operadores de nós, carteiras, exchanges, custodiantes e usuários. Portanto, qualquer alteração relevante precisa passar por amplo consenso da comunidade.
O risco técnico discutido hoje tem duas janelas principais. Em primeiro lugar, existe uma ameaça de longo prazo. Um computador quântico suficientemente poderoso poderia usar o algoritmo de Shor para recuperar uma chave privada a partir de uma chave pública de curva elíptica já exposta. Depois disso, poderia forjar uma assinatura válida. Nesse cenário, chaves já visíveis on-chain ofereceriam ao invasor uma janela longa de ataque.
Em segundo lugar, há uma janela mais curta, que depende de velocidade. Em muitos gastos de Bitcoin, a chave pública se torna visível enquanto a transação aguarda no mempool. Assim, se um ataque quântico rápido se tornar viável no futuro, o intervalo entre envio e confirmação poderia abrir espaço para exploração.
O rascunho do BIP 360 identifica como particularmente expostos, por longos períodos, os formatos pay-to-public-key, bare multisignature e saídas Taproot. Além disso, o texto destaca que reutilização de endereços, chaves públicas estendidas e descritores de carteiras podem revelar material vulnerável. Por outro lado, saídas protegidas por hash mantêm a chave pública oculta até o momento do gasto ou outra forma de divulgação.
De acordo com esse rascunho, uma soft fork poderia adicionar um novo tipo de saída chamado Pay-to-Merkle-Root, ou P2MR. A ideia é remover o key path do Taproot, com o propósito de reduzir a exposição de longo prazo e preservar espaço para a adoção futura de esquemas de assinatura mais robustos.

BIPs em rascunho mostram escala do desafio
No entanto, o BIP 360 continua em estágio de rascunho e cobre apenas a primeira janela de exposição. Em outras palavras, proteger uma transação depois que sua chave aparece no mempool pode exigir assinaturas pós-quânticas. Isso amplia a complexidade técnica da mudança.
A própria Galaxy Digital reconhece que o financiamento pode ajudar a converter pesquisa em código revisado e ferramentas de migração. Ainda assim, ele não escolhe qual padrão técnico a rede adotará. Além disso, um segundo texto, o BIP 361, ilustra a escala operacional do desafio.
Esse BIP informativo em rascunho depende de uma proposta de assinatura pós-quântica que ainda não foi especificada. Mesmo assim, ele descreve uma transição em duas fases ao longo de cerca de cinco anos após uma eventual ativação. Contudo, o cronograma funciona apenas como cenário possível, não como roteiro formalmente adotado pelo Bitcoin.
Depois da escolha de um desenho técnico, a rede ainda precisaria passar por revisão da proposta e das assinaturas, auditorias, atualizações de carteiras e nós, upgrades institucionais e migração dos detentores de BTC. Nesse sentido, os usuários também precisariam de tempo para mover fundos para saídas protegidas enquanto as assinaturas atuais ainda permanecessem seguras para uso. Por conseguinte, cada dependência torna uma resposta de última hora mais difícil.
O movimento da Galaxy ocorre em um contexto mais amplo. Em agosto de 2024, o National Institute of Standards and Technology finalizou três padrões pós-quânticos, incluindo dois voltados para assinaturas digitais. O órgão também recomendou integração antecipada justamente porque processos de migração levam tempo.
Além disso, a Ordem Executiva 14412 orienta o Office of Management and Budget a exigir que sistemas federais específicos adotem assinaturas pós-quânticas até 31 de dezembro de 2031. Essas regras valem apenas para sistemas do governo dos Estados Unidos. Portanto, não funcionam como previsão sobre quando o hardware quântico necessário estará disponível. Ainda assim, reforçam a lógica de iniciar a preparação com antecedência.
Para o Bitcoin, a discussão não se limita a uma ameaça teórica. A rede ainda precisa de um modelo de assinatura amplamente revisado, consenso comunitário e tempo suficiente para que usuários movam fundos para estruturas mais protegidas. Em suma, o aporte de até US$ 5 milhões da Galaxy Digital, os rascunhos do BIP 360 e do BIP 361, os padrões pós-quânticos do NIST concluídos em 2024 e o prazo federal de 2031 explicam por que a preparação começou agora.