Golpe cripto causa perda de 1,5 milhão de euros na França

Uma rede de golpe com criptomoedas atuava a partir da Albânia e fraudou 19 vítimas na França. As perdas chegaram perto de 1,5 milhão de euros, em apuração divulgada pela AFP. O esquema funcionava em escritórios de alto padrão em Tirana, capital albanesa. Ali, operadores se passavam por consultores de investimento dos Estados Unidos e direcionavam as vítimas a plataformas falsas de aplicação financeira ligadas a criptomoedas.

Em um dos casos citados na investigação, uma vítima perdeu 80 mil euros após começar com um depósito de apenas 250 euros. Além disso, autoridades da França e da Albânia detiveram cinco cidadãos albaneses após uma operação conjunta.

Call centers em Tirana sustentavam a fraude

Tirana passou a ser vista como uma base favorável para centrais fraudulentas que miram investidores europeus. Para o ex-policial Fatjon Softa, três fatores ajudam a explicar esse ambiente: mão de obra multilíngue, baixo custo operacional e canais acessíveis para lavagem de dinheiro.

Dentro desses centros, os trabalhadores seguiam um processo organizado para conquistar a confiança dos alvos. Segundo um ex-operador identificado apenas como Jon, em relato à AFP, havia uma divisão clara de tarefas. Primeiro, outras pessoas localizavam possíveis vítimas. Em seguida, os contatos chegavam até ele, cuja função era convencê-las a investir.

Jon afirmou que moldava sua abordagem com base em Jordan Belfort, o corretor fraudulento retratado no filme O Lobo de Wall Street, de 2013. Assim, enquanto trabalhava em um prédio de luxo em Tirana, ele dizia ser um assessor americano em todas as ligações.

Segundo seu relato, o salário mensal era de 1.450 euros antes dos bônus. O valor ficava quase três vezes acima do salário mínimo da Albânia, de 500 euros. Dessa forma, ele descreveu a função como uma excelente oportunidade e muito bem remunerada.

Mesmo agora respondendo por acusações de fraude, com pena que pode variar de três a dez anos de prisão, Jon não demonstrou arrependimento. Em declaração à AFP, disse que não via motivo para ter escrúpulos se as pessoas caíam no esquema. Além disso, resumiu sua função como atrair as vítimas e convencê-las a investir. Ele também afirmou que, em alguns momentos, chegou a se sentir orgulhoso do próprio desempenho.

Declaração expõe a lógica da operação

“Não vejo por que deveria ter qualquer escrúpulo se as pessoas caem nisso”, disse Jon, que trabalhou em um call center de golpes. “Meu trabalho era atraí-las.”

AFP no X

Vítimas francesas relataram pressão psicológica intensa

A investigação começou após uma denúncia apresentada em 2023 sobre uma perda de 30 mil euros na plataforma de negociação Universatrade.io. A partir daí, policiais de Pau, no sudoeste da França, identificaram 19 vítimas francesas.

Em uma operação posterior contra os call centers na Albânia, os investigadores recuperaram um disco rígido com nomes e dados de contato das vítimas. Com isso, reforçaram o mapeamento da rede e ampliaram a compreensão do esquema.

Uma das vítimas, uma empresária francesa identificada como Chantal, contou à AFP que tudo começou com um anúncio online sobre investimentos em petróleo. Cerca de dez minutos depois, ela recebeu uma ligação. Segundo seu relato, pensou em obter um ganho extra porque sua filha estava prestes a se casar.

A plataforma parecia legítima. Havia perfis no LinkedIn e até documentos de identidade falsos para sustentar a aparência de credibilidade. Depois do depósito inicial de 250 euros, o valor supostamente quadruplicou quase de imediato. Como resultado, ela aprofundou sua participação no esquema.

Com o passar do tempo, Chantal transferiu 80 mil euros para a conta. No entanto, o problema surgiu quando tentou sacar os recursos. Nesse momento, os fraudadores passaram a telefonar entre 15 e 20 vezes por dia para pressioná-la a fazer novos depósitos.

Ela relatou que ficou vários dias sem dormir, temendo o que poderia acontecer em seguida. Em seu depoimento à AFP, afirmou que o cérebro simplesmente deixa de suportar a situação. A empresária disse que chegou ao limite, mas teve ajuda da família a tempo de interromper a espiral de perdas.

Esquema sofisticado ampliou os prejuízos

Chantal resumiu o impacto do esquema ao dizer que os criminosos roubam mais do que dinheiro, pois também retiram a dignidade da vítima. Uma fonte próxima à investigação afirmou que os golpes eram muito bem montados e sofisticados. Assim, rebateu a ideia de que os afetados agiram apenas por descuido.

O caso mostra como esse golpe combinava estrutura profissional, falsa identidade, pressão psicológica e plataformas fraudulentas para capturar investidores franceses. A investigação reuniu denúncias iniciadas em 2023, identificou 19 vítimas, estimou prejuízo de quase 1,5 milhão de euros e levou à detenção de cinco cidadãos albaneses. Ao mesmo tempo, relatos como o de Chantal e as declarações de Jon expõem tanto o método de convencimento quanto o impacto humano da fraude.