Goldman indica consumo e compounders fora da IA
A turbulência recente em Wall Street reforçou um alerta para a segunda metade de 2026. A concentração excessiva em ações ligadas à inteligência artificial entrou em uma fase de instabilidade mais aguda. Na semana passada, o S&P 500 recuou 1,6%, enquanto o Nasdaq caiu 2,9%. Ao mesmo tempo, o ETF Global X Artificial Intelligence & Technology caiu 7,5%, o que ampliou a busca por alternativas fora do núcleo de IA.
Um relatório publicado após o fechamento de sexta-feira indicou essa mudança de tom. A equipe de estrategistas do Goldman Sachs, liderada por Ben Snider, afirmou que a volatilidade recente dificultou a defesa de uma visão otimista, mesmo entre gestores ainda construtivos com a infraestrutura de IA.
Embora muitos gestores de fundos tenham mantido uma visão fundamentalista positiva sobre o complexo de infraestrutura de IA, a volatilidade recente dificultou sustentar essa postura. Nossas conversas com investidores também se concentraram no desafio de encontrar oportunidades de investimento que não estejam ligadas à IA.
Assim, o banco estruturou duas cestas temáticas com o propósito de diversificar investimentos e capturar crescimento em áreas menos dependentes do ciclo tecnológico. A primeira cesta recebeu o nome de experiência do consumidor. A segunda reúne os chamados compounders, ou seja, empresas com alta rentabilidade, expansão consistente de lucros e desconto relevante em bolsa.
Consumo presencial ganha espaço na tese do banco
A cesta de experiência do consumidor reúne empresas expostas a eventos ao vivo, lazer e vivências presenciais. Em outras palavras, são negócios menos dependentes da expansão de data centers e da infraestrutura ligada à inteligência artificial. Além disso, essas companhias tendem a capturar uma mudança importante no padrão de consumo, já que parte crescente do público prioriza experiências memoráveis em vez de bens materiais.
Formula One Group aparece entre os destaques
A Formula One Group, negociada sob o código FWONK, aparece entre as opções mais atraentes dentro dessa estratégia. As ações de rastreamento da Liberty Media seguem entre as preferidas do Morgan Stanley, que reiterou a companhia como uma de suas principais apostas e definiu preço-alvo de US$ 120. Isso implica potencial de valorização de 21%.
Segundo o analista Sean Differley, o automobilismo ainda é um mercado pouco penetrado e submonetizado. Ademais, na visão dele, os principais vetores de crescimento estão na expansão da categoria nos Estados Unidos e na China. O consenso também segue favorável, visto que 11 dos 13 analistas que acompanham o papel recomendam compra ou compra forte.
Live Nation ganha força com demanda global por shows
Outro nome citado pelo Goldman Sachs é a Live Nation, dona da Ticketmaster. A empresa ganhou relevância por causa da demanda robusta por concertos e grandes espetáculos em escala global. O UBS elevou nesta segunda-feira seu preço-alvo para US$ 208, o que representa potencial de alta de 15%.
Segundo a analista Batya Levi, a frequência nos principais locais de eventos deve continuar crescendo em ritmo de dois dígitos ao redor do mundo. Dessa forma, a tese de gastos resilientes com experiências ganha força, mesmo em um ambiente de rotação setorial para fora da tecnologia.
Compounders miram qualidade, retorno e desconto
A segunda cesta elaborada pelo Goldman Sachs reúne empresas com histórico sólido de crescimento de lucro e elevados retornos sobre capital. No entanto, o banco avalia que essas ações ficaram para trás em relação ao mercado mais amplo. Por conseguinte, abriu-se espaço para uma reprecificação com margem de segurança pouco comum para negócios de alta qualidade.
MSCI combina recorrência e menor risco de disrupção
Entre os nomes selecionados está a MSCI Inc., referência global em índices financeiros. A companhia recebeu apoio da Jefferies, que iniciou a cobertura do papel com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 760. O valor embute potencial de valorização de 22%.
A empresa possui forte vantagem competitiva, uma base de clientes em expansão, crescente exposição aos mercados privados, receitas recorrentes com elevada visibilidade e risco extremamente limitado de disrupção por parte da IA.
Conforme afirmou o analista Surinder Thind, a MSCI representa com clareza a lógica da cesta de compounders. Isto é, trata-se de um negócio consolidado, com qualidade operacional elevada, receita previsível e baixa dependência do entusiasmo recente em torno da inteligência artificial.
Marriott International aparece nas duas estratégias
A Marriott International ocupa uma posição singular, porque aparece simultaneamente nas duas cestas do Goldman Sachs. Ao mesmo tempo, a companhia se beneficia da demanda por experiências dos consumidores e mantém atributos típicos de um compounder, como geração consistente de retornos e modelo operacional eficiente.
O Morgan Stanley elevou o preço-alvo das ações da rede hoteleira de US$ 353 para US$ 380. Segundo o analista Stephen Grambling, a empresa passou por uma transformação profunda ao longo da última década.
A companhia se desfez de seus ativos imobiliários diretos, separou seu negócio de multipropriedade e migrou seus contratos de gestão para estruturas mais variáveis. Acreditamos que essas mudanças estruturais reduzem consideravelmente sua exposição aos ciclos econômicos e devem impulsionar uma reavaliação adicional pelo mercado.
Essa evolução tornou a Marriott mais leve em ativos e mais resiliente. Portanto, sua presença nas duas cestas faz sentido dentro da leitura do banco. Afinal, ela combina exposição ao consumo de experiências com características defensivas de geração de caixa.
As cestas propostas pelo Goldman Sachs não representam uma migração defensiva para caixa. Em vez disso, apontam para uma realocação estratégica de capital em direção a empresas com vantagens competitivas tangíveis, receitas previsíveis e menor correlação com o ciclo recente das ações de IA. Nesse sentido, Formula One Group, Live Nation, MSCI e Marriott International oferecem caminhos distintos, porém complementares, para investidores que buscam diversificação em 2026.