Hack da Binance expõe risco ligado à Coreia do Norte

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O roubo de US$ 6,3 bilhões sofrido pela Binance em 29 de outubro já é o maior da história das criptomoedas. No entanto, o impacto do ataque pode ir além das perdas financeiras. O FBI atribuiu a operação ao TraderTraitor, grupo ligado ao Grupo Lazarus, da Coreia do Norte.

Caso essa atribuição se consolide, o ataque não terá partido de uma quadrilha comum. A ação envolveria um Estado submetido a sanções internacionais, que encontrou na blockchain uma fonte de recursos difícil de bloquear. Com isso, o episódio amplia o debate sobre os limites das restrições financeiras tradicionais.

A Binance recompôs cerca de 95% dos ativos afetados com recursos próprios e reabriu os saques. Para os usuários da corretora, o incidente se aproxima de uma resolução. Nesse cenário, autoridades e empresas ainda tentam impedir que os recursos roubados cheguem a Pyongyang.

Ataque segue padrão de operações norte-coreanas

Segundo a Chainalysis, grupos ligados à Coreia do Norte roubaram US$ 2,02 bilhões em criptomoedas durante 2025. O valor representou alta de 51% em relação ao ano anterior. Também correspondeu a quase 60% de tudo que foi furtado no ecossistema naquele período.

Naquele momento, a empresa estimava em US$ 6,75 bilhões o total histórico atribuído a esses grupos. Antes do caso da Binance, o maior ataque individual havia atingido a Bybit em fevereiro de 2025. A invasão provocou perdas de aproximadamente US$ 1,5 bilhão e também foi atribuída pelo FBI ao TraderTraitor.

Em comparação, o ataque à Binance supera em mais de quatro vezes o roubo contra a Bybit. O valor também triplica o montante que o regime teria obtido durante todo o ano de 2025. Em uma única noite, a quantia quase alcançou o total histórico associado à Coreia do Norte até então.

Grupos realizam menos ataques, mas ampliam impacto

Em 2025, a Chainalysis identificou uma mudança na estratégia dos invasores. O recorde anual ocorreu apesar de uma queda de 74% no número de ataques conhecidos. Ainda assim, as operações se tornaram mais seletivas e causaram prejuízos maiores.

Na prática, parte dessa eficiência estaria ligada à infiltração de profissionais norte-coreanos em empresas do mercado cripto. Essa estratégia pode fornecer o acesso privilegiado necessário para ataques dessa dimensão. Contudo, não há evidência pública de que um infiltrado tenha participado do caso da Binance.

Conforme as informações disponíveis, o invasor acessou os sistemas por meio do laptop comprometido de um engenheiro. Depois, o co-CEO Richard Teng reconheceu que existiam outros pontos de entrada. Cerca de US$ 2,5 bilhões saíram em minutos por um mecanismo de autodestruição e pela delegação de contas EIP-7702 do Ethereum.

Sanções tradicionais encontram limites na blockchain

A Coreia do Norte permanece isolada do sistema financeiro internacional por sanções das Nações Unidas e dos Estados Unidos. Essas restrições limitam o acesso do país a bancos, correspondentes bancários e parte relevante do comércio exterior. Apesar disso, o roubo de criptomoedas pode funcionar como fonte de divisas capaz de contornar controles.

O FBI afirma há anos que o regime usa esses recursos para financiar programas de mísseis balísticos e armas de destruição em massa. Da mesma forma, a Chainalysis sustenta que parte dos valores roubados segue diretamente para esses programas. Até agora, porém, não existe um rastro público que comprove esse destino específico para os fundos retirados da Binance.

As autoridades publicaram mais de 600 endereços de Ethereum, quase 20 de Bitcoin e um de Solana ligados ao saque. Além disso, FBI, Serviço Secreto e Receita Federal dos Estados Unidos pediram o bloqueio de transações envolvendo esses endereços. Dessa maneira, a execução das sanções depende, em grande parte, de corretoras, pontes, protocolos DeFi e softwares de código aberto.

Lavagem dos recursos cria corrida contra o tempo

A parcela do montante que ainda pode ser interrompida depende principalmente de emissores centralizados. A Binance calcula que cerca de US$ 3 bilhões foram congelados, sobretudo em USDT e USDC. Em contrapartida, Bitcoin e Ether não oferecem mecanismos semelhantes de bloqueio.

A Chainalysis detectou que o invasor converteu US$ 325 milhões em stablecoins para Ether antes dos congelamentos. A operação indica conhecimento detalhado sobre os pontos de controle do mercado de criptomoedas. Enquanto isso, os 18.270 BTC roubados, distribuídos entre 19 carteiras, permanecem fora do alcance desses emissores.

Jonathan Levin, CEO da Chainalysis, afirmou que os responsáveis já operam com milhares de endereços. À medida que os fundos forem movimentados, ele prevê que esse número alcance dezenas de milhares nas próximas semanas. Em 2025, valores atribuídos à Coreia do Norte passaram principalmente por plataformas em chinês, pontes entre redes e mixers.

Com a atribuição do FBI, o mercado cripto assume uma posição central na política global de sanções. Por outro lado, um Estado isolado pode obter nesses sistemas recursos negados pelas finanças tradicionais. O ataque evidencia que as sanções foram estruturadas para bancos, enquanto o dinheiro ligado a Pyongyang circula por caminhos diferentes.

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