Google aposta em custódia cripto para reduzir riscos de ataques

•

O Google Cloud prepara uma nova solução de custódia de criptoativos baseada em computação multipartidária (MPC), tecnologia que distribui o controle das chaves criptográficas entre diferentes ambientes. A iniciativa busca atender bancos e instituições financeiras que desejam operar com ativos digitais sem concentrar em um único ponto as credenciais necessárias para movimentar recursos. Além disso, o serviço incorpora políticas de transação e mecanismos de recuperação de chaves.

A novidade aproxima a gigante da tecnologia de um mercado que já conta com empresas especializadas em segurança e custódia de criptomoedas. Ao mesmo tempo, responde ao avanço da tokenização, que permite representar ativos em redes blockchain, e à demanda por infraestrutura capaz de proteger operações financeiras. Nesse cenário, o Google pretende combinar seus recursos de computação em nuvem com controles voltados especificamente para transações com ativos digitais.

Google amplia sua infraestrutura para ativos digitais

O Google afirma que, antes dessa iniciativa, não oferecia um produto dedicado de custódia MPC para criptomoedas. Suas ferramentas de produção já incluíam o Google Cloud Key Management Service (KMS) e o Cloud HSM , serviços que instituições utilizam para gerenciar e proteger chaves criptográficas. A nova oferta acrescenta recursos específicos para operações com ativos digitais, sem exigir que cada cliente desenvolva toda essa estrutura internamente.

O serviço reúne assinatura baseada em MPC, políticas para autorizar transações e mecanismos de recuperação de chaves. Dessa forma, a proposta vai além do armazenamento de informações criptográficas e contempla parte dos procedimentos necessários para movimentar ativos com controles institucionais. A arquitetura também utiliza o Confidential Space, ambiente de computação projetado para proteger dados sensíveis contra acessos não autorizados.

A iniciativa dá continuidade a um trabalho técnico que o Google já apresentava em 2023. Em 5 de abril daquele ano, a empresa publicou um guia sobre como proteger ativos digitais com MPC e Confidential Space, com uma arquitetura de referência para implementar assinaturas de transações em blockchain. O material explicava como distribuir responsabilidades entre diferentes ambientes e permitir que as instituições autorizassem transferências sem expor o material criptográfico secreto em texto simples. A nova oferta avança essa abordagem ao reunir assinatura MPC, políticas de transação e recuperação de chaves em um serviço dedicado a ativos digitais.

“A adoção de ativos digitais e a tokenização estão em um ponto de inflexão”.

Afirmou Rich Widmann, diretor de estratégia de ativos digitais do Google Cloud.

Segundo o executivo, instituições financeiras regulamentadas precisam de infraestrutura escalável e comprovada para proteger os ativos de seus clientes. A fala resume a oportunidade comercial que a empresa identifica no crescimento das operações institucionais com blockchain.

Chaves privadas continuam no centro dos riscos

Uma carteira de criptomoedas depende de chaves criptográficas para autorizar determinadas operações. Se um invasor obtiver controle suficiente sobre a chave privada que protege uma carteira, poderá transferir os ativos sem a autorização do proprietário. Por isso, o gerenciamento dessas credenciais representa um dos principais desafios de segurança para empresas que ingressam no mercado de ativos digitais.

Os prejuízos acumulados pela indústria demonstram a dimensão do problema. De acordo com a Chainalysis, chaves privadas comprometidas responderam por 43,8% das criptomoedas roubadas em 2024. Além disso, dados da DeFiLlama indicaram que projetos de blockchain acumularam US$ 16,69 bilhões em perdas relacionadas a ataques e explorações até junho de 2026, com aproximadamente 40% desse total associado ao comprometimento de chaves privadas.

Casos recentes ilustram como uma única credencial comprometida pode desencadear perdas expressivas. Em março de 2026, o protocolo de stablecoin Resolv sofreu um ataque envolvendo uma chave privada comprometida, que controlava uma conta privilegiada, e vulnerabilidades no sistema de emissão. A combinação permitiu que um invasor extraísse cerca de US$ 25 milhões.

Redução da dependência de uma única chave privada

Em junho, invasores comprometeram as chaves privadas de um membro da fundação do Humanity Protocol e drenaram mais de US$ 32 milhões de pelo menos 17 carteiras. O ataque também provocou uma queda superior a 80% no preço do token do projeto. Assim, o episódio mostrou que o roubo de credenciais pode afetar não apenas os ativos diretamente desviados, mas também a confiança do mercado e o valor dos tokens associados.

Diante desse histórico, o Google pretende reduzir a dependência de uma única chave privada. A tecnologia MPC divide o controle criptográfico entre diferentes participantes ou computadores, que precisam cooperar para produzir uma assinatura válida. Dessa maneira, o sistema evita que uma única máquina concentre, sozinha, todo o material necessário para autorizar uma transação.

Segundo a empresa, a chave privada completa nunca fica armazenada em um único local. Mesmo que um invasor comprometa uma máquina, essa violação isolada não deveria permitir que ele assumisse o controle dos ativos protegidos pelo sistema. O Google também afirma que os clientes mantêm o controle do material criptográfico e que a empresa não consegue acessá-lo em formato não criptografado, mesmo quando partes da chave ficam em sua infraestrutura.

IA aumenta a preocupação com ataques digitais

Além das ameaças tradicionais, o Google apresenta a solução em um contexto de ataques cibernéticos cada vez mais sofisticados. A inteligência artificial pode ajudar criminosos a ampliar golpes e automatizar tarefas, enquanto pesquisadores investigam possíveis avanços capazes de desafiar os mecanismos criptográficos utilizados para proteger ativos digitais. Entretanto, essas duas ameaças exigem respostas diferentes.

Um estudo da Chainalysis apontou que golpes com criptomoedas associados a fornecedores de ferramentas de IA arrecadaram, em média, US$ 3,2 milhões por operação em 2025. Já os golpes sem essas ligações registraram uma média de US$ 719 mil. A diferença equivale a aproximadamente 4,5 vezes, embora os dados não comprovem que a inteligência artificial tenha causado diretamente os valores mais elevados.

O risco também envolve a capacidade de identificar falhas em sistemas e desenvolver ataques com maior eficiência. Ainda assim, é importante distinguir a automação de fraudes de uma eventual quebra da criptografia que protege as carteiras. Até o momento, nenhum sistema de IA demonstrou capacidade de quebrar as assinaturas criptográficas utilizadas para proteger as carteiras de Bitcoin ou Ethereum.

O pesquisador de Ethereum, Justin Drake, alertou recentemente que avanços em inteligência artificial poderiam revelar atalhos matemáticos capazes de comprometer essas assinaturas. Em um cenário extremo, uma descoberta desse tipo poderia ocorrer em questão de meses, em vez de anos, segundo sua avaliação. Essa possibilidade representa uma hipótese de risco futuro, e não uma demonstração de que os sistemas atuais já conseguem executar esse tipo de ataque.

Sistemas de IA podem ser usados ​​para descobrir falhas em ferramentas mal criptografadas, como o fiasco da autoridade de certificação da semana passada. As proteções atuais do MPC do Google abordam ameaças como credenciais comprometidas e transações não autorizadas, em vez de uma hipotética quebra da criptografia subjacente.

Nesse contexto, os controles do Google procuram enfrentar problemas operacionais mais imediatos. O sistema pode verificar transações contra as regras institucionais antes de autorizar uma assinatura, bloqueando operações que ultrapassem limites ou desrespeitem exigências de aprovação. Contudo, esses mecanismos não eliminam o risco de um usuário legítimo ser enganado e aprovar voluntariamente uma transferência maliciosa.

Computação quântica representa outro desafio

A computação quântica apresenta uma ameaça diferente daquelas relacionadas à inteligência artificial. Um computador quântico suficientemente poderoso poderia, em tese, comprometer determinados mecanismos criptográficos de chave pública que protegem carteiras e transações. Entretanto, nenhum computador quântico disponível atualmente consegue executar esse tipo de ataque contra as assinaturas de Bitcoin em condições práticas.

Pesquisadores do Google estimaram anteriormente que uma máquina quântica futura, com capacidade suficiente, poderia derivar uma chave privada de Bitcoin a partir de uma chave pública exposta em aproximadamente nove minutos, considerando um planejamento prévio do ataque. Essa estimativa descreve um cenário teórico e depende de recursos tecnológicos que ainda não estão disponíveis para realizar a operação.

O risco potencial, porém, alcança uma quantidade expressiva de ativos. Estimativas citadas no material indicam que cerca de 6,9 milhões de bitcoins poderiam ficar vulneráveis a futuros ataques quânticos devido à exposição de suas chaves públicas. Esse número não significa que esses bitcoins estejam sob ataque hoje, mas destaca a importância de preparar as redes e os sistemas de custódia para possíveis mudanças criptográficas.

O Google afirma que sua arquitetura permite futuras atualizações para criptografia pós-quântica, desenvolvida para proteger assinaturas digitais contra computadores quânticos suficientemente poderosos. Na disponibilidade geral anunciada pela empresa, a solução MPC foi projetada para suportar os algoritmos convencionais ECDSA e Ed25519. A empresa, entretanto, não apresentou um cronograma para incorporar recursos de assinatura pós-quântica.

Segundo o Google, as atualizações poderão acompanhar a adoção dos algoritmos necessários pelas redes blockchain, sem obrigar as instituições a redesenhar toda a infraestrutura ou interromper suas operações. Essa possibilidade pode facilitar futuras migrações, mas não significa que a proteção pós-quântica já esteja disponível no serviço. A implementação dependerá da evolução técnica da oferta e das redes que as instituições utilizam.

Como funciona a arquitetura MPC do Google

Um banco que adote o sistema poderá distribuir os componentes necessários à assinatura entre diferentes ambientes. Por exemplo, a instituição pode manter uma parte do material criptográfico no Google Cloud, outra em seu próprio hardware e uma terceira com outro provedor de nuvem. Essa divisão busca evitar que um único fornecedor concentre todo o controle sobre as credenciais.

Quando o banco deseja movimentar ativos, a transação entra no Confidential Space do Google. Nesse ambiente, um mecanismo de políticas verifica a operação segundo as regras estabelecidas pela instituição antes de permitir o início da assinatura. A tecnologia utiliza ambientes de computação isolados por hardware, projetados para proteger informações sensíveis contra acessos indevidos.

As regras podem limitar o valor de cada transferência, restringir as carteiras de destino e exigir aprovações de diferentes departamentos. Dessa forma, uma operação que ultrapasse determinado limite ou não cumpra os requisitos internos pode ser bloqueada antes da assinatura. Esses controles acrescentam uma camada de governança ao processo de movimentação dos ativos.

Configurações de assinaturas

O sistema também pode utilizar diferentes configurações de assinatura. Uma instituição pode, por exemplo, exigir a participação de dois entre três participantes ou de cinco entre sete para produzir conjuntamente uma assinatura válida. A escolha depende da política de segurança e das necessidades operacionais de cada cliente.

Essa flexibilidade atende a uma preocupação importante dos bancos: aproveitar a conveniência da computação em nuvem sem entregar a um único fornecedor o controle integral das credenciais. O Google afirma que os clientes podem distribuir os componentes entre seus próprios equipamentos, a infraestrutura da empresa e serviços concorrentes. Além disso, a oferta inclui assinatura rápida de transações e recuperação de chaves.

No entanto, o Google não apresentou comparações de desempenho verificadas de forma independente com produtos de custódia existentes. Portanto, ainda não há, no material divulgado, uma base independente para afirmar que a solução supera os concorrentes em velocidade, segurança ou recuperação de credenciais. A avaliação institucional precisará considerar os recursos disponíveis e os resultados de testes adequados.

Google entra em um mercado competitivo

A iniciativa aproxima o Google de empresas especializadas em segurança de criptomoedas, como Fireblocks, Fordefi e BitGo. Esses provedores oferecem tecnologias para ajudar instituições a proteger ativos digitais, administrar credenciais e autorizar transações em blockchain. Com a nova oferta, o Google passa a disputar espaço em um segmento que exige conhecimento técnico e confiança institucional.

A empresa argumenta que seus relacionamentos com bancos e sua experiência em segurança podem diferenciá-la dos concorrentes. Também identifica uma oportunidade entre instituições que hesitam em depender de provedores especializados que disputam os mesmos clientes no mercado de custódia. Nesse cenário, o Google procura se posicionar como fornecedor de infraestrutura para instituições que desejam administrar seus próprios serviços.

Essa estratégia, porém, não elimina os riscos associados à dependência de fornecedores de tecnologia. Mesmo com a distribuição das credenciais entre diferentes ambientes, uma instituição pode continuar dependendo do Google para componentes do software, políticas de transação e infraestrutura operacional. A divisão das chaves reduz determinados pontos de falha, mas não substitui a avaliação de todos os elementos do sistema.

A segurança também depende da configuração adotada pelo cliente. As instituições precisam proteger os participantes responsáveis pelas assinaturas, controlar o acesso administrativo e impedir que pessoas não autorizadas alterem as regras de aprovação. Além disso, devem avaliar os procedimentos de recuperação de chaves e a resposta a incidentes.

O principal teste será a capacidade do Google de convencer instituições financeiras de que sua solução oferece uma alternativa adequada aos provedores especializados. A adoção dependerá não apenas da tecnologia, mas também de avaliações de segurança, governança, desempenho e confiabilidade. À medida que bancos ampliam suas operações com ativos digitais, a custódia continuará no centro das decisões sobre como proteger recursos em blockchain.

Google Notícias

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.   Adicione-nos como sua fonte preferida no Google    e toque em “Favorito” para priorizar nossas atualizações.