Glassnode: Bitcoin a US$ 60 mil tem pouca demanda
O Bitcoin tocou US$ 59.537 na noite anterior e perdeu a faixa de US$ 60 mil, que vinha atuando como nível decisivo para o mercado. Ainda assim, no recorte usado pela análise, o ativo reagia para perto de US$ 61.600. Frente ao pico de fim de maio, em US$ 77.623, a criptomoeda ficou quase US$ 18 mil abaixo.
A Glassnode atribuiu a correção principalmente a uma falha de demanda no mercado à vista, e não a liquidações excessivas em derivativos. Além disso, o movimento coincidiu com saídas persistentes dos ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos e com um ambiente macroeconômico mais duro. O cenário combinou dólar forte e rendimentos dos Treasuries em alta.
Mercado à vista lidera a pressão sobre o Bitcoin
Segundo a Glassnode, o Spot Cumulative Volume Delta, ou CVD do mercado à vista, caiu mais rápido que o CVD de futuros nos dias anteriores ao rompimento. Ao mesmo tempo, o open interest permaneceu contido. O funding também seguiu positivo, mesmo com a queda do preço.
Dessa forma, os dados sugerem que detentores reais reduziram exposição. Ou seja, o movimento não veio apenas de traders alavancados forçados a sair.
Essa diferença importa porque uma limpeza de alavancagem costuma perder intensidade quando as liquidações drenam o excesso do sistema. Já uma venda puxada pelo mercado à vista pode durar mais. Afinal, ela depende de compradores com convicção para absorver a oferta disponível.
ETFs spot registram seis semanas de saídas
No mesmo período, os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos acumularam seis semanas seguidas de saídas. Ao todo, cerca de US$ 6 bilhões deixaram esses produtos. No pior momento da correção de junho, os fluxos líquidos ficaram próximos de US$ 300 milhões negativos por dia.
Além disso, o IBIT, da BlackRock, registrou o maior resgate diário de 2026 ao perder sozinho US$ 388 milhões em 2 de junho. Segundo a análise, esse comportamento inverteu o padrão de correções anteriores. Antes, investidores aproveitavam quedas para comprar. Desta vez, em contrapartida, parte dos detentores de ETFs preferiu reduzir risco.
Ambiente macroeconômico amplia a fraqueza do BTC
A deterioração técnica coincidiu com um cenário macro mais hostil. De acordo com a Glassnode, um relatório forte do mercado de trabalho dos Estados Unidos no início de junho mudou as expectativas de juros. Os mercados monetários passaram a precificar integralmente uma alta pelo Federal Reserve até o fim do ano, no lugar dos cortes esperados anteriormente.
Como resultado, os rendimentos dos Treasuries de dois anos subiram 12 pontos-base, para 4,16%. Enquanto isso, o dólar avançou para a máxima em um ano. Ao mesmo tempo, o Nasdaq 100 caiu cerca de 5% em uma única sessão, e um índice do setor de chips recuou 10%.
Nesse contexto, o Bitcoin voltou a negociar como um ativo sensível à liquidez global e ao apetite por risco. A Glassnode também destacou que o índice do dólar subiu para 101,15 em 23 de junho. Além disso, o dólar voltou a ficar acima da média móvel de 200 dias, enquanto o Bitcoin seguia bem abaixo da própria média de 200 dias. As ações, por outro lado, já haviam recuperado esse patamar.
Modelos on-chain apontam zona estrutural de baixa
Pelos modelos de valuation da Glassnode, o True Market Mean do Bitcoin está em US$ 77 mil. Assim, o preço atual fica cerca de 23% abaixo desse nível. A empresa trata esse indicador como uma fronteira entre regimes estruturais mais amplos de alta e de baixa.
Portanto, o ativo entrou em uma área que a análise descreve como território estrutural de baixa. Esse quadro mostra desconto frente ao custo médio dos investidores ativos e, ao mesmo tempo, um regime de demanda fraca.
Outro dado relevante reforça essa leitura. A média de 90 dias de lucro e prejuízo realizado líquido está em cerca de US$ 205 milhões negativos por dia. Em outras palavras, o mercado segue realizando perdas de forma contínua.
Essa dinâmica desloca o centro de gravidade do preço para o Realized Price, próximo de US$ 53.400. Esse nível fica bem abaixo do True Market Mean de US$ 77 mil. Desse modo, ele passa a ser a principal referência de baixa no curto prazo.

Fonte: Glassnode
Faixa entre US$ 66,8 mil e US$ 70,7 mil trava recuperação
A base de custo dos detentores de curto prazo caiu para US$ 71.400. Segundo a Glassnode, esse movimento representa um sinal inicial construtivo. Afinal, compradores mais recentes acumulam abaixo da média cíclica mais ampla pela primeira vez.
Ainda assim, o mercado precisa superar uma barreira importante antes de confirmar melhora. Na avaliação da empresa, o obstáculo estrutural mais claro para qualquer recuperação está entre US$ 66.800 e US$ 70.700.
Essa zona concentra grande volume de oferta de detentores de curto prazo que compraram recentemente e agora operam no prejuízo. Portanto, se o preço voltar a subir até essa faixa, muitos podem vender perto do ponto de equilíbrio.
Acima dessa região, o próximo nível relevante aparece justamente na base de custo dos detentores de curto prazo, em US$ 71.400. Caso o Bitcoin avance de forma sustentada até esse ponto, os compradores da queda mostrariam mais capacidade de sustentação. Mais acima, o True Market Mean em US$ 77 mil exigiria revisão da leitura estrutural de baixa.
Demanda regional e opções mostram cautela
A Glassnode também identificou diferença regional na demanda. O CVD spot da Coinbase voltou ao território positivo, enquanto o da Binance permaneceu negativo. Assim, os dados sugerem recomposição marginal da demanda institucional nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, operadores offshore ainda mostram cautela.
Os dados de opções reforçam esse quadro defensivo. Segundo a empresa, o skew de 25 delta voltou a subir em vários vencimentos. No contrato de uma semana, o indicador passou de cerca de 12% para 24%. No de um mês, avançou de aproximadamente 14% para 23%.
Isso significa que opções de venda negociam com prêmio relevante sobre opções de compra equivalentes. Em outras palavras, o mercado aumentou a busca por proteção.
Dois cenários ganham força no curto prazo
Para a Glassnode, existe um cenário de recuperação caso os fluxos dos ETFs se estabilizem e a melhora das compras na Coinbase se espalhe para outras corretoras. Nesse caso, o mercado precisaria reconquistar primeiro a faixa entre US$ 66.800 e US$ 70.700. Em seguida, teria de testar os US$ 71.400.
Houve um primeiro sinal nessa direção em 23 de junho, quando os ETFs registraram entradas líquidas de US$ 39,2 milhões, lideradas por ARKB e MSBT. No entanto, a própria análise pondera que um único pregão positivo não resolve a tendência.
No cenário de estagnação, o Bitcoin pode seguir perto de US$ 60 mil, mas sem força para romper a oferta acima, especialmente abaixo de US$ 66.800. Já no cenário mais negativo, uma retomada da venda spot, novas saídas dos ETFs e o aprofundamento das perdas realizadas podem empurrar o ativo na direção do Realized Price em US$ 53.400.
Por ora, mesmo com desconto nas principais métricas de valuation da Glassnode há várias semanas, o Bitcoin ainda não atraiu demanda suficiente para transformar esse desconto em recuperação.